• marciopauloas96

Justiça para Sankara



Thomas Sankara, uma figura inigualável da história africana, o militar presidente de Burkina Faso, o “Che Guevara africano”, trouxe a pauta diversas reformas políticas, administrativas e sociais em Burkina, entre as quais uma reforma agrária, o aumento da participação das mulheres na sociedade, por exemplo. Thomas Sankara merece um texto sobre a sua figura, farei em breve, mas agora só quero mostrar que a justiça pode ser feita, e isso é parte do nosso tempo, depois de 30 anos da sua morte, Sankara nunca foi esquecido, ele sempre vive nos corações daqueles que sonham.


Conhecido como o "Che Guevara de África", Thomas Sankara chegou ao poder através de um golpe de Estado em 1983. Com mão de ferro, tentou concretizar a sua visão para o país: acabar com a corrupção e unir-se com os Estados africanos vizinhos. Pelo caminho, arranjou vários inimigos políticos. O companheiro de longa data Blaise Compaoré derrubou-o do poder a 15 de outubro de 1987. Sankara foi morto e, alegadamente, enterrado à pressa com 12 apoiadores.


A morte de Sankara sempre foi uma incógnita, morto em 15 de outubro de 1987, no relatório da sua morte constava que ele havia falecido por causas naturais, o que certamente foi uma ocultação feita pelo então presidente de Burkina Faso, Blaise Compaoré, que era um dos que ajudaram na luta de independência de Burkina Faso com Sankara. Isso se deu provavelmente junto às autoridades francesas, que teriam influenciado na morte do líder, já que ele rompeu os laços com a França, que era colonizadora de Burkina Faso, que na época era chamado de Alto Volta na época colonial.


As investigações só foram retomadas de fato depois da queda do então presidente Compaoré, que foi destituído do cargo por força popular em 2014 ele exilou-se na Costa do Marfim, desde então foi se abrindo o caso Sankara novamente. Em meados de 2015, foi constatado através de laudo pericial que Sankara não tinha morrido por causas naturais como divulgado em 1987, e sim por ter seu corpo crivado de balas.


"Concluiu-se que os assassinatos perpetrados a 15 de outubro de 1987 tiveram origem criminosa e foram utilizadas armas de fogo", afirmou o advogado Bénéwendé Sankara. "Foram identificados vários tipos de armas, incluindo G3, Kalashnikov, pistolas automáticas e até granadas. Em todo o caso, armas provenientes do exército." ¹


Desde 2015, oito pessoas tiveram que responder no tribunal sobre a morte de Sankara, dentre eles, temos o médico que atestou a morte de causas naturais e o então chefe da guarda presidencial general Gilbert Diendéré, que era o braço direito de Compaoré e possivelmente teria arquitetado a emboscada para Sankara.


No dia 13 de abril de 2021, o tribunal de Ouagadougou, capital de Burkina, decidiu que Compaoré será julgado pela morte de seu antecessor, durante o golpe de estado de 1987, no qual tomou o poder e perpetuou-se por 27 anos.


"Esta manhã assistimos à deliberação do departamento de controlo da investigação, que remeteu o caso para julgamento", disse à AFP Guy Herve Kam, advogado da parte civil, acrescentando que o rol de acusados é "essencialmente Blaise Compaoré e 13 outros, acusados de atacar a segurança do Estado, cumplicidade no assassinato e cumplicidade no recebimento de cadáveres".


Desde 2016, existe um mandado contra Compaoré, porém não foi arguido ainda devido ele ter nacionalidade marfinense e estar refugiado lá desde quando 2014, quando foi destituído do poder e se exilou no país vizinho, do qual também possui nacionalidade, para fugir das acusações tanto do assassinato de Sankara quanto por problemas de corrupção instalada nos seus anos de poder. Enquanto presidente, ele ceifou a possibilidade de uma vida próspera,as mudanças estruturais que Sankara poderia implementar, em um futuro poderia trazer benefícios para sociedade Burquinense, sendo mais uma vez lacaio de interesses coloniais franceses, e causando revoltas cada vez maiores. Todas as reformas de base que Sankara desenvolveria no seu mandato foram interrompidas pela ganância e os interesses coloniais e as inimizades políticas.


Existe sempre o momento que a verdade vem à tona, nem que seja para constatar o óbvio, mas isso sempre vem, Sankara foi mais um líder visionário africano que teve sua vida interrompida pelo simples fato de pensar no seu povo, antes de abaixar a cabeça e aceitar as migalhas coloniais. Um símbolo de luta anticolonial que está na história, não só de Burkina Faso ou do continente africano, mas sempre será lembrado por todos aqueles que sonham mais alto do que querem. É necessário ter força para continuar, assim como a viúva de Sankara tem há mais de 30 anos.


"Fico muito contente por esta investigação estar a trazer à tona a verdade", afirma Mariam Sankara em entrevista à DW África. Há quase 30 anos que a viúva do antigo Presidente burkinabé Thomas Sankara tenta obter esclarecimentos sobre as circunstâncias e o motivo da morte do marido.²


"Esta é uma investigação de todos os burkinabes e eu conto com o apoio da população, porque o povo quer acabar com o clima de intimidação que reina neste país", diz Mariam Sankara.²



Márcio Paulo é historiador, pós-graduado em Filosofia e colunista da revista Clio Operária.






Bibliografia


https://www.dw.com/pt-002/burkina-faso-corpo-de-thomas-sankara-crivado-de-balas/a-18784574 ¹


https://www.portaldeangola.com/2021/04/13/assassinato-de-sankara-blaise-compaore-vai-ser-julgado/


https://www.dw.com/pt-002/burkina-faso-blaise-compaor%C3%A9-vai-ser-julgado-pelo-homic%C3%ADdio-de-thomas-sankara/a-57187629 ²


https://www.voaportugues.com/a/blaise-compaor%C3%A9-vai-ser-julgado-pelo-assassinato-de-thomas-sankara/5851253.html


https://www.publico.pt/2021/04/13/mundo/noticia/expresidente-burkina-faso-vai-julgado-homicidio-antecessor-34-anos-1958420


https://jacobin.com.br/2021/05/thomas-sankara-deu-sua-vida-lutando-contra-o-neocolonialismo/


Revolução Africana Uma antologia do pensamento marxista: Organizadores Gabriel Landi e Jones Manoel.


Imagem da capa : https://revistaintertelas.com/2020/10/22/da-reforma-agraria-ao-direito-das-mulheres-conheca-o-legado-de-thomas-sankara/

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