Humanismo marxista: socialismo e a busca pela felicidade



Em meus estudos sobre o marxismo, constantes e inacabados, já me identifiquei com algumas perspectivas da teoria crítica, como o leninismo e o maoísmo, entretanto rompi com ambos por discordâncias aos níveis teórico e prático. Hoje, prefiro me localizar centrado nos estudos humanistas do marxismo. Com isso, venho pensando sobre qual o objetivo final de nossa luta, não apenas com respostas mordazes frente ao capitalismo cáustico, mas a nível subjetivo, do nosso interior. Voltemos aos clássicos.

"O preço médio do trabalho assalariado é o mínimo do salário, isto é, a soma dos meios de subsistência necessários para manter a vida do operário como operário. Por conseguinte, aquilo de que o operário se apropria por seu trabalho é apenas suficiente para reproduzir sua vida, reduzida à mais simples expressão. De modo algum pretendemos abolir essa apropriação pessoal dos produtos do trabalho, indispensável para a reprodução da vida do dia seguinte, uma vez que essa apropriação não deixa nenhum lucro líquido que confira um poder sobre o trabalho alheio. O que quero é suprimir o caráter miserável dessa apropriação que faz com que o operário viva unicamente para aumentar o capital e só viva à medida que o exigem os interesses da classe dominante”.

Nesse trecho do Manifesto do Partido Comunista, Marx e Engels expõem o objetivo central subjetivo do socialismo. Quando o fazem, falam sobre a mediocridade que é a vida do trabalhador dentro de um sistema de exploração. O preço pago pelo trabalho é o mínimo (salário mínimo) para aquele trabalhador e trabalhadora manter-se enquanto tal, ou seja, sem a menor possibilidade de transitar entre camadas menos pobres da sociedade. Dessa forma, viverá apenas como exposto no trecho acima, para minimamente reproduzir se e majoritariamente aumentar o trabalho acumulado, atendendo a exigência do capital. Mas, quando Marx e Engels falam sobre acabar com “O caráter miserável dessa apropriação” não estão falando sobre a realização pessoal do trabalhador e trabalhadora? Afinal, a consciência social do proletário é nítida, nós sabemos que o desejo de boa parte dos trabalhadores é conseguir uma casa própria, um meio de transporte adequado ou simplesmente algo que deixará para seus filhos e filhas não passarem pelo mesmo problema que ele.

Eleanor Marx, filha do velho Marx, mesmo com toda a propaganda anticomunista cara a mídia burguesa (https://www.bbc.com/portuguese/internacional-534), foi uma intelectual marxista, e suas obras, hoje, vem ganhando fôlego e vigor, como deve ser. Em uma carta, endereçada à Olive Schreiner, de 1897 escreve:

"É curioso mas acredito que muita gente não compreende o quanto a noção de felicidade é importante para os socialistas, como ela está no coração mesmo do pensamento de Marx. É ela, afinal, o grande objetivo final de nossa luta, a felicidade – não como simples busca do prazer individual – mas como auto-realização do ser humano. O direito que cada indivíduo tem de poder expressar e realizar suas capacidades, realizar-se, colocando sua humanidade no que faz, seja o que for: um objetivo, uma lavoura, uma obra de arte. Que todos possam ser felizes, efetivando suas capacidades e fazendo parte de uma coletividade, um grupo que os reconhece como seus”.

Muito expressiva!

O Socialismo é a concretização da felicidade, da auto-realização, do querer também ser poder. No sistema posto diante de nós, não podemos realizar a vontade individual, mesmo que essa expresse, de alguma forma, um bem coletivo. A menos que, essa vontade seja de interesse do capital. Caso contrário, viveremos com a finalidade de não morrer de fome, de doenças que não temos recursos para tratar, de ter o mínimo num dia e tentar ter o mesmo no seguinte. Marx, noutro trecho do Manifesto do Partido Comunista, criticando o que e ele denominou como Socialismo e Comunismo crítico-utópicos, os acertam declarando que só saem em defesa do operariado por ser a classe que mais sofre, ou seja, o operário só existe sob a óptica de ser a classe que carrega o fardo de sofrer. De fato, somos a classe que sofre, mas não existimos apenas sob essa premissa.

Portanto, se for da vontade do trabalhador que seja pela manhã um operário industrial e, em algum outro momento do dia um pesquisador assíduo ou um estudante de engenharia, que assim o seja! A realização pessoal é favorecida pelas condições de sua vida que o possibilitam escolher, de maneira livre e clara, o que e como deseja atuar. Eleanor, a filha de Marx, prossegue na carta:

“Muitas pessoas nem sempre associam o 'livre desenvolvimento de cada um como condição para o livre desenvolvimento de todos' à noção de felicidade do indivíduo. Não entendem que esse 'livre desenvolvimento' de cada um é, justamente, a condição para que se possa ser feliz. Ou pensam que isso é coisa do futuro e deve ser deixada para o futuro. Não se dão conta de que ser feliz é algo para ser buscado no presente; que não deve ser uma utopia, mas algo necessário, agora, algo para ser tentado desde já, algo que nos faz melhores como pessoas e, portanto, mais capazes de enfrentar a longa luta. Não creio que exagero quando penso que a beleza da vida, a alegria de viver é o que deve nos guiar e é o que nos pode dar alguma força. Que a revolução significa não apenas a busca da vida e da liberdade, mas à busca da felicidade”.

A isso, Marx coloca:

“Na sociedade burguesa, o passado domina, portanto, o presente; na sociedade comunista, é o presente que domina o passado. Na sociedade burguesa, o capital é independente e pessoal, enquanto o indivíduo que trabalha não tem nem independência nem personalidade”.

A Revolução nos trará não apenas uma nova forma de sociabilidade, mas a paz (termo caro a Domenico Losurdo), a felicidade, a tão buscada vontade pessoal e coletiva.


Referências bibliográficas


MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Lafonte, 2018.

MARX, Eleanor. O que é a felicidade?. Disponível em: https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=2878070282419586&id=1918169465076344.

LOSURDO, Domenico. Colonialismo e luta anti-colonial. São Paulo: Boitempo, 2020.


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