• marciopauloas96

Kwame Nkrumah, o futuro é logo ali.


Nascido em 21 de setembro de 1909, Kwame Nkrumah foi a maior liderança política e ideológica da luta pela independência de Gana e um dos mais influentes pensadores pan-africanistas. Pondo sua obra em constante relação com os desenvolvimentos da luta independentista na África.

Foi Primeiro Ministro de Gana desde a sua independência em 1957, até 1966 quando sofreu um golpe de Estado apoiado pelo governo britânico. Exilado na Guiné, jamais retornaria ao seu país de origem, falecendo em 1972.

É autor de diversas obras, entre elas "A África deve se unir" (1963), "Personalidade Africana" (1963), "Consciencismo" (1964), "Guia de bolso para a guerrilha revolucionária" (1968) e "Luta de Classes na África" (1970).



Faço aqui uma reflexão apoiado no texto de Kwame Nkrumah Eu falo da liberdade: uma declaração de ideologia africana, publicado em 1961. Trago a reflexão de Kwame, que seus textos são como parte da minha formação intelectual como pensador negro, as palavras usadas aqui, representam um pensamento marxista afrofuturista de uma lucidez admirável. Sempre é difícil acreditar que podemos dialogar com líderes notáveis como Kwame, como coloquei acima a sua biografia feita de forma sempre magistral pelos organizadores, Kwame disserta esse texto em 1961, com um pensamento futurista que envolve desde o encorajamento do povo ganês, como de toda a África quando cita no trecho abaixo:


Embora a maioria dos africanos seja pobre, nosso continente é potencialmente extremamente rico. Nossos recursos minerais, que estão sendo explorados com capital estrangeiro apenas para enriquecer investidores estrangeiros, vão desde ouro e diamantes até urânio e petróleo. Nossas florestas contém algumas das melhores madeiras para serem cultivadas em qualquer lugar. Nossas culturas comerciais incluem cacau, café, borracha, tabaco e algodão. Quanto à energia, que é um fator importante em qualquer desenvolvimento econômico, a África contém mais de 40% da potência hídrica potencial do mundo, em comparação com cerca de 10% na Europa e 13% na América do Norte. No entanto, até agora, menos de 1% foi desenvolvido. Esta é uma das razões pelas quais temos na África o paradoxo da pobreza em meio às abundâncias e da escassez em meio à fartura. [1]





Trago esse parágrafo para analisar através do tempo, pois quando nos deparamos com notícias dos países africanos, geralmente tem conotações negativas ou caricatas, nos moldes imperialistas, porém é possível de forma simples desviar desses devaneios coletivos Muita coisa do discurso de Kwame ainda não foi efetivamente feita devido ao tempo que vivemos, que, não necessariamente, mesmo estando anos a frente do texto, encontramos uma evolução, pelo contrário: é possível encontrar retrocessos no meio de toda a humanidade.

É fácil observar que cada vez mais as notícias verdadeiras do continente africano tem atravessado o mar e sendo traduzidas de forma honesta, porém o desconhecimento ainda é algo para ser combatido, desde o ensino fundamental até a vida adulta, todos nós precisamos combater a mentalidade colonial que nos foi imposta e moldada com o passar do tempo. Por exemplo, quando Kwame cita a produção de cacau, trago uma notícia de dias atrás que Gana não vai mais exportar o seu cacau para países como a Suíça - que é mundialmente conhecida como o país do chocolate. Por anos nos foi introjetado a ideia de que o chocolate suíço era o melhor que se podia encontrar no planeta Terra, mesmo sem nunca ter experimentado, sempre foi possível ouvir ou reproduzir essa falácia.


Gana é atualmente o maior parceiro comercial da Suíça na África Subsaariana, principalmente da exportação de ouro e cacau para a Suíça e a importação de produtos químicos e farmacêuticos”, disse o presidente Akufo-Addo No entanto, como já afirmei em várias ocasiões, Gana não quer mais depender da produção e exportação de matérias-primas, incluindo os grãos de cacau. Pretendemos processar cada vez mais nosso cacau em nosso país com o objetivo de produzirmos mais chocolate para nós mesmos”, acrescentou. [2]



A notícia nos indica que 45% do cacau exportado para o mundo tem como principal local de origem em Gana, os outros 55% provém da Costa do Marfim, ou seja, o chocolate suíço, nunca foi suíço de fato.


As relações de poder que colocam países como Gana nas cordas, é algo que já era notado por Kwame, em seu texto ele indica os caminhos a serem percorridos, mas no mesmo texto ele alerta para que não seja deixado para tarde, que seja feito de forma imediata, mas como vemos, as autoridades africanas andam a passos lentos, porém hoje é possível ver avanços significativos, como a contenção da pandemia do Covid-19 onde diversos países africanos se dispuseram a ajudar uns aos outros, criaram uma central de crises sobre a pandemia na qual cada país deve trazer números de internados, de casos e testagem. Mesmo com as limitações de cada país devido às suas posições geográficas e clivagens, é possível ver a semente que Kwame Nkrumah plantou florescendo, mesmo que seja tarde, é algo para analisarmos.


No início desse ano fiz um texto sobre o 2021 da África - cercado de incertezas e problemas - que tem enfrentado uma pandemia de forma exemplar, com baixa circulação e menor letalidade do que países como o Brasil, que cada dia mais parece ter um genocida no controle.


Existem sim exceções, como a Tanzânia que com o seu presidente negacionista, deixou de notificar os casos no seu país e se disse livre do vírus. Em 17 de março deste ano, o presidente da Tanzânia, John Magufuli, faleceu, e a oposição cita a morte por covid, sabemos que a ignorância pode matar de diversas formas. [3]

Vacinas contra a Covid-19 já começaram a ser distribuídas em países africanos como, Costa do Marfim e Gana que já iniciaram seu processo. Para além, há uma coalizão entre os países africanos para a vacinação.Kwame Nkrumah foi um afrofuturista nas suas palavras e ler-as é como uma forma de enxergar o que devíamos ter feito, ou melhor, o que devemos fazer, o trecho abaixo mostra isso:


Temos que provar que a grandeza não deve ser medida em estoques de bombas atômicas. Acredito forte e sinceramente que com a sabedoria e dignidade enraizadas, o respeito inato pelas vidas humanas, a humanidade intensa que é nossa herança, a raça africana, unida sob um governo federal, emergirá não apenas como outro bloco mundial a ostentar sua riqueza e força, mas como uma grande potência cuja grandeza é indestrutível porque não é construída sobre o medo, inveja e desconfiança, nem conquistada às custas dos outros, mas fundada na esperança, confiança, amizade e dirigida ao bem de toda a humanidade. [4]



Kwame Nkrumah é um pensador que devemos cada dia mais ler. Ter contato sempre me surpreende, ver como o seus textos são atemporais. Cada vez mais eu percebo o quanto é necessário continuar a manter a chama revolucionária acesa em nós.


Márcio Paulo é historiador, pós-graduado em Filosofia e colunista da revista Clio Operária.



[1] Revolução Africana Uma antologia do pensamento marxista: Organizadores Gabriel Landi e Jones Manoel, pag 103.


[2] https://negre.com.br/gana-decide-encerrar-exportacao-de-cacau-para-a-suica/


[3] https://m.dw.com/pt-002/morreu-john-magufuli-presidente-da-tanz%C3%A2nia/a-56909004


[1] Revolução Africana Uma antologia do pensamento marxista: Organizadores Gabriel Landi e Jones Manoel, pag 105.


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