• marciopauloas96

Novos protestos na Nigéria contra o esquadrão da morte #EndSars

Atualizando a situação que já havíamos exposto em outro texto aqui publicado sobre o esquadrão antirroubo na Nigéria que por anos tem sido o esquadrão da morte, com múltiplas acusações de assassinato e racismo contra os nigerianos mais jovens. Nesse texto, pretendo apenas atualizar devido a novas notícias envolvendo o esquadrão que fizeram com que as redes sociais fossem mais uma vez canal de denúncia contra os abusos do esquadrão.

Em 11 de Outubro, a força policial nigeriana dissolveu o SARS, porém os protestos continuaram de forma intensificada devido às promessas anteriores de realocação dos policiais da SARS em centros médicos e afins. O desejo das ruas é que todos sejam removidos para que possam ser julgados pelos crimes que cometeram. Mesmo com a população massiva de jovens nas ruas, a força policial foi intensificada e manifestantes foram mortos,

A Anistia Internacional fez um relatório onde consta que entre janeiro de 2017 até maio de 2020, mais de 82 casos de tortura e execução foram feitos em nome do SARS, sendo a maioria das vítimas homens de 18 a 35 anos, pobres e vulneráveis que são torturados para conseguir confissões ou punição pelos crimes que lhe são atribuídos. Ou seja, o SARS não faz apenas o papel de policial, ele também faz o papel de acusador e de até juiz, o que legitima os pedidos da população pelo fim da unidade.

Os jovens em questão são selecionados pelo SARS através de suas vestimentas: jovens com dreadlocks, jeans rasgado, tatuagens e carros chamativos ou aparelhos caros. A força policial em questão selecionou de forma unilateral um determinado grupo para torturar, perseguir e assassinar.

Está sendo levantado uma discussão sobre o poder que o esquadrão tem em mãos devido a ter vários organismos do governo sob a sua influência, já que o presidente do Banco Central recebeu em novembro do ano passado uma ordem para o bloqueio das contas dos manifestantes por conta de suposta lavagem de dinheiro, então passou a ser questionado a validade e a influência que o esquadrão exerce sobre os poderes públicos e privados na Nigéria. Vinte manifestantes tiveram suas contas bloqueadas pelo Banco Central da Nigéria, e com isso os protestos se intensificaram até que a poucos dias o Tribunal de Contas ordenou o desbloqueio dessas contas.

Novos protestos foram convocados através de redes sociais e a #Endsars retornou aos trends topics internacionais com menos evidência, porém com vídeos quase em tempo real da truculência e das prisões do esquadrão, agindo como se fossem os donos de toda moral e sem consequências. Novamente os protestos foram convocados para a cidade de Lagos, e ainda é uma situação sem resolução, o protesto foi convocado para uma região conhecida como pedágio de Lagos, onde em novembro do ano passado ocorreu um tiroteio surpresa que feriu diversos manifestantes. Após o ocorrido,foi ordenado a reabertura desse local sem a resolução e a investigação policial dos atos do esquadrão. Mais uma vez conflitos foram vistos com o esquadrão agindo de forma arbitrária. De qualquer forma a situação ainda é instável, mesmo com a pandemia menos acelerada na Nigéria, e com um governo com legitimidade questionada, a população foi às ruas reivindicar e sobreviver as atrocidades que o governo nada faz para conter, apenas lançando notas de repúdio ou notas de lamentação, que não ajudam em nada a situação real.

Poucas notícias chegam até os meios de comunicação, devido a ser uma segunda onda de protestos, uma das únicas formas de saber mais sobre o que acontece no continente é através das redes sociais, ou por sites estrangeiros, mesmo assim, demora-se muito para que as notícias sejam traduzidas para o português e levadas a grande mídia.


Márcio Paulo é historiador, pós-graduado em Filosofia e graduando em Ciências sociais pela Universidade Cruzeiro do Sul, e colunista da revista Clio Operária.



Bibliografia

https://www.africanews.com/2021/02/20/nigeria-s-endsars-protesters-trapped-between-trauma-and-fear/

https://www.bbc.com/pidgin/tori-56128784




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