• Mariângela Marques

Não é sobre ter piedade, é sobre respeitar as nossas histórias

Atualizado: 9 de Set de 2020

Enquanto pensava no que escrever, muitas coisas eu pensei em como escrever, até que, novamente, cheguei a Pernambuco, viajei para o sertão e, prazerosamente, observei uma vez mais as imagens que passavam corridas pela minha janela.

Foto de arquivo pessoal.

Escreverei sobre o sertão, sobre a história micro, particular e social do meu sertão. Sobre ser de uma família centenária. A inspiração para os meus estudos. A defesa da vida. A luta pela emancipação humana. A radicalização dos anseios e desejos. A motivação de, em meio a um dos períodos históricos mais conturbados de nossa vida brasileira, não desistir do nosso amor pelo próximo, pela nossa população, pela nossa cultura.


Desde cedo eu ouço histórias sobre como a minha família começou. Aqui na terra onde nos deram vidas, índios e negros viveram, europeus assentaram terras. Eu sou essa sociabilidade sertaneja, de uma avó indígena, outra avó negra, um avô espanhol, outro avô holandês.

Cresci no Sudeste, onde nasci. Neste sudeste eu ouvia, diariamente, que nordestino era pobre, sujo e feio. E interessante era olhar para aquelas ignorantes pessoas que tinham suas casas sempre limpas porque haviam sujas nordestinas para limpar, casas estas que outros pobres nordestinos construíram. Sempre teve feios nordestinos trabalhando para que a capital paulista crescesse.


Não nos apiedemos. Conheçamos as nossas histórias!


Na década de 1970 houve um êxodo geracional. A juventude não tinha perspectiva no interior nordestino. Quantos e quantos retirantes chegavam a São Paulo, a capital dos sonhos daqueles que ocupariam portarias de prédios e andaimes de construções, ou daquelas que seriam serventes de escolas ou cozinheiras de fábricas. Havia uma clara distinção sexual dos trabalhos.

A falta de perspectiva, agora eu sei, estava vinculada à pobreza desintegradora do país. Um país preconceituoso e que apartou, por décadas, a população nordestina da intelectualidade nacional, da produção tecnológica resultante da industrialização, das estatísticas sociais que optavam por divulgar a inanição, os natimortos da pobreza e a escassez. O país ascendeu numa história recente de piedade, mantendo o desconhecimento da humanidade sertaneja.

Quando o Partido dos Trabalhadores, em 2002, ganhou as eleições, o futuro presidente do Brasil, Luis Inácio Lula da Silva, pernambucano retirante no Guarujá, litoral paulista, prometeu o que cumpriu, mas ele não rompeu com o que ele, ainda na ditadura civil-militar brasileira, não havia compreendido.


A pobreza não deve ser maquiada, ela precisa ser dizimada!


A integração nacional praticada ao longo do governo federal petista apresentou um nordestino diferente daquele romanceado no imaginário sudestino. Levou para os outros quatro cantos do país uma musicalidade social de negros escravizados vivendo com indígenas violentados. Explicitou universidades públicas com “balbúrdias” de longos anos e cuja produção intelectual era internacionalmente conhecida, mas não era nacionalmente respeitada.

Essa tarefa cumprida pelo presidente operário e nordestino maquiou a pobreza congênita do brasileiro ao não reconhecer que os projetos anteriores ao seu próprio governo não desenvolveram condições de superação social dos pobres brasileiros, especialmente no seu nordeste de origem.

Foi também o Lula que, em 2002, disse que na ditadura civil-militar (1964 – 1985) seguiu uma estratégia desenvolvimentista nacional num plano de governo que, escusa a violência praticada contra qualquer ser humano que se posicionasse contrário à repressão, teve, “em 1970, no auge da ditadura militar, em que o presidente Médici andava perseguindo os (seus) companheiros do PT, (...) o maior boom de empregos da história desse país, a um crescimento de 10% ao ano (i)”.

Este boom de empregos, aparentemente, estava concentrado em São Paulo. Foi para lá que mais da metade da minha família nordestina de pai e mãe mudou, no êxodo geracional que, ao longo dos anos 1970, ocupou as vagas de trabalho do “Milagre Econômico”. Era a geração que, aos vinte e poucos anos poderia mudar a característica do árido, do agreste, do semiárido, mas não haviam escolas, nem universidades, muito menos as oportunidades para serem felizes ao lado de seus pais e mães.

Ao longo desta mesma década, o contingente populacional de migrantes fez surgir periferias sem saneamento básico, luz, água ou banheiro. No ABC Paulista o setor automotivo crescia, exportava e concentrava, mas em seu entorno, rios e mananciais começavam a ser ocupados por barracos.

Em um estudo sobre a reestruturação produtiva do ABC Paulista e a aplicação do just in time na logística internacional, Terezinha Ferrari (ii) desanuviava a falsidade do discurso de que era necessário fazer o bolo crescer para dividir, famoso jargão de Delfim Netto, o mesmo economista que foi Ministro da Fazenda, entre 1967 e 1974, signatário do AI-5, em 1968, e, ironicamente, ex-conselheiro dos ex-presidentes Lula (2003-2010) e Dilma Roussef (2011-2016).

Creio eu que também caberia incluir neste histórico de migração e deturpação social-democrata da realidade social brasileira, um conceito que há pouco conheci nas explicações da Virgínia Fontes (iii), o de pobretogologia.

Este conceito resgata a política do Banco Mundial, implementada por Robert MacNamara (1968), e que ajuíza que o pobre deve ser neutralizado por ser uma ameaça ao capital, afinal, o pobre é quem está aberto às revoltas sociais e, para apassivar a ira da fome nada melhor do que um Estado que financia publicamente o setor privado que prestará serviços sociais tais quais o de saúde (pública), educação (pública) e saneamento (público).


Não basta conhecermos nossas histórias, é preciso lembrá-las cotidianamente para não sermos subjugados!


O governo petista, efetivamente, alterou a realidade sertaneja. Foi uma década que trouxe de volta seus filhos, que encheu de esperanças um futuro que jamais chegará, que expandiu a educação pública e que garantiu segurança alimentar para as famílias que morriam na fome, na inanição e nos natimortos.

Esta repentina transformação engana, subjuga e fantasia a vida em meio às reformas trabalhista, previdenciária e educacional. É como se entre 2003 e 2016 nada tivesse acontecido para que os trabalhadores chegassem em 2020 endividados, desempregados e reacionários!

Quando a história passada foi escusada pelo Lula, lembrando da ditadura civil-militar como um período específico de repressão política, mas não como um período abrangente de corrupção militar, aumento da concentração econômica nos setores produtivos, empobrecimento massivo, além de ser um período misógino, racista e homofóbico, o futuro é certo.

E é neste futuro que vivemos, nós, sudestinos, filhos de retirantes, gerações de sertanejos nordestinos que, há mais de um século trabalha a terra, queima a pele no sol ardido, sua no calor seco, migra e emigra, mas continua humano, cheio de histórias e orgulhoso da vida que vive há tantos anos.


Notas:


(i) Disponível em https://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u36910.shtml. Acesso no dia 06 de setembro de 2020, as 22h57min

(ii) FERRARI, Terezinha. Fabricalização da cidade. Ed. Expressão Popular, São Paulo, 2005.

(iii) Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=rRswefXBYj8. Acesso no dia 06 de setembro de 2020, as 23h35min.

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