• Ricardo Normanha

Justiça por Kathlen Romeu: as favelas e o genocídio do povo negro

Aos 24 anos de idade e grávida de 4 meses, a design de interiores, modelo e afroempreendedora Kathlen Romeu teve sua vida interrompida pela ação criminosa da polícia do Rio de Janeiro


Foto: Reprodução - Instagram


Parte da sociedade brasileira começou a semana em choque com mais uma vítima do Estado e de sua política de extermínio do povo pobre e preto das periferias. Aos 24 anos de idade e grávida de 4 meses, a design de interiores, modelo e afroempreendedora Kathlen Romeu teve sua vida interrompida pela ação criminosa da polícia do Rio de Janeiro, em mais uma operação da eterna "guerra às drogas" no Complexo do Lins na Zona Norte. Guerra que serve, sempre, como pretexto para a política de criminalização da pobreza, para o avanço contínuo do Estado sobre as favelas e para o genocídio da juventude negra periférica.

Mas apenas parte da sociedade se chocou com mais este crime. Outra parte regozija-se, comemora, lucra e planeja as próximas ações. Há ainda outra parte que, anestesiada pela rotina, pelo bombardeio de informações, pelo entretenimento fugaz das mídias, não se afeta, é indiferente. E, com essa indiferença, contribui para a perpetuação desta lógica destruidora, perversa e predatória.


Mortes pretas e as favelas

As favelas, para além das definições técnicas utilizadas pelo IBGE, são a continuidade e a extensão dos quilombos, ocupadas majoritariamente por populações pretas e pardas. Algumas delas, de fato, foram territórios de quilombos. Outras foram formadas pela população pobre, preta, excluída da sociedade. Ocupações de áreas de risco, encostas de morros, territórios preteridos pelas classes dominantes. Na cidade do Rio de Janeiro, cerca de um terço das pessoas vive em favelas, aproximadamente 2 milhões de habitantes, o que representa uma população maior do que algumas capitais, como Curitiba, Recife e Porto Alegre. São fruto da exclusão social sistemática do Estado brasileiro e da ausência de política habitacional e de planejamento urbano. Impossível, portanto, compreender o processo de favelização de grandes cidades sem articulá-lo ao racismo estrutural e ao apartheid social e racial característico da nossa sociedade.

As operações policiais ostensivas nas favelas cumprem um papel fundamental na política de extermínio físico e social do povo pobre e preto. Enquanto ainda se contavam os corpos da chacina do Jacarezinho, outros corpos negros tombavam nas ações violentas das forças de segurança. O Estado transforma as favelas em matadouros eficientes nos quais basta estar vivo para se tornar um forte candidato à morte. Se o nosso tal "Estado democrático de Direito" não prevê a pena de morte, a realidade concreta das periferias indicam o contrário. O racismo inerente a esta política de morte desumaniza e aliena os indivíduos negros de direitos humanos fundamentais.



A ideologia na construção social da criminalidade


É importante destacar a construção narrativa que emerge desta ação sistemática do Estado sobre as favelas. Programas de televisão no final da tarde perpetuam o discurso violento da segregação, criando uma atmosfera de medo constante e de busca incessante por um inimigo a ser combatido. O judiciário corrobora esta construção ao expedir mandatos coletivos de busca e apreensão para uma comunidade inteira, ao negar que tantos jovens negros tenham direito a um julgamento justo. Operando no nível ideológico, cristalizam-se associações entre favela e crime, periferia e contravenção, jovem negro e suspeito, justificando perante o senso comum a necessidade destas operações de "combate ao crime".


Vale dizer que as operações policiais que resultaram nas maiores apreensões de armas no Rio de Janeiro não aconteceram nas favelas, mas sim em áreas consideradas nobres da cidade, sem que fosse necessário disparar um só tiro. Basta lembrar da enorme apreensão de fuzis no condomínio Vivendas da Barra, o mesmo em que reside Bolsonaro e um dos principais suspeitos do assassinato da vereadora Marielle Franco.


Neste sentido, levantar o véu ideológico das narrativas veiculadas nos discursos oficiais, nas entrevistas coletivas das forças de segurança, do judiciário, da mídia e do senso comum revela que a força motriz das ações policiais nas favelas é o racismo e a compreensão de que o povo negro é desprovido de direitos. As balas perdidas sempre encontram o corpo negro favelado.


Justiça para Kathlen, Marielle, Anderson, Kauan, Ágatha e todos os corpos negros destroçados pelo Estado!


Fonte: Podcast Vozes Populares, Ep.15. Disponível em https://open.spotify.com/episode/3YAkKHRqvj4Z8cxOPz6g0M?si=Zd3pPeY9QmqVPsoUoKFbVg


Ricardo Normanha é sociólogo, professor e colunista da Revista Clio Operária.


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