Esquerda liberal e a tática de silenciamento

De onde vem a atitude de silenciamento da esquerda radical por parte da esquerda liberal e a que estruturas e interesses políticos essa tática corresponde?


Acontecimentos frequentes envolvendo figuras de grande repercussão da esquerda liberal silenciando críticas vindas da esquerda radical me suscitam diversas reflexões e opiniões que decidi compilar neste texto, usando de gancho algumas polêmicas recentes nas redes sociais e os próprios comentários dos seguidores de ambas figuras. Acredito que táticas chamadas agora de “cancelamento” devem ser questionadas por meio de algumas questões: de onde vem essa atitude de silenciamento da esquerda radical praticado por figuras da esquerda liberal? Que tipo de relações estruturais orientam esse tipo de prática cada vez mais recorrente? Qual o papel que personalidades da esquerda liberal desempenham ao ganharem repercussão na grande mídia burguesa, aliarem-se à marcas, enfim, o que significa esse aliamento para um debate político sobre a superação do capitalismo? Qual o interesse do neoliberalismo de dar palco para essas figuras tidas como progressistas?


Primeiramente acredito que o liberalismo, como expliquei em outro post baseado em Hobsbawm, fundamentado no pilar do individualismo, busca desmantelar qualquer possibilidade de mobilização coletiva. Posições de natureza combativa, radical no sentido de ir diretamente na raiz das estruturas causadoras das problemáticas sociais, ao invés de ficar patinando na superfície: é necessário que esse tipo de posição seja desmantelada não só porque ela fomenta a necessidade de mobilização, como também fomenta um horizonte de análise política para além do individualismo identitário. A aparência progressista dos debates sobre feminismo e racismo feitos na mídia burguesa servem também ao interesse político neoliberal de impossibilitar que ambos sejam atrelados a uma análise materialista, para além das problemáticas que dizem respeito a dimensões comportamentais.


Vemos, em várias situações, figuras da esquerda liberal, com apoio da mídia burguesa, pegando críticas de ordem estrutural, de cunho marxista, enfim, críticas fundadas no materialismo dirigidas a questões políticas, transformando-as simplesmente em ataques pessoais, ofensas estritamente individuais, e acredito que isso serve a dois propósitos: confundir seu próprio público sobre discordâncias serem ofensas contribui para o propósito de construir sua imagem como a líder inequívoca, a “fada sensata” que emana a palavra do que é a “verdadeira” esquerda, a única possível; em segundo lugar, atribuir à esquerda liberal o rótulo de “verdadeira” esquerda mina qualquer possibilidade de debate e desenvolvimento de senso crítico, tornando o posicionamento liberal o único horizonte que o público vislumbra, enquanto a esquerda radical é taxada como desumana, que ataca e ofende, nunca como uma outra opinião divergente e viável.


O desenvolvimento de um senso crítico que permita ao público reconhecer críticas sobre questões sistêmicas do capitalismo é o maior medo da burguesia. A ideologia burguesa é construída sobre o individualismo como único horizonte de reflexão possível: não permite que os indivíduos enxerguem a sociedade para além de identidades pessoais e questões da esfera privada, porque permitir que o façam é permitir que reconheçam seu caráter de classe. É permitir que reconheçam que certos problemas com os quais convivem não acontecem só por causa de consequências de suas ações individuais, ou de seus pensamentos e posicionamentos, mas que são na verdade problemas comuns a milhares de outras pessoas, com as quais se constrói o sentimento da coletividade. O liberalismo tem pavor que as pessoas comecem a entender o que é essa dimensão estrutural e sistêmica da vida, construída para além dela e dos que estão ao seu redor.


O que é danoso nas táticas de silenciamento da esquerda radical é que as figuras da esquerda liberal contribuem, muitas vezes sem nem ao menos perceberem, com a despolitização da esquerda como um todo. Divulgar mudanças individuais como sinônimos de revolução é despolitizar a esquerda: é primeiro de tudo esvaziar o sentido da palavra revolucionário; é tratar comportamentos e identidades como se fosse o mesmo que uma construção coletiva de um projeto político verdadeiramente transformador das estruturas de opressão. Aceitar e amar a si mesmo, modificar suas mentalidades e opiniões, adotar comportamentos alinhados aos princípios éticos do feminismo e do antirracismo, dizer que tais atitudes individuais são em si atos revolucionários é esvaziar a palavra revolução de seu sentido. São os primeiros passos para o desenvolvimento de uma consciência que desemboca na vontade de se organizar, mas são apenas os primeiros passos: o problema das figuras progressistas da esquerda liberal é que os tratam como se fossem os únicos passos na formação política de esquerda.


