• Rafael Lopes

Golpe à vista


Os últimos acontecimentos no Brasil tiraram toda a fé que as intuições barrariam o governo genocida de Jair Bolsonaro. O golpe fica cada dia mais evidente e mesmo assim, uma parcela da esquerda recusa-se a enxergá-lo. Essa esquerda que se recusa a acreditar que as instituições brasileiras estão e sempre estiveram pareadas ao interesse da burguesia é ingênua ou mal intencionada. A nossa “democracia” pouco tem de democrática de fato, nosso sistema favorece a burguesia em todo os seus segmentos. Basta ver a pressão que as empresas vêm fazendo para o fim do isolamento social, mesmo com a América Latina sendo o atual epicentro da pandemia do COVID-19, junto a isso o fato de que o extermínio da população preta e pobre continua nas periferias do Brasil.

E mesmo com todo dia a realidade nos mostrando o real caráter da burguesia, há aqueles que fazem de todo esforço para crer que exista algum segmento nacional que asseguraria a democracia diante as ameaças diárias que ela vem sofrendo. Iludidos são, pois a burguesia nacional nada tem de nacionalista e age conforme seus interesses. Não podemos esquecer que há décadas o projeto econômico da burguesia é o neoliberalismo, e a história comprova que a ditadura é o melhor ambiente para o neoliberalismo. Observemos: com o golpe efetuado, o avanço do agronegócio no campo sobre reservas indígenas e ambientais será mais fácil; as reformas administrativas que pretendem fortalecer ainda mais o projeto neoliberal passarão sem muita resistência; as leis trabalhistas (as que ainda não foram) serão erradicadas; e o setor financeiro continuará a usar do Estado para conseguir crédito praticamente de graça, para assim explorar cada vez mais o trabalhador brasileiro. Ou seja, uma ditadura militar ao mesmo tempo que seria um inferno para os trabalhadores brasileiros, seria um paraíso para burguesia.

Há também aqueles que depositaram sua fé nas Forças Armadas, crendo de forma irracional que ela defenderia a democracia. Á essas pessoas pergunto o seguinte: onde vocês estavam nos últimos anos? As Forças Armadas não têm apreço algum com a democracia. Estão desde 1986 esperando o melhor momento para voltar ao poder e, diante das atuais circunstâncias, não há momento melhor do que agora porque, além da esquerda ter largado mão de suas armas acreditando que assim seus opositores fariam o mesmo, há um vírus nas ruas que impede qualquer grande manifestação popular. Muito se discutiu sobre quais seriam os fatores que iriam ditar que setor estaria no comado da sociedade brasileira, e no final das contas, o fator exclusivo foi a força.

Devemos parar de acreditar que as instituições brasileiras podem em alguma coisa nos ajudar. As instituições só servem para matar o pobre, nunca o ajudar. E isso a gente vê no nosso dia-a-dia: mesmo em uma pandemia, o Estado só chega na periferia por meio da polícia, que continua a exterminar a população preta e pobre sistematicamente. Está cada dia mais evidente que se a esquerda de hoje não se radicalizar, ela não existirá amanhã. E essa radicalização não pode ser desorganizada. A organização é a maior arma do trabalhador. Devemos nos organizar nos partidos que ainda possuem algum caráter popular e nos movimentos sociais, para sim conseguirmos colocar em prática nossa radicalidade de forma organizada e disciplinada. Não basta queimar a agência bancária, o banqueiro tem que arder junto. É improvável que o golpe não se concretize, porém, quem ditará a força da resistência somos nós.

Referencias:

Mauro, I. Bolsonaro e a guerra civil. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=hpSCkaEmdjw>. Acesso em: 30 mai 2020.

G1. América Latina é o novo epicentro da pademia do corona vírus, diz Opas. Disponível em: <https://g1.globo.com/globonews/globonews-em-pauta/video/america-latina-e-o-novo-epicentro-da-pandemia-do-coronavirus-diz-opas-8581913.ghtml>. Acesso em: 30 mai 2020.

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