• Nicaria Costa

Envelhecimento, trabalho e descarte na sociedade capitalista

O idoso na sociedade de classes continuará marginalizado, pois as políticas públicas e reformas sociais, embora necessárias, não eliminam a exploração da classe trabalhadora pela burguesia e a consequente estigmatização da pessoa envelhecida.


Trabalhador idoso achado em condições análogas à escravidão em produção de sisal na Bahia — Foto: Reprodução/Esquerda Diário


E o velho, que tal lhe pareceu?

- É velho, e está tudo dito

Aí é que você se engana, dos velhos está tudo por dizer

o que acontece é que não se lhes pergunta nada, e então calam-se.

(Ensaio Sobre a Lucidez, José Saramago)


Em que momento da vida nos damos conta que a velhice chegou? Sorrateiramente através dos vincos que se formam no rosto, após anos de expressões repetidas? Ou quando começam as queixas sobre o aparecimento de dores em lugares pouco comuns? Quando perdemos nossa função produtiva para os meandros do capital e nos tornamos apenas um compêndio de memórias? Qual o marco que atesta o afastamento da juventude de nossos dias?


Quando Simone de Beauvoir [1] escreveu sobre a velhice, nos anos 70, a definiu como uma categoria marginalizada. Destino biológico, imersa em contradições, a constituição da velhice estaria embebida na própria oposição entre exploradores e explorados. Ecléa Bosi [2], citando Sartre, aponta a velhice como um irrealizável, sendo uma situação que perpassa a própria percepção de si. Não seríamos capazes de assumir a velhice existencialmente ou pela exterioridade, assim como ela é para o outro. Para Solange Teixeira [3], o envelhecimento é um processo biopsicossocial, que ocorre ao longo de toda a vida, sendo diretamente moldado pelas relações de gênero, raça e classe. A chegada da velhice, heterogênea em sua forma, transmitiria o modo como os sujeitos experienciam suas existências em sociedade.

Partiremos aqui da compreensão de que a velhice, enquanto condição natural, também se constitui como categoria social, delineada a partir das mudanças históricas e pelo acirramento dos conflitos de classe. Para Marx (2007, p. 94), é a partir da materialidade que as relações sociais e os modos de consciência são formados, e, portanto, é levando em conta esse princípio materialista histórico dialético que a realidade deve ser apreendida. Falar sobre envelhecimento dos trabalhadores é reconhecer a centralidade do debate sobre os modos de produção e reprodução da vida no capitalismo.


Encarando essas questões, é possível afirmar que embora os indicadores sociais apontem para o aumento na expectativa de vida da população brasileira nos últimos anos [4], isso não corresponde em necessária melhora na forma com que a classe trabalhadora tem alcançado a longevidade. Isso porque, a problemática do envelhecimento, como já foi posta, é diretamente influenciada pelas condições materiais, tendo as relações econômicas um impacto decisivo nisso. Uma vez inseridos no sistema produtivo, os trabalhadores sofrem com o adiantamento de processos biológicos de envelhecimento, em razão das demandas exaustivas de trabalho, sinistralidade laboral e negligência corporativista frente às demandas de saúde dos proletários. Além disso, a racionalização do trabalho promove o controle sobre o tempo de vida dos trabalhadores, que precisam dedicar-se cada vez mais ao ofício, enquanto o aproveitamento do tempo pessoal se torna escasso. Assim sendo, como esperar que o idoso desfrute de uma velhice saudável, se durante toda a vida foi submetido a esferas de privação?


Como coloca Teixeira (2008), o regime de exploração do trabalhador na sociedade capitalista condena-o duplamente: a exclusão em razão de sua idade e a uma depreciação social, que reduz o proletariado a uma massa disforme, limitada à sua força material de produção. Durante a velhice, os idosos se veem destituídos do seu valor de uso para o capital, e novamente tomados por sanção condenatória. Com a rejeição do mercado de trabalho, não raras as vezes precisam se sujeitar à serviços precários, vendendo sua mão de obra por quantias irrisórias. Os velhos são duramente afetados pelo desemprego estrutural, definido pela impossibilidade de reinserção de determinados indivíduos ao mercado, por não atenderem ao perfil de mão de obra exigido.


