• marciopauloas96

Martin Luther King, George Floyd, e a maior democracia do mundo!

O 4 de Abril de 1968, é mais uma data em que um líder negro foi assassinado por tentar mudar um jogo injusto, a luta pelos direitos civis e a discriminação racial nos EUA, em Memphis enquanto fazia mais um de seus discursos pela não violência. Foi alvejado diversas vezes de forma covarde, porém não diferente de tantas mortes que os EUA proporcionou a diversos líderes: Malcolm X, Fred Hampton, e tantas outras lideranças que já tiveram suas vidas ceifadas ou ameaçadas pela coerção de um país de territórios longínquos, porém com a mentalidade problemática e racista.

O assassinato de Martin Luther King, não foi o bastante para saciar o racismo introjetado na sociedade norte americana. Sabemos que de longa data, ali já foi palco de apartheid, de segregação, e nessa semana tivemos que assistir novamente as atrocidades cometidas no país. Dessa vez o que ficou marcado na mídia, foi o julgamento do assassinato de George Floyd, que foi morto por um policial, com um dos joelhos no pescoço por mais de nove minutos, enquanto implorava pelo seu direito de respirar, sob a acusação de comprar cigarros com dinheiro falso. O policial Derek Chauvin pouco se importou com os pedidos pela vida.

Nessa semana deu-se início ao julgamento em Minneapolis do policial Derek Chauvin acusado de homicídio doloso, homicídio culposo e de lesão corporal seguida de morte. Com sessões de mais de sete horas foram ouvidas testemunhas, dentre elas está um dos caixas da loja onde Floyd usou supostamente uma nota falsa. Através de câmeras de segurança e câmeras acopladas aos policiais, é possível assistir toda a ação. Visivelmente perturbado o caixa, se sente culpado por tudo o que vem em sequência, desde a abordagem dos policiais a Floyd, que abordam de maneira descabida, apontando a arma e mandando Floyd colocar as mãos na cabeça. Pelas filmagens é possível perceber que George está visivelmente transtornado com a situação. Outras pessoas foram ouvidas, algumas delas nem conseguem ver toda a ação. De fato é aterrorizante.

Advogados de defesa do policial, mesmo com todos os indícios que são escancarados no meio do julgamento, depoimentos de outros policiais, sobre a força excessiva e que nenhum policial é treinado para tomar tal decisão, insistem em colocar a culpa no descontrole emocional de Floyd, seu uso de medicamentos controlados e uma morte por problema cardíaco potencializado por uso de metanfetamina. O promotor do caso Jerry Blackwell proferiu de forma corajosa a seguinte sentença:

“Este distintivo no peito, exige, compaixão, George Floyd não morreu de overdose, opióides são tranquilizantes, uma pessoa que morre de overdose de tranquilizantes, tem um semblante sonolento, George Floyd não, ele chamou pela sua mãe, ele disse não consigo respirar mais de uma vez...”¹

O julgamento deve durar mais semanas e todos devemos olhar atentos ao desenrolar e ao desfecho. Tudo isso pode mais uma vez trazer à tona movimentos que 53 anos atrás foram silenciados. Tudo isso trará novas manifestações nos EUA e no mundo.

No Brasil não é diferente: praticamente todos os dias um negro é morto sobre acusações das mais diversas, desde a confusão entre guarda-chuva e arma, até desaparecimento e ocultação de cadáver.

A reflexão que busco aqui é demonstrar que cada dia, sendo negro no mundo que vivemos, não é mais simples. Essa semana completou-se 53 anos que Martin Luther King foi assassinado. De tempos em tempos, temos datas como essa que servem, cada dia mais, para nos lembrar que as lutas são diárias e sobreviver é um ato de coragem.


Todos os negros que já passaram por situações de serem acusados, ridicularizados, menosprezados e até tiveram suas índoles questionadas, resistir é preciso, porém sabemos o quanto é cansativo, até quando vamos esperar para reverter situações de 53 anos atrás? e quais os limites do corpo negro que é achincalhado a tanto tempo? a luta pelo espaço é constante, e nessa premissa é extremamente doloroso ver as dores e marcas expostas.

Márcio Paulo é historiador, pós-graduado em Filosofia e colunista da revista Clio Operária.



Bibliografia

Revolução Africana Uma antologia do pensamento marxista: Organizadores Gabriel Landi e Jones Manoel.


NASCIMENTO, Abdias O Genocídio do negro brasileiro: Processo de um racismo mascarado, Ipeafro,2016.


ALMEIDA, Silvio, Racismo estrutural, 1°ed, Editora Jandaíra,2019.


GONZALEZ, Leila, Retratos do Brasil Negro, 1°ed, Selo Negro Edições,2010.


https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2020-12/negros-sao-maioria-dos-mortos-pela-policia-em-5-estados-diz-pesquisa


https://www.bbc.com/news/world-us-canada-56459172


https://mundonegro.inf.br/martin-luther-king-53-anos-da-morte-de-um-dos-maiores-lideres-da-historia/


¹Tradução Livre da reportagem:

https://nypost.com/2021/04/06/george-floyd-pal-may-need-to-testify-at-derek-chauvin- trial-judge/


Capa do texto:

https://www.bbc.com/portuguese/internacional-52868252



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