O fenômeno de despolitização da esquerda é uma investida neoliberal. E faz parte das estratégias utilizar figuras tidas como "de esquerda" para desfigurar e distorcer profundamente o que é ser de esquerda. Usar figuras de retórica progressista funciona para a adesão maior, e deixa o discurso liberal mais palatável do que vindo de um empresário branco de mais de 50 anos. Usando figuras da esquerda liberal, com discurso aceitável pelo mercado e pela mídia burguesa, você consegue convencer toda uma legião de jovens preocupados com as desigualdades sociais de que eles vão efetivamente mudar o mundo ao mudarem a si mesmos. Essa é essencialmente uma lógica liberal. É um discurso individualista, moralizante, e com alto poder de despolitizar as pessoas, com alto poder de desmantelar qualquer possibilidade de reconhecimento como classe, de despertar para a realidade da luta de classes como fundamentadora dessas desigualdades, e com alto poder de desmantelar qualquer organização coletiva que pudesse insurgir com teor combativo ao que realmente importa transformar: as estruturas fundamentais que dão sustentação ao modo de produção capitalista como um todo.


Não há nada mais liberal do que trazer o foco de qualquer crítica apenas para a esfera privada do individual. Isso faz com que indivíduos internalizem a culpa pelo que é causado na verdade por um sistema inteiro, faz com que indivíduos assumam a responsabilidade por transformações que só são possíveis coletivamente, e faz com que indivíduos comprem a ilusão de que mudar sua vida privada vai mudar o mundo todo. De que se todo mundo mudar a si próprio isso vai se somar e resultar na mudança do todo. Não tem nada mais liberal do que analisar a sociedade como um amontoado de pessoas e ignorar deliberadamente a existência de estruturas sustentadoras da ordem vigente.


A outra consequência é a moralização da esquerda e da política. Toda vez que moralizamos o debate estamos engajando em discussões despolitizantes. A ideia de que há um comportamento "correto" e um comportamento "cancelável", e que isso é decidido pelas atitudes individuais daquela pessoa. Os seguidores da esquerda liberal tratam comportamentos individuais como gravíssimos, mas críticas estruturais como irrelevantes. “Ser de esquerda” é tratado como uma régua de comportamentos moralmente corretos em que se coloca o indivíduo e o mede, decidindo se ele corresponde ou não ao idealizado modelo de “fada sensata”. Esquerda não é uma identidade que você adota para si, é um conceito político e coletivo, determinado dentro de uma análise relacional, organizador da disputa política.


Choca muito mais que a “fada sensata” seja criticada do que o conteúdo de uma crítica estrutural, porque as estruturas são em certa medida invisíveis quando se vê a sociedade apenas como um amontoado de indivíduos. Ir para além dessa superfície exige necessariamente tratar sobre questões estruturais sobre as quais há um esforço gigantesco de silenciamento. E o silenciamento de uma análise materialista e estrutural é uma tática deliberadamente construída pelo neoliberalismo, ou seja, pela burguesia, como forma de despolitizar a esquerda. Figuras progressistas e seus seguidores são apenas internalizados e instrumentalizados para aumentar a eficácia dessa tática.


A despolitização da esquerda passa também pela ideia da homogeneidade, a ideia de que ser de esquerda é uma coisa só, e claro que essa esquerda homogênea só pode ser a esquerda liberal, não é mesmo? O discurso liberal trata a esquerda radical como se fosse inexistente, minoritária e ignorável. Para um esquerdista liberal, ser de esquerda significa apenas uma coisa, e todo esquerdista é sempre isso: uma pessoa que se compadece das desigualdades e tenta minimizar a reprodução dessas desigualdades em seu cotidiano. Pegando no caso do feminismo, quando figuras da esquerda liberal aparecem na mídia dando seu significado, a resposta é "ser a favor da igualdade entre mulheres e homens". Ser de esquerda é "ser sensível a questões sociais". Veja que o verbo sempre é o verbo ser. Ser de esquerda nunca é fazer na definição da esquerda liberal. É uma questão novamente de identidade e comportamento. Nunca é um significado que transcende o indivíduo. Toda vez que figuras progressistas são usadas para tratar racismo ou feminismo como identidade e comportamento, e não como combate à estrutura, estão sendo instrumentalizadas como figuras despolitizantes.


Eu acredito que existem muitas táticas válidas como formas de luta política. Minha posição é a de que a militância precisa, sim, de um diálogo entre táticas individuais e coletivas. Que é necessário, sim, modificar nossos hábitos de consumo, nossa alimentação, nossas opiniões e julgamentos sobre pessoas diferentes de nós, é necessário cuidar da nossa saúde mental. O que eu critico são pessoas que fingem que essas atitudes em si e por si só já são transformadoras da sociedade, sendo que não são. Elas são um primeiro passo insuficiente se não aliado a táticas coletivas e mais combativas.




Por Amanda Freitas

Estudante de Ciências Sociais na UNIFESP, bolsista FAPESP de iniciação científica em ciência política.

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