• Layana Sales

Individualismo: uma brecha do neoliberalismo dentro do movimento feminista


Pensar a situação das mulheres é, de certo modo, pensar a situação social. Entender a mulher como parte da sociedade neoliberal é necessário para compreender a raiz da exploração do capital. Tudo bem que a exploração de gênero vem antes do capital, mas o capital utiliza-se desse antigo desejo de poderio masculino para estipular mais uma forma de exploração: o machismo- ou ainda, exploração de gênero, desigualdade de gênero, ou qualquer outro nome que, você, leitora ou leitor, queira dar-que não nasceu do capitalismo, contudo é utilizado pelos capitalistas para lucrar em cima da mulher.

A manobra dos capitalistas vai muito além das relações entre homens e mulheres, aproveitando-se da luta, distorcendo-a a ponto de torná-la masculina e anticomunista. Vê-se o exemplo do FEMEN - grupo feminista fundado na Ucrânia em 2008, que no Brasil contou com a participação de Sara Geromini, mais conhecida como Sara Winter –, o qual tem como ideologia o fim da exploração sexual da mulher, porém, utiliza de topless para protestar por suas causas e é extremamente problemático, liderado por Vitor Svyatsk – pasmem, um homem.

Voltemos, agora, nossos olhos para Sara Geromini, a fundadora do FEMEN no Brasil. Sara utilizou-se do movimento para crescimento pessoal ao estabelecer relações na Ucrânia e se dizer contra toda e qualquer violência contra a mulher. Contudo, foi expulsa do movimento pelas líderes ucranianas em 2013, à medida que não tinha experiência para ser líder, ademais tinha atitudes controversas, apoiando-se e comunicando-se com grupos neonazistas. Logo após sua saída do movimento, lançou o livro: “Vadia não! Sete vezes que fui traída pelo feminismo”.

Sara é a perfeita caricatura - e exagero - do que o liberalismo acaba fazendo com os movimentos sociais. Já que se valeu de um movimento já deturpado para crescer individualmente. Todavia, como dito anteriormente, esse exemplo é exorbitante, mesmo sendo normatizado em nossa sociedade.

Para melhor enxergar essa crítica, vê-se a questão das CEO’s, as famosas mulheres empresárias que quebraram o telhado de cristal, entrando no mundo dos homens. Mas, pensando de forma marxista, o que essas mulheres fazem pelos trabalhadores? Ao passo que continuam fazendo parte da classe que detém os meios de produção. Dessa forma, individualizar-se, sem fazer o bem para todos e todas, não é ser feminista.


Completamente compatível com a crescente desigualdade, o feminismo liberal terceiriza a opressão. Permite que mulheres em postos profissionais-gerenciais façam acontecer precisamente por possibilitar que elas se apoiem sobre mulheres imigrantes mal remuneradas a quem subcontratam para realizar o papel de cuidadoras e o trabalho doméstico. Insensível à classe e à etnia, esse feminismo vincula nossa causa ao elitismo e ao individualismo. (ARRUZA; CANDIANI; FRASER, 2019, p. 30).


Crescer individualmente sem levantar a classe toda é uma manobra liberal apoiada por certas mulheres, que se dizem feministas, mas que, em realidade, apenas lucram em cima do trabalho de outras mulheres, as quais estão dentro de classes mais vulneráveis. Ser feminista e se recusar a entender exploração e opressão de classe, sem se alinhar politicamente com as medidas antiliberais e anticapitalistas, é, em suma, ser pró-ascensão de mulheres já ascendidas socialmente.

Individualizar o processo de conquista de espaço, quando se fala de gênero, é reconciliar-nos com a classe opressora e essa questão não é plausível, pois reconciliação não existe, enquanto a opressão ainda estiver vigente no sistema. Dar espaço para mulheres que acreditam na tal quebra do telhado de cristal como forma de igualdade de gênero, é apenas deixar de ser explorada por um homem privilegiado e começar a ser explorada por uma mulher privilegiada.


REFERÊNCIAS


ARRUZZA, Cinzia; BHATTACHARYA, Tithi; CANDIANI, Heci Regina; FRASER, Nancy. Feminismo para os 99%: um manifesto. São Paulo: Boitempo, 2019.

CISNE, Mirla. Feminismo e marxismo: apontamentos teórico-políticos para o enfrentamento das desigualdades sociais. Serv. Soc. Soc., São Paulo, v. 132, n. 1, p. 211-230, maio 2018. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/sssoc/n132/0101-6628-sssoc-132-0211.pdf. Acesso em: 02 nov. 2020.

QUEM é Sara Winter, a ex-feminista e atual militante radical bolsonarista presa pela PF a mando do STF. BBC Brasil, 15 jul. 2020. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-53053329. Acesso em: 02 nov. 2020.



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