• Clio Operária

"O capitalismo pode ser antirracista": Nós estamos no tronco

Texto em resposta ao artigo "O capitalismo pode ser antirracista", publicado no último dia 24/11, na coluna de opinião da Folha de São Paulo por Irapuã Santana.


Bruno Borges & Paula Foltran (redação d'O Canhoto)

Vinicius Souza (Clio Operária)


"Revolucionários o Brasil

Fogo no pavio

Vamo libertar nosso povão

Com pão trabalho terra e fuzil vai

Fogo no pavio

No sentido da revolução"

(Fogo no pavio - Camarada Janderson)

Imagem: Black Money

Nós estamos sendo atacados. Sabíamos que golpes viriam de vários lados, de várias frentes. O ano de 2013 foi só o prenúncio, o aviso de que com o capital não se flerta, não se negocia. Ainda havia a esperança dos tolos. A sensação da incredulidade: “vai passar”. A cada novo evento do absurdo ficava mais evidente que as normalidades eram os retrocessos, o fim dos direitos, a violência, a banalidade do mal. O povo vem perdendo a capacidade de se chocar, de se revoltar. E isso é resultado também dos golpes daqueles que nos traem por perto, “de dentro”. Cada um de nós teve o clique, aquele momento da percepção total (uns mais cedo, outros mais tarde) de que o caminho que estamos trilhando não vai passar. Pelo menos não sem a organização popular da classe trabalhadora. Nós estamos sendo atacados e os golpes vêm de todos os lados: de onde menos se espera. Para nós, facadas desferidas por um irmão negro contra outro irmão negro na periferia de Salvador, em 2018, evento que nos levou mestre Moa do Katendê, representa muito do que viveríamos nos anos seguintes, após a eleição da extrema-direita, do fascismo, do capitalismo em estado bruto. Estamos sendo atacados.


Essa semana, a mesma em que um irmão negro escreve desavergonhadamente que o Capitalismo pode ser Antirracista, mesma semana em que ainda amargamos a morte de outro irmão negro espancado dentro de uma loja que é a cara do imperialismo, a Fundação Palmares anuncia a entrada da atriz Jacira de Almeida Sampaio à lista de personalidades negras brasileiras. Uma merecida homenagem, ninguém negará, mas num contexto complexo em que nossas vozes estão sendo mobilizadas para nos silenciar, nos apartar, nos colocar uns contra os outros. Antes de 1977, quando a atriz deu vida à personagem do eugenista Monteiro Lobato, Tia Nastácia, “a negra de estimação”, “a preta beiçuda”, ignorante e bárbara, Jacinta Sampaio tinha quase duas décadas de atuação. Depois de 77, quase outras duas décadas de trabalho. Fez novelas, minisséries, teatro. Foi professora e ensinou novos aspirantes das artes cênicas. Mas foi sua imagem representando a condição de subalternidade do negro em nossa sociedade a escolhida para eternizá-la na lista da Fundação Palmares. É na sutileza do detalhe que mora a crueldade sádica deste governo e seus correligionários infiltrados na máquina de poder. Estamos sendo atacados.


O artigo na Folha, jornal que apoia e arquiteta golpes contra a democracia e contra os interesses do povo desde sempre, difundindo mentiras, manipulando, deturpando, diz que o capitalismo nasce séculos após o escravismo. Mas não qualquer escravismo, aquele que sustentou a economia de expansão dos países europeus a partir das grandes invasões do século XVI. Uma mentira e um erro crasso. Uma mentira para sustentar outra: a de que racismo e capitalismo não têm nada a ver um com o outro. Erro histórico. A “aventura” europeia das grandes navegações era o capital se movimentando, buscando expansão, novos mercados. A invenção das Américas, a invenção da África, a invenção da Europa e a invenção, a partir disso, do negro e das raças, é o marco do surgimento do sistema-mundo-moderno-colonial-capitalista-globalizado-racista. Não nos estranham “erros” dessa natureza, eles são propositais. São ataques rasteiros à radicalidade imprescindível que a negritude que está na vitrine insiste em negar. Achille Mbembe não deixa passar fragilidades como essas, afinal “para que se tornasse um hábito, a lógica das raças precisava ser agregada à lógica do lucro”[1].. É chegada a hora de denunciar a seletividade desonesta que se faz nas hordas reacionárias, como quando se alega um suposto “sul global inerente”, a Kamala Harris, ou quando notamos o esforço de “pluralizar” Angela Davis de seu marxismo, algo já denunciado alhures.


