• Giovanna Garcia Cobellis

Não somos donos de nossa própria História – O Revisionismo Histórico


Livros de direitos humanos da Biblioteca Central da UnB são encontrados rasgados — Foto: Arquivo pessoal/divulgação.


Lidar com o História do mundo e conta-la nunca foi uma tarefa fácil, não à toa que ainda no século XXI existam tantos debates de cunho ideológico e político sobre a forma como essa história é contada, quais partes dela de fato “merecem” foco e, principalmente, se os desdobramentos dessa história são impactantes na História atual e em qual proporção.


O intuito aqui não é nos debruçarmos sobre um negacionismo feito à História de seu próprio tempo, como por exemplo, a história contada pelos trovadores e romancistas do séc. XII que minimizaram ou não escreveram sobre a História Política das Rainha Matilde da Inglaterra ou de Leonor da Aquitânia, limitando suas histórias à supostas intrigas e romances em que estiveram envolvidas. Ainda dentro deste mesmo exemplo, hoje sabemos sobre a luta dessas monarcas pelo poder efetivo ao trono do rei, suas derrotas e vitórias na plena sucessão de seus herdeiros. Sabedoria essa que só foi possível adquirir posteriormente, com embasamento nos estudos de fontes históricas da época, essas sim, as grandes e indispensáveis aliadas dos historiadores.


O revisionismo histórico que quero trazer em pauta é aquele que de todas as formas rompe com o pensamento crítico e ignora toda e qualquer fonte histórica existente e o Brasil, infelizmente, tem se mostrado mestre em manipular as ciências (entende-se a História como a ciência que estuda as relações do homem no tempo e no espaço em que viveu) de forma ideológica a transforma-las em arma política. Minimizar os fatos e evitar falar sobre determinados assuntos são apenas algumas das manobras que o revisionismo histórico tem para agir de forma que consiga esconder os atos podres do Estado, livrando-o de sua responsabilidade ante o fato.


Na era em que parece moda se intitular “conspiracionista”, daqueles que se baseiam nos estudos de ninguém por intermédio de seus “achismos”, a extrema direita e os ultranacionalistas se mostram cada vez mais confortáveis em expor sua idolatria a líderes fascistas e nazistas e em difundir seu antissemitismo (algo previsto de respaldo na Constituição) que antes era velado.


O que mais assunta hoje é isso não parecer mais um problema, ante o crescimento desenfreado de células fascistas pelo Brasil e pelo mundo todo. Temos Integralistas se apresentando à luz do dia em pleno centro de São Paulo e desfilando livremente com o sigma soberano estampado nas bandeiras. Manifestantes pró-Bolsonaro desfilando na Avenida Paulista com suas camisetas de suástica e bandeiras neonazistas. Poderia citar muito mais, mas perderia muitas linhas. Não digo que nada disso deixou de existir algum dia, mas a ousadia de bater de frente com o (até o momento) Estado democrático só me faz concluir que esse Estado compactua com esses ideais. Vocês já se esqueceram do primeiro “ex” Secretário da Cultura (Roberto Alvim) que citou Goebbels (ministro de Hitler) em um vídeo? Você pode dizer que o ministro foi afastado após declarações, mas o que irá alegar quando em visita do memorial do Holocausto, Bolsonaro dizer que o nazismo era de esquerda?

Essa não foi uma fala isolada, mas é um grande exemplo (a âmbito internacional) de propor um negacionismo histórico que induz à manipulação da história, indo muito além de uma reinterpretação histórica, como aquelas feitas na década de 50 por historiadores que visavam a negação do Holocausto e a culpabilização das vítimas, como aponta Rachel Mizhari:


As propostas revisionistas e sua inacreditável afirmação de que nunca existiu um plano para a extinção em massa dos judeus espalharam-se pelos EUA, Europa, em todos os países árabes e Japão. Segundo estes "historiadores", a "Solução Final" nada mais teria sido "do que uma proposta de emigração dos judeus para o Leste a fim de reuni-los num só lugar". A divulgação de livros e artigos racistas se estendeu por vídeos e DVDs, informando que o "Holocausto nunca existiu" e "que tudo não passa de mentiras divulgadas por judeus que objetivam extorquir do povo alemão indenizações para si e valores para o Estado de Israel.


Que o Brasil enfrenta hoje um levante do fanatismo fascista e a pregação de atos antidemocráticos de forma indiscriminada é um fato, e a normalização do amplo apoio fascista é uma ameaça de nível mundial, mas é preciso também nos preocupar com o revisionismo histórico que almeja ser feito a respeito da Ditadura Militar no Brasil e que vive sendo desfocado das pautas educacionais.


Sem sombra de dúvida, a Ditadura Militar (juntamente com a escravidão) foi um período que deixou uma grande ferida que nunca cicatrizou na História do Brasil, os desdobramentos de anos de repressão deixaram como legado muito mais que um policiamento que têm como modus operandi a morte. Desde o Golpe em 1964, o modelo ditatorial brasileiro atuou por 21 longos anos, marcados pela luta do povo por liberdade e hoje, após 35 anos, lutamos contra o retrocesso histórico.


No Brasil das fake News, a tecnologia está virando uma arma aliada que impulsiona a disseminação de notícias falsas e de ideias ilegítimas, pois parece que usuários de mídias sociais se sentem confortáveis e seguros do outro lado da tela, como se a lei não pudesse alcança-lo, mas o que não tem cada de “fake” são os inúmeros passos que nosso governo dá em direção para muito mais que um negacionismo ou revisionismo histórico, mas para um apagamento histórico! Isso já foi feito com inúmeras referencias e lideranças populares, porque não fazer com um período histórico inteiro?


Acredite, eles já estão fazendo. Estão agindo de forma a apagar todas as crueldades e mazelas da ditadura, dizendo que não houve golpe militar em 1964 e sim uma revolução, omitindo a existência da ditadura militar entre 64 e 85 em documentos para a ONU, excluindo o tema do ENEM de 2019 sob o pretexto de evitar polêmicas, trocando membros da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) e, talvez em umas das ações mais bárbaras, promovendo uma futura mudança na abordagem do tema nos livros didáticos, simplesmente por achar que o regime militar não foi uma ditadura.

Quando confrontados, adotam o mesmo velho discurso que legitima a repressão. Chama um símbolo da ditadura de “herói nacional”, diz que “o erro da ditadura foi torturar e não matar” (como se tantos não tivessem sido mortos e outros tantos desaparecidos), debocha da morte de perseguidos políticos como Vladimir Herzog, repete falas de generais da ditadura, comemora o “aniversário” do golpe como se fosse “o dia da liberdade”, diz que a “ditadura só matou vagabundo” dentre outros absurdos.


A ditadura existiu, censurou, reprimiu, perseguiu e matou. Ainda hoje resistimos, nos organizamos e lutamos para que tempos sombrios assim não nos assolem novamente. Não aceitaremos o revisionismo histórico! Nem esse e nem nenhum outro.



FONTES

Morasha. O Revisionismo Histórico. Disponível em: http://www.morasha.com.br/holocausto/o-revisionismo-historico.html




Giovanna Cobellis é Historiadora e Pesquisadora sobre Violência do Estado.


19 visualizações
apoie.png