• Rafael Lopes

Muhammad Ali e o lado certo da história

Hoje, no dia 03 de junho de 2021, faz 5 anos da morte de Muhammad Ali. Ali foi, sem dúvidas, um dos maiores - se não o maior - lider negro esportista. Não apenas sua brutal velocidade em cima dos ringues fascinava a quem o assistia, mas sua posição política inspirava os povos oprimidos ao redor do mundo.

Ali nasceu como Cassius Clay (o nome Muhammad Ali veio após sua conversão ao Islã) em um bairro segregado de Louisville, Kentucky, no ano de 1942. Seu pai era pintor e sua mãe uma trabalhadora doméstica. Clay teve contato com o boxe cedo, demonstrando um talento formidável. Aos 18 anos foi medalhista de ouro nas Olimpíadas de 1960. Tempos depois, buscando aprofundar seus conhecimentos políticos, teve contato com a Nation of Islam (NOI). Em um dos discursos da organização, ouviu Malcolm X dizer: “você pode nos confundir com alguns negros que defendem a não violência, e colocar as mãos em nós pensando que vamos dar a outra face - e nós iremos matá-los, simples assim.”

Na sua aproximação ao NOI, Ali e X se tornaram não apenas parceiros políticos, mas também amigos próximos. Quanto mais tempo passava próximo ao NOI e a X, mais a mídia repercutia sobre a possível adesão de Ali à organização. Então, logo após vencer a luta contra Sonny Liston, Ali veio a público e anunciou que fazia parte da Nation of Islam, sendo atacado por toda a mídia estadunidense, e até por setores fora da imprensa que abominavam o discurso político da NOI [1]. Porém, os ataques não recuaram Ali na sua construção como líder político e anos depois ocorreu o fato que mais repercutiu sobre a vida de Ali fora dos ringues: a recusa ao alistamento para a Guerra do Vietnã.

Ali disse não. Negou-se a ajudar no extermínio do povo vietnamita causado pelas tropas estadunidenses, que na sua sangrenta luta de domínio global, não apenas matou milhões de vietnamitas, como destruiu a fauna e a flora de um pequeno país no mais extremo ponto da Indochina. Sempre que perguntavam para ele, Ali respondia “não tenho problema algum com os vietcongs” ou “nenhum vietnamita me chamou de preto [2]”.

Embora boa parte da sociedade estadunidense imaginasse que Ali iria se desculpar, ele jamais o fez e se manteve firme em sua decisão, se tornando um símbolo do movimento antiguerra, que ainda estava a despertar. E foi nesse movimento que Ali irá ter contato com Martin Luther King, quando o pastor, lider da luta negra, declarou: ”como Muhammad Ali disse, todos nós somos - negros, pardos e pobres - vítimas do mesmo sistema de opressão”. Nesse momento, o pastor junta-se ao movimento antiguerra.

Martin e Ali mantiveram contato, porém foram vistos juntos apenas no final de 1967, quando discursaram em Louisville - cidade de Ali - a favor da luta por moradia. Ali, naquele momento, disse:

Em sua luta pela liberdade, justiça e igualdade, estou com você. Vim para Louisville porque não pude ficar em silêncio enquanto meu próprio povo, muitos com quem cresci, muitos com quem frequentei a escola, muitos parentes de sangue meus, estavam sendo espancados, pisoteados e chutados nas ruas simplesmente porque querem liberdade, justiça e igualdade na moradia.

Mais tarde naquele mesmo dia, Ali falaria um de seus discursos mais importantes e que demonstrara a sua consciência não apenas de como seu país tratava a sua própria população negra, mas também como tratava os povos periféricos ao redor do mundo:

Por que eles deveriam me pedir para colocar um uniforme e ir a 10.000 milhas de casa e jogar bombas e balas em pessoas marrons no Vietnã, enquanto os chamados negros em Louisville são tratados como cachorros e seus direitos humanos simples são negados? Não, eu não viajar 10.000 milhas para ajudar a matar e queimar outra nação pobre simplesmente para continuar a dominação dos senhores de escravos brancos sob os povos de pele escura ao redor do mundo. Este é o dia em que esses males devem acabar.
Fui avisado de que assumir tal posição me custaria milhões de dólares. Mas eu já disse uma vez e direi novamente. O verdadeiro inimigo do meu povo está aqui. Não desonrarei minha religião, meu povo ou a mim mesmo, tornando-me uma ferramenta para escravizar aqueles que lutam por sua própria justiça, liberdade e igualdade.…
Se eu achasse que a guerra traria liberdade e igualdade para os 22 milhões que compõem o meu povo, eles não teriam que me recrutar, eu me juntaria amanhã. Não tenho nada a perder defendendo minhas crenças. Eu vou para a cadeia, mas e daí? Estamos na prisão há 400 anos.

A história de Ali é a história de um homem que sempre esteve no lado certo da história. E àqueles que perguntam qual é esse lado, eu os respondo: é o lado dos povos oprimidos, dos povos marginalizados, dos povos que tiveram sua vida ceifada pela sua classe social, pela sua cor, pela sua religião, pelo seu gênero ou qualquer outra diferença que possa ser usada para que seu direito de viver dignamente seja suprimido. Se pesquisamos por Ali no Google, veremos ele ao lado do povo negro, ao lado de Malcolm X, ou lado do povo palestino.

Ali representa o não aceitar da barbárie como normal. Ali é um símbolo que transborda no que há de mais belo no mundo: a dignidade de não trair suas origens. Ali nasceu pobre e preto, e viveu defendendo os pobres e os pretos. Recusou o dinheiro e o status que o capital oferece para aqueles que traem o seu povo. Ali foi não apenas um símbolo, mas também um marco na história. Encantou o mundo como o maior boxeador de todos os tempos e como um líder político formidável.

Que falta faz Ali em um mundo onde os esportistas se concentram em sua conta bancária, e aqueles que ainda falam de problemas sociais, moldam seu discurso o máximo possível para não afastar seus patrocinadores, tornando-o meras palavras ao vento, inofensiveis e que mal ferem a superfície dos problemas.

Ali faz falta, mas também traz esperança ao lembrar de quem ele foi. Anos após a sua morte, sua luta permanece atual. O que só demonstra que a presença física de Ali se foi, mas seu pensamento jamais se apagará, e cada dia 3 de junho viremos aqui lembrar de quem ele foi.



Referência:


Jacobin Magazine. The Hidden History of Muhammad Ali. Disponivel em: https://www.jacobinmag.com/2016/06/the-hidden-history-of-muhammad-ali/.


Notas:


[1] Para saber mais da NOI e de Malcolm X, recomendo a leitura dessa tradução que saiu ano passado na Clio Operária: https://www.cliooperaria.com.br/post/o-legado-militante-de-malcolm-x


[2] Em inglês, nigga. Forma pejorativa quando falada por brancos a se referir a um negro.

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