• Rafael Lopes

Investigar, organizar e lutar


Somos todos seres pensantes, isso é um fato. Mesmo que de forma acrítica, refletimos diariamente sobre o nosso mundo, sobre suas injustiças, suas contradições e sobre a nossa luta. Enfim, diversos são os temas que ocupam nossa mente no dia a dia. Porém, apenas pensar por pensar de pouco adianta. Se limitar a identificar o que de errado há, mas sem ir adiante e sem estudar sua matriz, pouco resultado tem para a gente. Surge aí uma diferença substancial entre pensar e investigar. Pensar ou refletir é apenas receber a informação sem buscar entendê-la. Um exemplo: é comum a nós reclamarmos sobre as jornadas exaustivas de trabalho as quais estamos submetidos diariamente, porém, se nos limitarmos a apenas reclamar, sem ousar entender o porquê somos submetidos a isso, ou por que aqueles para quem nós trabalhamos não são submetidos a jornada igual, não chegaremos a lugar algum, ficaremos passos atrás da mudança concreta dessa realidade. Já investigar é dar os passos em direção a mudança, é buscar entender porque estamos nessa posição, porque há vários juntos conosco e porque há outros que não estão. É estudar a nossa história, como chegamos aqui.

A quem pertence a fábrica ou o escritório onde trabalhamos? Qual é nossa importância na produção? Como esse país se constituiu e qual foi a nossa participação? Perguntas como essas são fundamentais para que passemos da fase de apenas reclamar, para a fase de investigar a razão dos nossos problemas. E sobre quem somos nós, a resposta é simples: somos a classe trabalhadora, o proletariado, aqueles que nada possuem além de sua prole. Dito isso, devemos sempre ir à raiz do problema e jamais se contentar em apenas tocar sua superfície. E quando parecer difícil chegar a uma solução, lembre-se: as conclusões invariavelmente vêm depois da investigação e não antes. Vá e investigue seu mundo, e embora sua cabeça esteja vazia antes de sair de casa, ela não estará mais vazia quando voltar, mas conterá todo tipo de material necessário para a solução dos problemas, e é assim que os problemas são resolvidos. [1]


Outro ponto que quero tratar é o da organização, mas não como se este fosse um ponto separado do da investigação, mas sim como um só é possível com o outro. Nós, marxistas, partimos do ponto de que a ação do homem na natureza é o fator determinante de todas as outras atividades. O ser humano é o único animal que age e transforma a natureza de forma racional. A transformação, nós chamamos de trabalho. Mao Tse-Tung destaca e complementa essa visão:


O conhecimento do homem depende essencialmente da sua actividade de produção material, durante a qual vai compreendendo progressivamente os fenómenos da Natureza, as suas propriedades, as suas leis, assim como as relações entre ele próprio, homem, e a Natureza; ao mesmo tempo, pela sua actividade de produção, ele aprende a conhecer em graus diversos, e também duma maneira progressiva, certas relações que existem entre os próprios homens. Todos esses conhecimentos não podem ser adquiridos fora da actividade de produção. [2]

Ou seja: a prática dita o grau de conhecimento do ser humano, e essa prática, quando pensamos dentro da luta de classes, só é efetiva de forma coletiva. Como assim? Atos individuais pouco impacto têm, pois são engolidos pela complexidade do mundo. Ninguém jamais mudou sua realidade sozinho, as mudanças radicais de realidade registradas ao decorrer da história foram guiadas quando uma quantidade grande de pessoas se uniram para pensar e agir de forma coletiva. Seja uma revolução burguesa, como a Revolução Francesa, onde a insurgente burguesia francesa se uniu contra a monarquia, ou uma revolução comunista, como a Revolução Chinesa, onde os trabalhadores do campo e da cidade se uniram, derrotando não apenas uma espécie de senhores feudais que existiam ali no contexto chinês, como também as forças imperialistas japonesas e de outros países.

A necessidade da ação coletiva de forma organizada não é exclusiva desses exemplos. A cada dia que somos subjugados pelo capitalismo, a nossa organização como classe trabalhadora, para um ação coletiva e radical, é cada vez mais necessária. A prática revolucionária da classe trabalhadora só tem impactos concretos de forma coletiva e organizada, seja em sindicatos, seja em partidos revolucionários. Na ação coletiva está a nossa força. A luta de nós, trabalhadores, só tem força quando nos identificamos como uma classe só, que sim, possui características únicas entre os indivíduos, porém tem em sua situação a sua unidade e seu interesse comum: sua emancipação.

Essa ação conjunta de investigação e prática, Marx chama de práxis revolucionária, e é nessa práxis que o ser humano tem que comprovar a verdade. É na práxis que chegaremos ao caminho de construir a total emancipação da classe trabalhadora. Devemos dar os passos além da pura reclamação, mas para a investigação do problema e para a ação coletiva e organizada. Por fim, procure em seu bairro ou cidade por coletivos, juventudes, organizações ou partidos revolucionários, que busquem, de forma coletiva e radical, ou seja, indo à raiz do problema, mudanças concretas da realidade concreta.


Como diria o próprio Marx: os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo [3]. E essa transformação, cabe a nós fazer.


Notas:


[1] Oposição ao culto dos livros, Mao Tse-Tung https://www.marxists.org/portugues/mao/1930/mes/livros.htm

[2] Sobre a prática, Mao Tse-Tung https://www.marxists.org/portugues/mao/1937/07/pratica.htm

[3] Teses sobre Feuerbach, Karl Marx https://www.marxists.org/portugues/marx/1845/tesfeuer.htm



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