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Governo Bolsonaro Mourão: Fausto ou Mussolini?

É inegável que a quadra histórica de atravessamos é caótica, confusa, cansativa e poderosamente perigosa. A longuíssima crise econômica encontrou-se com uma crise política e sanitária dando origem ao pior ano para a classe trabalhadora em décadas: 2020! Porém, o caos não pode se transformar ou se perpetuar como confusão sobre quem ou o que, e o governo Bolsonaro-Mourão. A descrição vinda da esquerda reformista e dos socialistas democráticos, lembra muito a descrição de um governo como Fausto Empatetado. Goethe foi um a dar vida a este icônico personagem, símbolo da modernidade e de sua derrocada, que sedento por seus objetivos - no caso por conhecimento - acaba por receber do demônio também uma maldição: de destruir tudo aquilo que se aproxima e que tenta transformar.

Este Bolsonaro Fáustico, é capaz de muitas coisas. Têm um poder criador tremendo, capaz de golpes, influência midiática, influência popular, capacidade entre forças armadas e polícia e, ao mesmo tempo, tudo que ele toca apodrece, morre, se desvirtua! A última vitória, na Câmara e Senado, ampliou sua imagem intocada e os pavorosos 200 mil óbitos pela pandemia, seu caráter destrutivo e eminente ruim!


Será esta característica real? Como nos ensina Marx, qualquer análise concreta da sociedade deve demonstrar alguns elementos: a luta de classes; percebeu a sua movimentação de classe interna na sociedade e das próprias classes; avaliou tendências e processos, etc. Se pensarmos em tendências e processos históricos do período recente à disposição tática do governo no período de pandemia, perceberemos três fases relativamente distintas: 1) Tensão Golpista; 2) Recuo Tático; 3) Recomposição

A Tensão Golpista foi o momento imediato após o início da pandemia em nosso país, onde os diversos governadores, guiados pela experiência internacional, estabelecem uma quarentena relativamente restritiva. Bolsonaro-Mourão estabelecem, em defesa da burguesia, a possibilidade de corte salarial em até 50% no período, mas cumpre uma função ainda mais importante ao empresariado: sem a aglomeração rotineira, e sem a possibilidade de produção e serviço de diversas mercadorias, setores inteiros ficam impossibilitados da extração direta de mais-valia. Vira prioridade última do governo a demolição da quarentena e qualquer medo do vírus, rifar a vida dos trabalhadores em defesa do lucro - isso se configura em uma ideologia abertamente negacionista.

A burguesia racha em duas frações, uma pró governo e que busca e retomada imediata da extração de valor dos trabalhadores, custe o que custar, outra, gradualista, que em uma defesa parcial da vida (ou mascarando a sua defesa da morte) defende aberturas e fechamentos e busca formas de mais valia relativa - mecanização e virtualização do trabalho. A primeira fração mobiliza a seu favor a pequena burguesia; os trabalhadores precarizados e desempregados e o precariado, ou seja, todos impedidos de trabalhar - acontecem atos e carreatas por todo Brasil. A segunda, por sua vez, conta com os poderes legislativo e judiciário e alguns governadores locais.

Bolsonaro-Mourão, mostrando a fragmentação da coalizão inicial, buscam o processo de busca da hegemonia pela força, que tem por sinal a substituição de civis por militares nos cargos chave e uma escalada de ânimos golpistas, especialmente contra o poder judiciário, em busca da centralização do poder (enfraquecendo os governadores) e aumentando os piores ânimos das forças militares e policiais, sob a palavra de ordem de vou intervir!” Esta tática, entre vitórias e derrotas pontuais, conquista seu salto em um segundo momento: as duas frações burguesas buscam autodiferenciação, mas há uma vitória parcial da hegemonia pela força, porém com grandes danos: o recuo tático acontece diante do afrouxamento da quarentena em todo território nacional, ao mesmo tempo que Bolsonaro-Mourão perderam diversos poderes concretos, limitados pelo STF; a tensão golpista transformou seu isolamento entre parte da burguesia em um isolamento popular. Dado os mortos amontoados em todo Brasil, a posição anti-quarentena talvez tenha tido grande peso, mas a falta de auxílio rápido e uma certa confusão – onde se compreende o dever do presidente na garantia de emprego – ajudaram a derrubar a popularidade que atingiu o fundo do poço entre Junho e Julho- acompanhado de mobilizações como as das Torcidas pela Democracia, Vidas Negras Importam e a Greve de Entregadores.

A terceira fase é a Recomposição, que se inicia com os preparativos para as eleições municipais, somado a busca por uma nova popularidade: com anuência da esquerda e dos demais blocos burgueses, a renda básica começa a ser distribuída. Com o Auxílio Emergencial, pago a partir de Setembro, mas alardeado desde Julho, a avaliação positiva de Bolsonaro sobe e a rejeição diminui, chegando mais ou menos aos três terços tão alardeados pela mídia (30% Bom, 30% Ruim, 30% médio); formalmente o bloco no poder não se envolve diretamente nas eleições locais, buscando após seu resultado reagrupar tropas, ou seja, seja qual for o resultado, buscaria reagrupar seus grupos de apoio. A mesma postura parecia buscar no congresso, a vitória do segundo setor da burguesia nas eleições locais parecia ter enfraquecido Bolsonaro-Mourão, até a sua última jogada: vencer a Câmara de Deputados e o Senado em troca de concessões ideológicas e de poder. Com um simples chacoalhar de notas de dinheiro, iniciam a ressoldar o bloco burguês, o fato novo da vacina começa a tirar a pandemia do meio do caminho das ambições mútuas e apontam na unidade burguesa pelas reformas liberalizantes: administrativa e tributária.


Esta caracterização tática do bloco no poder mostra algo distante do Fáustico (poderoso e maligno), Bolsonaro e se aproxima mais de… Mussolini. Explicamos. Tanto os elementos que dão origem ao fenômeno (empobrecimento das camadas médias e sua proletarização; crise econômica aguda; ampliação do exército industrial de reserva, etc), além do caráter político (traição aberta da social-democracia) e por fim, a fraqueza e erros de análise da vanguarda dos trabalhadores e suas direções, se assemelham a elevação do fascismo ao poder e à sua prática. Mas há outro elemento importante, este fundamental para sua caracterização: O fascismo enquanto fenômeno histórico tem uma característica transitória.

Seu caráter de coalizão pro-burguesa (e reacionária) alinha dentro de si contradições tão profundas que é impossível que se mantenha por muito tempo em pé sem começar a desmantelar-se e perder partes de si - isso já ocorre com Bolsonaro desde a posse - outra questão é que seu caráter é uma organização repressiva burguesa, que ao mesmo tempo que promete à grande burguesia, se apoia nos pequenos burgueses e trabalhadores descontentes. Logo, este segundo setor começa a descolar-se conforme seu programa avança.

A moeda de existência do bloco no poder, agora reagrupando e iniciando a soldar-se como bloco único da burguesia, é a sua própria perda de base social entre a pequena burguesia e a progressiva perda de características ideológicas, em outras palavras, outro ato de força tem por retorno seu oposto dialético, o enfraquecimento.

Por fim, mas não menos importante, exortamos que as camadas em luta descartem esta propaganda de Fausto Empatetado e retome ao amplo programa anti fascista, afinal, a ascensão de Bolsonaro ao poder e seu esfacelamento a olhos vistos nos deixa a pergunta: a queda deste governo, por suas contradições internas, será depois que ele realizar tudo a que veio (reforma trabalhista, previdenciária, tributária, partidária, etc) ou deve ser obra dos trabalhadores?

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