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Não, o Capitalismo não tem como ser antirracista

FONTE DA IMAGEM: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2020-11/black-money-movimento-favorece-negocios-de-pessoas-negras

Por Iago Gomes*, publicado originalmente no perfil do Medium @professorinfluencer


Por mais que a História do Capitalismo já tenha sido revirada criticamente por grandes intelectuais, inclusive contemporâneos, me parece que nunca é demais a retornarmos para discutir questões que ocupam centralidade nos veículos de mídia, como o Racismo tem ocupado. Obviamente não é em um Artigo de Opinião onde isso se esgota, mas é preciso demarcar um território urgentemente no que tange a discussão que caracteriza o Racismo Estrutural.


De fato, um dos objetivos do Capitalismo é a geração de riquezas, mas não a sua circulação. A não ser que se pense que o fato do patrimônio dos 26 mais ricos do mundo equivaler à metade da humanidade, segundo relatório da Oxfam publicado em 2019, caracterize circular riquezas. Circular para quem? O sistema econômico capitalista não é meramente um espectro, é materialidade, é a fome, é a violência. Seu ponto de evolução não começa na Revolução Industrial, mas anterior a isso quando finca suas bases, as que terão sustentação nas colonizações de territórios americanos e africanos. É fato que a racialização, como critério de produção de hierarquias e divisões nos interiores de civilizações, é anterior a isso, mas quando falamos de raça, no sentido moderno do termo, estamos falando de Modernidade, de origem e desenvolvimento do Capitalismo no mundo. Dessa forma, raça se deu como simbiose à sociedade de classes. A mão de obra escravizada foi a base material de evolução do Capitalismo, e não temos do que nos orgulharmos, mas a apontar que em seu princípio, e ainda hoje, é a exploração da força de trabalho, majoritariamente negra, que mantém a máquina de produzir riquezas funcionando. Como afirmou Lélia Gonzáles, a própria divisão espacial é baseada na reinterpretação do “lugar natural” aristotélico para o “lugar racial”. É o que se percebe nas periferias das grandes e médias cidades, quando a naturalização de espaço geográfico dividido racialmente acaba por demonstrar a quem o Estado e a Estrutura serve.


O autor do artigo da Folha afirma também que as “teorias que justificam a escravização de pessoas negras surgiram em período muito anterior ao advento do capitalismo”, ora, se primeiro ele tomar como ponto de partida do Capitalismo a ascensão das ideias iluministas, obviamente do século XVI para o XVIII a diferença é “muito”, mas o que me intriga é ser falada uma coisa muito óbvia para justificar uma conclusão equivocada. Antes de qualquer justificativa, mesmo de produções de texto, é preciso traçar objetivos. Para escravizar e dizimar civilizações africanas e indígenas inteiras foi preciso (como já disse) fincar as bases dessas relações, e para isso a produção de consciência acaba assumindo papel importantíssimo. Religião e Ciência, por exemplo, foram cruciais para isso. Segundo Marx, as bases de construção de um sistema de classes se alimentam do sistema anterior. Não é uma quebra, onde se zera e é possível começar outro jogo. As marcas da partida anterior ficam. É o que se pode perceber quando se analisa a passagem do modelo de Escravidão Antiga para a Moderna e para a Contemporânea. Dessa forma, preciso reafirmar, portanto, que os sistemas escravista e capitalista são em origem e conteúdo bem compatíveis e se integram, se sustentam, se retroalimentam, aliás o próprio autor afirma que é o Capitalismo que resolve acabar com esse regime, que força é essa que tem o Capitalismo para acabar ou manter um regime tão perverso e violento como este? Temos aqui um Sherlock Holmes!


Parece também que o autor brinca de forma sarcástica com os leitores da Folha. Quem são? Onde vivem? O que comem? Será que não tem muitos “pobres” que leem os editoriais. O mesmo afirma que o Capitalismo conseguiu reduzir a pobreza no mundo, e que pobres chegaram a ser minorias desde 2018. Pera aí, será que o uso da palavra minoria é no sentido de intervenção política, econômica e por aí vai? Porque não é isso que dizem os relatórios mundiais. Talvez ele esteja se referindo à extrema-pobreza, que segundo cálculos apontam que podem chegar a 115 milhões no mundo enquanto a fortuna de milionários cresceu 27%, isso segundo relatório do próprio Banco Mundial. Que minoria grande essa, não?

Assim, um sistema com esse potencial não pode ser renegado em uma luta contra a o sistema racial. Ele precisa não só ser lembrado, quanto também ser destruído. As “crises” recentes caracterizam o que Karl Marx chamou de “Acumulação do Capital”, é o momento onde a classe trabalhadora paga com suor e sangue para fornecer à estrutura capitalista as condições de produção de riquezas, é onde a mola propulsora age como também um moinho de carne. Não consegue se virar sendo explorado? Vai ser super-explorado! Não consegue se virar sendo super-explorado? A morte resolve. É isso que significa compreender que as mortes diárias de pessoas negras no Brasil e em outros lugares do mundo cumpre o que Achille Mbembe apontou quando desenvolveu o conceito de Necropolítica, é a destruição do “exército mundial de reserva”, porque o Capitalismo só fecha essa conta assim. Como afirma o Professor Silvio Almeida, Achille Mbembe leu o Capital e o compreendeu. Não há Black Money que dê conta de um sistema que, como afirma o próprio autor, teve forças para acabar com um regime de escravidão, porque então seria algo que pessoas negras sempre fizeram na história do nosso país (se virar para garantir o pão na mesa) capaz de colocar embaixo dos pés o sistema de exploração? Não há como o Racismo, que é Estrutural, ser destruído sem destruir a sua Estrutura, que é o Capitalismo.


Para finalizar termino com uma citação de bell hooks em Ensinando a Transgredir que acho que ajuda a contextualizar muito bem a situação: “na sociedade americana, onde o negro — e especificamente o intelectual negro — muitas vezes assimilou e traiu conceitos revolucionários pelo interesse de manter o poder da classe social, é necessário e crucial que os intelectuais negros insurgentes tenham uma ética de luta que informe seu relacionamento com aqueles negros que não tiveram acesso aos modos do saber partilhados nas situações de privilégio.” Ou seja, a ética de luta que precisamos assumir é a destruição de um sistema que necessita das produções de desigualdades para se manter de pé.


*Professor e Cria da Escola Básica Pública. Homem CIS, Militante Antirracista e LGBTQIA+. Nordestino da Baêa.

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