• Nicaria Costa

Nada é impossível de mudar ou como não se acostumar com a precarização da vida


Charge: @desenhosdonando


Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que parece habitual. Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural. Pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural. Nada deve parecer impossível de mudar.


(Bertolt Brecht)


Nada é impossível de mudar. A frase que abre esse texto foi escrita pelo dramaturgo alemão Bertolt Brecht, em um poema de título homônimo. Aos mais céticos, o tom imperativo empregado pelo autor pode soar como uma espécie de desafio às avessas diante dos acontecimentos recentes. Quase uma afronta.


Afinal, certas coisas não mudam, já diriam os mais velhos. Os conselhos pela manutenção da ordem estão por toda parte, e a memória, embora vacilante, recupera os ruídos de um passado de cheiro fresco e gosto amargo. Lembremos dos brados efusivos de 2018: é melhor nos acostumarmos.


O culto à naturalização da miséria é uma das maneiras mais eficazes encontradas pelo sistema capitalista para impedir lampejos de transformação social. No ciclo de exploração, os trabalhadores veem-se exauridos em árduas jornadas de vida e morte. Morre-se um tanto a cada dia para tentar sobreviver um pouco mais.


Nesse cenário, como acreditar em mudança se tudo parece tão determinado? Os mais religiosos talvez se apeguem a crença de que existe um propósito para cada coisa, que os sofrimentos serão recompensados. Receberemos nosso galardão?


Enquanto esperamos, os conselhos que chegam engrossam o coro dos que precisam de um proletariado inerte. Repetem exaustivamente que “as coisas são como são”. Quando a apatia se torna norma, nos acostumamos com a precarização da vida.


Debaixo dos guarda-sóis verdes no supermercado [1], ao lado dos papelões, na calçada atrapalhando os transeuntes, na viela mais próxima, nas celas lotadas, nas macas enferrujadas e trêmulas ou numa cova rasa. Estirado na estrada, sem eira, beira ou qualquer importância. 48 horas agonizando por atendimento, e nada! [2] Tanta gente agonizando, e nada!


Num suspiro dolorido, de longe se esboça um sorriso amarelo. Dá-se uma última espiadela como quem diz “morreu mesmo”. Sempre morrem; aos montes. A lista é longa e os dias parecem cada vez mais curtos.


Aqui não caberiam os nomes, tampouco relatos sobre suas trajetórias interrompidas. São tantos. Dificilmente assumirão a feitura de grandes heróis – que a história oficial dedica suas páginas mais lustrosas e ergue robustos monumentos que ornam as praças interioranas.


A memória nacional costuma lembrar pouco desses casos. Seguem à risca os conselheiros que sussurram “acostumem-se”. Logo chegarão mais notícias. Dados estatísticos que corroboram para afirmar o óbvio: o capitalismo não funciona. Talvez a afirmação pareça precipitada, afinal, sejamos justos, o capitalismo executa com maestria singular sua tarefa de alimentar essa máquina de moer gente.


O cansaço ao cabo de mais um expediente vem acompanhado da sensação constante de que o tempo está se esvaindo. A memória, dessa vez a afetiva, traz o meu pai falando: “pior é não ter, minha filha”. Nos acostumamos com o mal menor, com o esgotamento, com sermos moídos. Muitos anseiam pelo final de semana, como único momento de respiro em meio a uma rotina sufocante, outros, rogam aos céus que uma oferta de trabalho apareça.


A boca seca, o estômago lateja e as contas chegam. Não se vive de vento, novamente ouço o meu pai. Ele tem razão. Mas afinal, se vive de que? Quem está vivendo no meio de tudo isso?


O relógio corre, lembrando que o cotidiano às vezes parece uma locomotiva sem freios. As palavras de ordem continuam, afinal, a vida não pode parar. O sistema pode parar? É possível pensar em parar? A vida só não para pros que conseguem escapar. Via de regra, corre-se o risco de ter ela arrancada a qualquer momento. Aí pronto, mais um para a estatística. Com sorte, aparecerá no jornal da tarde, enquanto vozes tímidas, de mulheres e homens miúdos, de mãos calejadas e peles queimadas, concluem com lancinante tristeza “quanta violência, meu Deus!”


Resta rezar? Por que tanto resto para quem tudo produz? Por que tanto costume? Quando a miséria, covardia e desgraça se tornaram cenário para o desenrolar da vida? Em que momento passamos a acreditar que lutar por dignidade é delírio?


As respostas estão assentadas na desconfiança do habitual, na desnaturalização do hostil, na percepção do espaço que nos envolve ou na ação coletiva que se ergue contra toda forma de opressão. Quando a classe trabalhadora tornar a assumir seu protagonismo no curso da história, só perguntas não bastarão, e então escolheremos ouvir o conselho do poeta.


Movidos pela urgência revolucionária, tomando de arroubo o que nos pertence, teremos certeza: nada é impossível de mudar!


Nicaria Costa é graduanda em História pela Universidade Estadual da Paraíba - UEPB e desenvolve pesquisas sobre o mundo rural oitocentista.


Notas:


[1] https://extra.globo.com/noticias/brasil/carrefour-pede-desculpas-por-cobrir-corpo-de-colaborador-manter-funcionamento-24594821.html


[2] https://correio.rac.com.br/_conteudo/2020/08/mundo/973248-vitimas-do-virus-e-da-falta-de-eficiencia.html

Referências e recomendações:


ANTUNES, Ricardo. O privilégio da servidão: o novo proletariado de serviços na era digital. São Paulo: Boitempo, 2018.

BRECHT, Bertolt. Antologia poética. Rio de Janeiro: ELO Editora, 1982.

Seu Pereira e Coletivo 401, Cabidela. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=FDNTYA1YUUY Acesso em: 21 ago. 2020.

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