• Clio Operária

Metafísica, a “solução” reacionária à dialética

Rafael Torres*



Quando falamos sobre o conceito da dialética, retornamos primeiro ao conceito na Grécia Antiga, o que significava, literalmente, a arte do diálogo. Com o passar do tempo, a dialética passou a ser, num diálogo, defender a sua tese através de uma argumentativa capaz de desatrelar os conceitos envoltos na discussão.


Alguns filósofos eram mestres na arte do diálogo, como Zenon de Eleia, e Sócrates. Porém, acerca da dialética contemporânea, temos outra transformação. É, agora, a maneira de pensar o mundo, e suas contradições, ou seja, reconhecer, na realidade que estamos inseridos, as contradições e transformações constantes dos elementos humanos, reconhecê-los como instáveis.


No sentido moderno de dialética, o primeiro a aplicá-la dessa forma, foi Heráclito. Ele foi chamado de O Obscuro pelo povo grego, pois, em seus manuscritos adentrava ao homem como objeto que está em constante mudança, e que muda também o seu exterior, direta ou indiretamente. O mais famoso dos manuscritos diz que um homem nunca se banha no mesmo rio, já que, no segundo banho, nem o homem, e nem o rio, são mais os mesmos.


Para Marx, por exemplo, utilizando-se da dialética moderna, o trabalho está inserido ao homem como sendo parte natural do ser, ou seja, é inerente ao ser humano. Mas, como então, trabalho sendo inserido ao homem como uma força natural, acabou se tornando seu pior inimigo?


Assim como todos os elementos humanos, o trabalho também se altera e é alterado pelo homem, basicamente, o mesmo conceito de trabalho não se aplica duas vezes na História, assim como o operário, ou o capitalista, também não se replicam, enquanto sujeitos transmutáveis. Portanto, com o surgimento das classes sociais, o trabalho passa além de ser inserido ao homem, o seu próprio mal. Uma parcela dos homens passam a dominar formas de explorar a força de trabalho de outros.


Agora, o trabalhador possui outra visão sobre o trabalho, que passou a essa transformação, e se tornou agora aquilo que não era antes. Toda a produção feita pelo proletariado, mesmo antes de ser iniciada, já pertence ao seu explorador. Sendo assim, o próprio trabalho é um meio de, inclusive, controle social através do Estado, uma vez que a classe detentora dos meios de produção altera o Estado aos seus anseios.


Portanto, logo se um indivíduo fosse força produtora apenas do seu ser e do seu redor, toda a propriedade privada seria um meio de imposição e dominação social/política/econômica, de um ser para outro.

Para Marx, o homem se faz através do trabalho, e humaniza o seu redor. Mas, com esse embate moderno entre trabalho e trabalhador, o explorado aliena-se para o trabalho, ou seja, não se reconhece ou reconhece sua produção como sendo parte dele, mas sim, imposta a ele.


Entretanto, ao passo que a alienação trabalhista atinge o proletariado de forma direta, o capitalista também sofre do mesmo mal. Leandro Konder, em sua obra O que é a dialética, cita “O capitalismo é como aquele aprendiz de feiticeiro que colocou em movimento forças que em seguida escaparam ao seu controle”. E é assim, que surge mais uma contradição humana.


Esse exemplo de Marx de como o trabalho está no interior de cada ser — e após o aparecimento de classes sociais e na divisão do trabalho, essa relação trabalho-trabalhador muda — foi dado para a explicação de como a dialética, sendo um pensamento constante, observa o mundo e suas transformações em determinado contexto, viabilizado através de contextos anteriores.


Em contrapartida à racionalidade mutável do ser e o seu espaço, temos a metafísica. Quando os gregos se utilizaram do conceito dialético de Heráclito para chamá-lo de Obscuro, tinham então que achar outra explicação para a transformação do ser. Entra em cena outro filósofo. Parmênides, foi um filósofo metafísico. “A essência profunda do ser é imutável, e o movimento (a mudança) é um fenômeno de superfície” (KONDER, Leandro. 1998, p. 08).


Existe, num primeiro momento, uma coexistência da metafísica com a dialética, mas, a dialética como forma incisiva de observação das transformações passou por grandes dificuldades em sua tarefa, já que o pensamento reacionário — sendo classe dominante, logo, pensamento dominante — optou pela observação parcial, ou superficial, da transmutação do ser, através da metafísica.


É interessante analisar como a metafísica prevalece sobre a dialética, através das eras. A coexistência momentânea das duas no início só foi possível graças a não existência de uma classe dominante em conjunção ao Estado. No restante da História, sempre os momentos de pouco fôlego para a dialética foram, “coincidentemente”, os momentos de mudanças nas estruturas sociais com a predominância de uma classe.


Para os burgueses, sendo a classe dominante, é importante manter o controle e o funcionamento da máquina estatal, pois, o pensamento revolucionário, gerado pela dialética, desembaraça o aparato de dominação (propriedade privada) e inverte o cenário para as mãos do proletariado.


A forma revolucionária de pensar o mundo e o homem como objetos de estudo transmutáveis, logicamente, leva a uma mudança do sistema social em curso. Portanto, a metafísica, sendo a maneira de pensar pela superfície, é de grande agrado para a burguesia ao longo das eras, por que é uma forma de reorganizar o que já estava funcionando, fazendo assim, perdurar o poder nas mãos de poucos. Assim também, unifica os conceitos burgueses com as instituições estatais, o que leva a uma unificação Estado-burguesia.


A dialética é o início de toda Revolução proletária, e ela não pode mais respirar por aparelhos. O mundo está em eterna transformação e contradição, e não será a burguesia que nos impedirá de reformular o sistema social vigente.


*Rafael Torres é historiador, educador popular na rede Podemos+, editor na Revista Clio Operária, desenhista e escritor.

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