Tendo lido e entendido Marx, tarefa adiada constantemente pelo Black Money, sempre de agenda cheia, é a própria Crítica da Razão Negra quem denuncia: “Se há algo que distingue os regimes de escravidão transatlânticas das formas autóctones de escravidão nas sociedades africanas pré-coloniais é precisamente o fato de estas nunca terem sido capazes de extrair de seus cativos uma mais-valia comparável à que se obteve no Novo Mundo”. [2] Basta da vileza em usar as palavras do camaronês apenas para questionar o lugar-comum daqueles que dizem ter havido escravidão na África. Há muito mais aqui. Mbembe é explícito na essência do que diz e nos elementos que usa em sua análise: “o escravo de origem africana no Novo Mundo representa, assim, uma figura relativamente singular do negro, cuja especificidade era a de ser uma das engrenagens essenciais do processo de acumulação em escala mundial” [3].


A escravização de pessoas sequestradas do lugar chamado “África” e trazidas para o lugar chamado “América” pelos colonizadores europeus não é uma continuidade das escravidões que se conheceu no mundo pré-moderno. Mas dizer isso não basta. Marx chama atenção para o fato de se tratar de um contexto de produção capitalista, o que tornaria a brutalidade e a violência piores, pois os escravizados tidos como instrumentos de produção eram usados à exaustão na extração da mais valia, obrigados a trabalhar até a morte. Do sul ao norte das Américas, a escravização era a espinha dorsal do capitalismo em expansão. Não existiria capitalismo sem escravismo. A escravidão foi sustentada ideologicamente por séculos de discursos racistas. Só por meio do racismo o capitalismo poderia manter por tanto tempo um sistema de exploração tão brutal e violento quanto a escravidão. Um e outro nascem juntos. Estão imbricados no mesmo ato que funda a modernidade e cria espaços de domínio por sobre todo um mundo pré-existente, destroçado pela fúria colonialista.


Mentindo de forma cínica sobre um problema tão explosivo, o artigo de Irapuã Santana se refere ao capitalismo como algum tipo de “movimento” com o qual poderíamos dar as mãos, chegando ao absurdo de dizer que com o capitalismo o número de pobres na face da terra foi menor e pode diminuir mais. O gerador do problema é falaciosamente metamorfoseado na própria salvação que teria como argumento a milionária cifra mobilizada pela massa trabalhadora negra. E assim os expoentes da representatividade oca e reacionária coadunam, à luz do dia (ladeados pelo que há de pior, e às vésperas de uma eleição) com o retraimento da fúria anticapitalista/antiracista que deveríamos fomentar e está, sim, na ordem do dia. É chocante que o ex-assessor de Luiz Fux parta da ideia de que o capitalismo possa diminuir a pobreza. Antes do capitalismo havia fome, não resta dúvidas, mas por escassez. O capitalismo é o único sistema em que, havendo excedente, se produz riqueza na mão de poucos e pobreza generalizada. Isso que faz desse sistema o mais assassino, o mais brutal. É esse nosso aliado?

O texto da Folha, ocupando o primeiro lugar dos textos mais lidos da coluna de opinião deste que é um dos jornais mais conhecidos a nível nacional, guarda a miséria intelectual dos nossos tempos. A luta, que passa pela construção teórica, assim como o próprio debate intelectual, virou mercadoria na forma sofisticada do capitalismo de reduzir a humanidade de qualquer pessoa e os traços humanos de qualquer coisa em formas possíveis de extração de lucro. O curto, porém, grande em significado, texto em questão, não é só um conjunto coordenado de palavras, mas, no limite, uma agressão à humanidade das pessoas negras.



Subvertendo Hegel e Frantz Fanon [4], a imposição da humanidade do oprimido passa a ser feita através do mundo das mercadorias em uma relação senhor/escravo, onde não existe reconhecimento algum do objeto de opressão, só o desejo constante em se tornar senhor. Estamos diante de um avançado estágio de reificação [5], ou seja, o mundo das mercadorias é quem está determinando as relações sociais e políticas, que se tornam, por sua vez, as próprias mercadorias. Para que a luta antirracista vire uma mercadoria, primeiro as pessoas negras precisam virar mercadorias. O que o texto publicado na Folha faz é lançar um produto no mercado, esse produto são as dores da maior parte da população brasileira.


A emancipação humana tem como sua condição a totalidade do ser humano, portanto, não existe emancipação humana que seja somente uma emancipação econômica ou política. Mais ainda: a suposta emancipação econômica apresentada pelo texto é o fetiche do poder dos trabalhadores e trabalhadoras devido ao alto grau de consumo, quando o verdadeiro poder da classe trabalhadora é o potencial revolucionário para quebrar as amarras da sociedade de mercado. Não existe fórmula mágica, o capitalismo gera riqueza através da expropriação de seres sociais, sugando tempo de vida das pessoas através da exploração do trabalho. Acreditar que essas relações vampiras se aliviam pela presença de um burguês negro é o mais medonho fetiche. A negação da história social das relações sociais de produção só pode gerar a reafirmação da falsa universalidade capitalista. E a história social do capitalismo é a história da destruição, terror, violência e morte de todas as sociedades nas quais ele avançou.

