Humanidades: Educação, Política e Sociedade*



*A seguinte carta era, originalmente, destinada ao Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo, o IFSP, para a participação no processo seletivo do programa de especialização em Humanidades oferecido pela instituição; com os rumos diferentes que minha vida pessoal tomou, fui obrigado a desistir do processo.

São Paulo, 20 de outubro de 2020.


Exmos. (as) Srs. (as) membros (as) da banca examinadora,


Firmo por meio desta minha candidatura ao processo seletivo do programa de pós-graduação latu senso de especialização em Humanidades – Educação, Política e Sociedade, promovido pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo, o IFSP. O faço pois, em minha vida, principalmente acadêmica, sempre tive como objeto de estudo os pilares que possibilitam a interação e reprodução social humana, os mesmos que são propostos pelo Programa Pedagógico do Curso. Por isso também, minha formação superior iniciou-se com o curso de licenciatura em História, visando conhecer e aprimorar uma perspectiva histórica para problemas atuais.

No desenvolvimento da resposta ao lugar que as Humanidades ocupam na crise atual vejo a possibilidade de ultrapassar – e muito – o limite de laudas imposto previamente, o que acarretaria em minha desclassificação; por isso, a fim de garantir que isso não aconteça, vejo de imediato a necessidade de elencar dois desígnios imprescindíveis à área: a reformulação/ressignificação de conceitos e a identificação de peculiaridades da tessitura social.

A concepção de Política, por exemplo, não pode se desintegrar da ideia de poder, isso determina que Política são relações de poder diluídas em toda a vida social e não se pode confundir com apenas o poder do Estado. Podemos observar empiricamente essa afirmação no ambiente familiar e sua estrutura hierárquica característica, na relação homem-mulher, no âmbito escolar que possui sua hierarquia e, principalmente, no cotidiano laboral dos trabalhadores (as). Mais importante que essa observação acerca das relações no que podemos descrever como uma “macroestrutura” da vida, devemos apreender que a disseminação do poder não se estabelece apenas no uso da força propriamente dita, mas, e em sua grande maioria, é a utilização a favor da persuasão e legitimidade que valida essa observação. Aqui os eixos compositivos do curso, a meu ver, se conectam. A Educação, inserida no conjunto social que possibilita a reprodução humana, carrega uma função humanista, onde o homem pode encontrar o respaldo para executar qualquer função (não apenas no sentido trabalhista) que desejar, porém, o problema decorre de como essa forma educacional é colocada pela ordem atual, já que, indubitavelmente, a educação deveria possibilitar a reprodução de experiências inerentes à ação humana, que remata na humanização dos homens.

Em outras palavras, a educação é representação e expressão da vida material do homem, de seu comportamento social e real. Assumo assim que o homem não deve receber esse conhecimento apenas como forma de regulação comportamental, mas que seu corpo e seu espírito possam evoluir através disso.

Logo, se Educação, e escrevo aqui banhado em todo o espírito freiriano, é forma de humanização dos homens e o modo de produção erguido sobre a propriedade privada “coisifica” o homem, ambos são incompatíveis. Esse processo de “coisificação” não é a representação de um desejo abstrato e infundado de uma única pessoa, mas um projeto bem definido que expressa a necessidade de um determinado grupo social de que essas massas estejam aptas a realizarem as funções que lhes são designadas sem questionamentos e sem grandes desavenças entre quem comanda e quem é receptor dessa ordem.

Portanto, a Educação, da forma como é atualmente, responde a um propósito também Político.

A continuidade de minha exposição aponta para o outro eixo do curso, a Sociedade, que existe na concretude entre os grupos que a compõem. Os organismos compositivos, os seres humanos, se organizam dessa forma a fim de promover suas necessidades e vontades e não devem, em hipótese alguma, serem retirados do seu contexto. Sendo assim, os homens, em sua proximidade social, adquirem relações necessárias e fora de seu desejo, contradizendo a concepção contratualista que estabelece que os indivíduos conchavam contratos entre si de forma voluntária. Logo, é importante ressaltar que a vivência social é que define a consciência individual. Isso significa que todas as transformações sociais que compõem o andar histórico da humanidade são frutos da estreiteza social, de lutas e de projeções para o progresso desenvolvidas sobre as possibilidades que foram abertas na formação social que antecede a atual.

Tal necessidade – a de se lançar numa busca por melhores condições de vida – decorre do fato de haver uma determinação prévia dos interesses e, portanto, da classe favorecida. Conceitos como “igualdade” e “liberdade” emergiram no debate social a partir do século XX justamente pela evolução do que se entende por Política, já que na Grécia Antiga, por exemplo, Aristóteles pensava que a Política deveria ter como finalidade o bem humano. Já Maquiavel, a partir do século XVI, propôs que Política é um jogo de estratégias e conquistas. Com isso fica claro que analisar a sociedade e suas classes de maneira estática, de forma positivista, é um erro, uma vez que essas são mutáveis e móveis.

A Política, portanto, é também forma de legitimação da luta de uma classe.

Devido ao limite imposto já citado anteriormente, devo aqui finalizar essa humilde exposição, trazendo uma reflexão que acredito ser necessária para o debate: mesmo quando tratados etimologicamente, os termos que formam as bases compositivas do curso não devem, em uma análise, receber tratamento separados; pelo contrário, são como devem, interligados.

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