Esse cenário de instabilidade econômica na velhice possui outros fatores de agravo. De acordo com dados do IBGE, em mais de 17 milhões de famílias brasileiras o responsável pelo sustento é um idoso, o que corresponde a quase um quarto dos lares do país sendo geridos por pessoas com mais de 60 anos [5]. As formas de renda geralmente provêm de três modos: pelo reingresso em empregos formais, por atividades desenvolvidas na informalidade ou por rendas fixas, como pensões e aposentadorias. Essa dependência econômica em geral é fruto da contradição entre capital e trabalho, que tem como consequência o aumento da pobreza, desemprego, evasão escolar, violência, etc.


Uma pesquisa recente divulgada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), apontou que as dificuldades de inserção no mercado de trabalho por parte dos filhos é um dos principais fatores que corroboram para esse quadro de dependência familiar. O mesmo estudo mostrou que a morte de idosos por covid-19 pode impactar diretamente no empobrecimento das famílias que tinham essas pessoas como seus principais provedores [6]. Nas palavras da economista que desenvolveu a avaliação, os velhos são atingidos pela pandemia por serem mais suscetíveis ao contágio da doença e pelo desemprego e vulnerabilidade social. São vítimas do vírus, mas sobretudo, da negligência do Estado.


A miséria, exclusão e violência são traços presentes no processo de envelhecimento da classe trabalhadora. Se por um lado, perdem sua funcionalidade para o sistema produtivo, por outro, podem ser rearranjados na dinâmica de exploração, como é o caso dos idosos inseridos na informalidade para complementar o orçamento doméstico. O trabalho voltado para a acumulação na lógica de controle do capital, assume um papel de atribuidor de sentido para a vida do indivíduo. Na velhice, com a impossibilidade do labor – em sentidos formais, o idoso também precisa lidar com a desvalorização social. Mais que isso, precisa lidar com questões que transitam entre a própria percepção que o velho tem sobre si e suas possibilidades de realização e autonomia nesse período da vida.


Caberia aqui elencar outros aspectos sobre a questão da velhice no tempo do capital, entretanto, os comunistas estão, sobretudo, comprometidos com a transformação do mundo. O idoso na sociedade de classes continuará marginalizado, pois as políticas públicas e reformas sociais, embora necessárias, não eliminam a exploração da classe trabalhadora pela burguesia e a consequente estigmatização da pessoa envelhecida. Como colocou Ecléa Bosi (1994, p. 81), é necessário “mudar a vida, recriar tudo, refazer as relações humanas doentes para que os velhos trabalhadores não sejam uma espécie estrangeira”. É preciso construir uma nova sociedade em que as relações não sejam pautadas pela capacidade de produção dos indivíduos.

NOTAS:

1. BEAUVOIR, Simone. A velhice. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990, p. 15.

2. BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos. 3 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1994, p. 79.

3. TEIXEIRA, Solange Maria. Envelhecimento e trabalho no tempo do capital: implicações para a proteção social no Brasil/Solange Maria Teixeira. São Paulo: Cortez, 2008.

4. https://censo2021.ibge.gov.br/2012-agencia-de-noticias/noticias/26103-expectativa-de-vida-dos-brasileiros-aumenta-para-76-3-anos-em-2018.html

5. IBGE – INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC). Microdados da amostra, 2018.

6. https://www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=36198:2020-07-27-13-37-22&catid=437:publicacoes-coronavirus&directory=1

REFERÊNCIAS:

ANTUNES, Ricardo. Adeus ao trabalho? ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho. 7. ed. São Paulo: Cortez, 2001.


MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo, 2007.


Nicaria Costa é graduanda em História pela Universidade Estadual da Paraíba - UEPB, compõe o Grupo de Estudo e Pesquisa do Brasil Oitocentista (GEPBO) e desenvolve pesquisas sobre o mundo rural. Escreve quinzenalmente para a Clio Operária, às segundas-feiras.

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