• marciopauloas96

Golpe no Mali, de novo!


Pessoas se mobilizam nas ruas de Bamako, capital do Mali, em apoio ao golpe de Estado desta segunda-feira, 18 - 18/08/2020 Moussa Kalapo/EPA/EFE

Através de mais uma “Quartelada”, militares amotinaram-se e caminharam os arredores de Bamako, capital do país prenderam o presidente Ibrahim Boubacar Keita e o primeiro ministro Boubou Cissé de forma ilegal e criaram o Comitê Nacional para a Salvação do Povo.

O presidente dissolveu o parlamento e entregou o poder como modo de não haver mais derramamento de sangue. O terceiro golpe militar no país, seguido do primeiro em 1968, e do segundo em 2012, desta vez foi arquitetado por militares de patentes intermediarias, diferente de 2012, quando militares de baixa patente realizaram o golpe.

O Mali que fica no continente africano que é um país sem saída para o mar ocidental e apenas fronteiras terrestres com Senegal, Burkina, Argélia e outros que ficam na África ocidental, conquistou sua independência em 1960, depois de anos de colonialismo francês em seu território e que era conhecido como o Sudão Francês.

Tinha grandes perspectivas de um futuro próspero, devido ao seu primeiro presidente eleito Modibo Keita, com uma postura mais voltada ao socialismo e ao pan-africanismo.

O governo de Modibo foi marcado por políticas econômicas de substituição de importações para uma economia sustentável e de forma que o próprio povo tivesse retorno direto das ações, uma administração ilibada e que alavancou o setor público responsável pelas garantias dos bens sociais.

Porém, devido a uma economia pouco estruturada e voltada para o algodão que correspondia a mais da metade do PIB, o governo não teve forças para suprir as necessidades básicas do país, pagamentos de salários, os programas de promoção a educação e a saúde, sendo todos suspensos.

Todo o petróleo era e ainda é importado e as suas hidrelétricas são modestas, o solo pobre e o acesso limitado à água na parte norte pressionam a agricultura, e por sua distância do mar torna-se difícil levar os produtos ao mercado.

Além desses empecilhos, em 1968 o regime de subsídios ao algodão na Europa e nos EUA atingiu a tentativa do Mali de desenvolver sua economia, e com isso é deflagrado o primeiro golpe apoiado pelos imperialistas, que removeram a ordem constitucional e estabeleceu um comitê militar, jogando para escanteio as políticas de Keita, perseguindo apoiadores e colocando o Mali de volta na mão dos franceses.

O Mali passou por diversos problemas com a sua dívida externa e com uma fraca economia, recorreu ao FMI em 1980, devido as temporadas de secas que o país amargurava, o que fez com que desenvolvesse uma dívida criminosa de 3 bilhões de dólares. Em 1991 com uma espontaneidade democrática e com grande apelo popular, Konaré chega ao poder e, com a dívida externa ocupando mais de sessenta por cento das receitas, pouco pode fazer. Como os salários não podiam ser pagos, Konaré implorou pelo perdão da dívida, mas foi ignorado.

Quanto maior as dívidas que o governo fazia, menor era a capacidade de sair da crise, e menor a chance de uma administração honesta, o governo afundou-se na corrupção, o que beneficiava países como França e EUA, uma vez que através da corrupção, conseguiam ter seus interlocutores para a mineração do ouro por meio de empresas como a Barrick Gold do Canadá, que conseguiam o ouro a preço mais baixo.

Por trás de muita coisa que acontece no Mali vem os porquês do pais ser tão prejudicado pela política externa e pelo imperialismo. O país detém o terceiro lugar em reservas de ouro, tem 17 mil toneladas de uranio, reservas de cobre e entre outros recursos naturais. Porém, a legislação do Mali ainda é frágil por mais que tenha uma constituição e um estado de direito instituído, ainda existe resquícios da escravidão e o seu maior produto exportável ainda é o algodão que tem um valor relativamente baixo.

Desde a sua independência, o Mali luta para integrar o seu território, as comunidades tuaregues (nômades africanos) iniciaram uma rebelião em 1962, exigindo a sua autonomia e recusando obedecer às leis de fronteiras, já que os tuaregues são nômades e tinham livre acesso a outros países fronteiriços.