Ainda sobre emancipação humana, se a nossa humanidade só se faz valer pelo reconhecimento do outro, quando da sua negação, a nossa tarefa é a imposição da universalidade humana. No mundo material isso passa, necessariamente, pela superação de qualquer sociedade que se baseie na exploração do homem pelo homem. Segundo Clóvis Moura, em uma sociedade que nos desumaniza só podemos nega-la de maneira radical. [6] É em pleno Novembro Negro que devemos lembrar de Zumbi dos Palmares, o maior exemplo da nossa história, que a liberdade nunca é nada e a sua busca é uma tarefa revolucionária. Ao invés disso, os Sergio Camargo entre nós se fazem junto às mídias corporativas e desfazem a dura luta negra trabalhadora.


Negar esta verdade histórica é mais um ataque que sofremos, pois falseiam nossa história usando vozes negras para abafar o nosso grito. Lucram com nossas dores de todas as maneiras, dentro da própria militância.. Estamos sendo atacados, em todas as frentes. Esta é força que tem o discurso liberal da representatividade. Não existe esquerda liberal, o que existe é direita! O que existe é o capital se apropriando da discussão de lugar de fala para usar nossa imagem e calar nossa voz. Esse é o preço que pagamos por banalizarmos o debate teórico e por simplificarmos questões complexas, reduzindo o problema do negro a estar ou não em tronos de ouro, em capas das revistas, em publicidades de empresas que se sustentam pela exploração da grande massa de negras e negros, pessoas não brancas, no Brasil e fora, pois o problema dos negros brasileiros é também, em certa medida, o problema de todos os povos racializados do mundo, e os golpes vêm de onde menos se espera.


Mas tudo isso já era sinalizado por um dos maiores intelectuais negros de nosso tempo quando se discutia a descolonização africana, assunto que se revisitado poderia nos ensinar muito. Dizia Frantz Fanon que o colonizado tem o “sonho da possessão”, que “o olhar que o colonizado lança sobre a cidade do colono é um olhar de luxúria, um olhar de desejo”. E assevera, criticamente: “Todos os modos de possessão: sentar-se à mesa do colono, deitar-se na cama do colono (...). O colonizado é um invejoso. (...) É verdade, não há um colonizado que não sonhe, pelo menos uma vez por dia, em instalar-se no lugar do colono”. [7]. Só a desalienação, só a descolonização resolve esse imbróglio que tem tantos nomes, e que aparece como Black Money ou capitalismo antirracista no texto publicado pela Folha. E talvez tenha chegado a hora de reconhecer a vivacidade do eco de Malcolm X, de Fanon, e de tantos outros condenados que sabem que desalienar, descolonizar, precisa utilizar de “todos os meios necessários”, mas principalmente a violência revolucionária.


Bruno Borges é Professor de Língua e Literatura na escola pública da periferia do Distrito Federal.


Paula Juliana Foltran é Assistente Social, historiadora e estudiosa das relações entre raça, classe e gênero e autora da tese Mulheres Incorrigíveis: capoeiragem, desordem e valentia nas ladeiras da Bahia (1900-1920).


Vinicius Souza é historiador, pós graduando em Direitos Humanos e Lutas Sociais pelo CAAF - UNIFESP, podcaster (20 de novembro), faz parte da publicação da coletânea "Há uma revolução mundial em andamento: Discursos de Malcolm X" pela LavraPalavra Editorial.


O Canhoto é um periódico mensal impresso que completou um ano em setembro, voltado ao debate e difusão do marxismo periférico na nossa comunidade espremida entre a esquina da Brasília burocrática e o mais reacionário bolsonarismo latifundiário Goiano, Venceremos!


Notas:

[1] Mbembe, Achille. Crítica da razão negra. São Paulo: N-1 Edições, 2018, p. 116.

[2] Mbembe, Achille. Crítica da razão negra. São Paulo: N-1 Edições, 2018, p. 93-94.

[3] Idem, p. 94.

[4] FANON, F. Pele Negra, Máscaras Brancas.

[5] MATOS, O. Escola de Frankfurt: luz e sombras do iluminismo

[6] CLÓVIS, M. A Quilombagem como expressão de protesto radical.

[7] FANON, F. Condenados da terra. p. 34

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