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Identidade de gênero: Algumas considerações psicanalíticas

Maria Luisa Lima*


Lili Elbe foi a primeira transexual a se submeter a cirurgia de redesignação sexual

Identidade de gênero se refere à forma como o indivíduo se reconhece, podendo ser homem, mulher ou outro, sendo o mesmo denominado cisgênero quando se identifica com o seu sexo biológico, ou transgênero quando a identificação ocorre com o gênero oposto ao designado ao nascer. Para entender a complexidade que permeia a transgenitalidade, é necessário enxergar além do que é pautado pelo senso comum frente a essa questão, tendo em mente a diferença existente entre orientação sexual, que diz respeito a quem lhe atrai sexualmente, e identidade de gênero que, como mencionado anteriormente, diz respeito a sua identificação enquanto ser em relação ao sexo que lhe caracteriza.


Robert Stoller, psicanalista norte-americano, introduziu na Psicanálise a distinção entre sexo e gênero para melhor compreensão da psicodinâmica do transexual. Stoller define sexo como a dimensão biológica e gênero como a dimensão psíquica, haja vista que gênero traduz melhor as conotações psicológicas e/ou culturais que sexo. Dessa forma, o autor conceitua gênero como a quantidade de masculinidade ou feminilidade que uma pessoa possui, e conclui que gênero prima sobre sexo. Dentre as explicações dadas pela Psicologia quanto a identidade transexual, a mais comum se pauta na teoria da criança imaginada. Tal teoria parte do princípio de que o anúncio da chegada de uma criança (gravidez, adoção etc.) provoca uma idealização dos pais pela criança que está por vir. Na maior parte dos casos, os futuros pais possuem uma representação do que é chamado por “criança imaginada”: uma criança de acordo com o narcisismo dos pais e que possui corpo e gênero definidos por esse imaginário. Para aceitar que a criança que não é do sexo esperado é necessário que esses pais façam o luto da criança que preexistia em seus imaginários.


No caso da criança transexual, não existe a possibilidade de elaboração do luto da criança imaginada, pois antes de sua vinda ao mundo, no inconsciente daqueles que a acolhem, o sexo da criança já foi estabelecido. Consequentemente os processos psíquicos que levam à construção do sentimento de identidade sexual em acordo com o sexo anatômico, encontram-se bloqueados por identificações primárias entravadas. Devido a isso, a identidade dessa criança corresponde ao lugar que ela ocupou na dinâmica pulsional de quem a acolheu no mundo, mas em descordo com o sexo anatômico, sem que exista qualquer má formação anatômica, biológica e/ou desequilíbrio hormonal.


Atualmente, o DSM-IV entende a transexualidade como Perturbação da Identidade de Gênero e em seu novo manual, a APA (American Psychological Association) modificou o termo “transtorno de gênero” para o termo “disforia de gênero”, termo esse que expressa o sofrimento marcado pela incongruência entre o sexo de nascimento e a expressão de gênero atribuída, além da CID-11 (Classificação Internacional de Doenças) que no ano de 2018 retirou a transexualidade de sua lista de doenças. O objetivo de tais alteração é que o auxílio prestado à essas pessoas aconteça sem a estigmatização das mesmas ao considera-las portadoras de um transtorno mental, sendo válido ressaltar que essas mudanças graduais se devem à luta e a pressão do movimento LGBTQIA+ em prol da despatologização da transexualidade para um atendimento humanizado dessa população.


*Maria Luisa Lima é estudante de Psicologia e pesquisadora sobre violência e questões raciais no Núcleo de Pesquisa em Violência e Psicologia Jurídica (NUPEV - PJ).


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