Com conflito armado do Sahel, que é um cinturão africano que passa por dentro do Mali e tem em seus espectros os países da região e os jihadistas salafistas, os grupos islâmicos vieram com grande força ao Mali após o golpe de 2012, e tomaram conta de parte do norte do país, devido ao fracasso dos militares de conter os avanços dos grupos. Tudo serviu como pano de fundo para mais um Golpe de Estado, utilizando Imã, que é um religioso salafista do país com seu discurso populista e que apoiou o presidente em 2013 nas eleições, e agora voltou se contra a figura do mesmo.

O presidente que foi eleito como alguém com uma liderança forte e com discurso de combate a corrupção, teve em seu governo denúncias. No meio da pandemia, ordenou o lockdown” e gerou uma crise interna na economia já deteriorada. A soma desses acontecimentos – uma guerra de mais de dez anos pela identidade do povo, lutas contra corrupção, atraso de pagamentos dos militares, e o imperialismo voraz contra suas reservas – fizeram com que os militares e a população descontentes com o modo de gerir de Keita, golpeassem uma república já frágil e em crise.

Os militares que se amotinaram e deram o golpe não têm um tempo definido para realizar eleições, nenhum país da comunidade africana ou de fora viu com bons olhos a tomada do poder pelos golpistas, os Estados africanos veem com preocupação a tomada de poder e pedem que se restabeleça a ordem constitucional. O presidente e o primeiro ministro foram soltos, porém sem a retomada do cargo. Os militares querem criar um comitê de transição civil, sem os agentes militares envolvidos no golpe, porém, independente de quem esteja no comitê, se ele ameaçar a soberania do pais, os militares estarão alertas para defender os seus interesses.

O Mali é um país geograficamente importante para a França e para os EUA, como também é importante para grupos como Al-Qaeda e o Boko Haram que são acusados pela mídia externa de tráficos de pessoas, armas e drogas pelas suas fronteiras. Com uma política interna enfraquecida e com a velocidade dos acontecimentos, parte dos problemas do Mali passam pela sua crise de identidade e a interferência externa da França, através de seus militares, para a “promoção e defesa da paz” através do acordo feito com a ONU e os EUA para conter grupos islâmicos que através do Mali tinham acesso a países vizinhos pela sua posição estratégica. O Mali tem sido alvo como todos os outros países africanos do imperialismo e do capitalismo, de modo que não tenha formas de um futuro nacional e com uma política de existência.

O Presidente deposto teve um acidente vascular cerebral e precisou solicitar a junta militar a saída do país para tratamento nos Emirados Árabes Unidos, e já retornou ao país, assegurado pela junta militar que ele será tratado como presidente desde que não seja um agente contra a nova junta militar, que foi pressionada pela comunidade econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) para um novo governo de transição com período de dezoito meses com a obrigatoriedade de serem civis, porém os militares estão em posições estratégicas para que caso seja desvirtuado o golpe, eles reassumam o poder e façam novas estratégias para o comitê militar.

Passados meses pós golpe, o Mali, vive incertezas, com o conflito no deserto do Sahel incontrolável, e com as negociações dos militares para soltarem os jihadistas presos em troca de mais liberdade no espaço, os conflitos étnicos locais e ainda com o exército francês no seu território, uma conjuntura complexa, devemos acompanhar cada vez mais atentos as negociatas e aproximações para assuntos que ferem a autonomia e a liberdade do Mali.


Márcio Paulo é historiador, pós graduado em Filosofia e graduando em Ciências sociais pela Universidade Cruzeiro do Sul, e colunista da revista Clio Operária.

Referências

https://oglobo.globo.com/mundo/lideres-da-africa-ocidental-suspendem-sancoes-ao-mali-aplicadas-apos-golpe-militar-24679449


https://www.dw.com/pt-002/mali-l%C3%ADderes-da-%C3%A1frica-ocidental-concordam-com-transi%C3%A7%C3%A3o-civil-de-18-meses/a-54947189


https://www.dw.com/pt-002/mali-como-ser%C3%A1-a-transi%C3%A7%C3%A3o-depois-do-golpe-de-estado/a-54931352


https://xadrezverbal.com/2020/08/22/xadrez-verbal-podcast-238-mali-africa-belarus-e-israel-eau/



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