Entre dois mundos distintos: Nós temos mesmo um lugar?


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A grande pensadora do feminismo negro, Bell Hooks, escreveu no século XX uma das obras mais importante para o feminismo negro e geral, assim como para a luta antirracista. O livro E não sou uma mulher?: mulheres negras e feminismo[1], com esse título explosivo, se baseia na frase proferida pela grande abolicionista e mulher negra histórica, Sojouner Truth[2], no século XIX, após ser atacada por homens brancos que riam do fato dela estar nas articulações do movimento de mulheres ao lado de mulheres brancas.


No livro, Bell Hooks realiza uma crítica extremamente importante e necessária ao feminismo estadunidense do século passado, assim como ao movimento negro, sobretudo, o Movimento de Direitos Civis. As críticas se justificavam pelo fato de que existiam muitos quadros racistas dentro do movimento feminista composto por mulheres brancas nos EUA; da mesma forma que haviam homens negros do Movimento dos Direitos Civis que buscavam se integrar a sociedade do Tio Sam, reproduzindo e reafirmando todos os pressupostos machistas. Sendo assim, as mulheres negras se viram contra a parede ao passo em que de um lado sofriam racismo, e do outro machismo. A reação histórica inevitável foi o feminismo negro.


Em um artigo com o título E não sou um ser humano? Publicado na Revista Fórum pelo cientista social Richard Santos[3], acompanhando a provocação de Hooks no título de seu livro, Santos reflete com dados sobre a desumanização imposta a população negra no Brasil em números de homicídio e falta de acesso a educação. O apelo do conteúdo exclama o título do artigo da maneira mais eloquente e doída possível. Nós, o povo negro, somos tão desumanizados por essa sociedade que foi construída sobre as nossas costas, que talvez ainda não tenhamos experimentado o que é gozar do direito de humanidade plena.


Seguindo Bell Hooks e Richard Santos, eu reflito agora: E não tenho eu um lugar? Esse questionamento me vem, pensando na importância que se tem a reflexão, tão pontuada por Michel de Certeau[4], da importância de atentar de qual lugar as coisas partem, o que leva a reflexão do nosso lugar ou não lugar.


No livro de uma das mulheres negras mais grandiosas da intelectualidade brasileira, Atitudes raciais de pretos e mulatos em São Paulo de Virgínia Leone Bicudo[5], contém o apontamento de que o sujeito marginalizado é aquele que se encontra em um estado de incerteza psicológica por transitar em dois mundos sociais distintos.


As pessoas marginalizadas impostas a sobreviver nas margens da sociedade burguesa, encontram-se no mundo social criado pela história da sociedade moderna, ou seja, a sociedade capitalista é construída pelos corpos soterrados nas covas rasas do modo de produção escravista[6], e que se mantém através da morte, tortura e destruição do imperialismo e do neocolonialismo[7]. Essa sociedade que nega essas pessoas, que existe sobre a premissa de integra-las, como artifício ideológico de legitimação[8], mas que na prática vive também da marginalidade e desumanização dessas pessoas.


O outro mundo social que os marginalizados e marginalizadas vivem, é o mundo concreto da segregação, da fome, do trabalho precário, do sofrimento, da destruição do prazer na vida, da violência, da perseguição, da fome, das prisões e dos campos de concentração constantes do capitalismo. Esse mundo no qual as táticas - das mais diversas ordens - de sobrevivência são como oxigênio. Do crime pela imposição da miséria, à luta política pela transformação radical da realidade, sobreviver é a pauta do dia, deixar de ter fome e frio é a pauta do dia.


E esses dois mundos estão em constante movimento, um negando ao outro e gerando novas realidades possíveis o tempo todo, novas sínteses que podem ser emancipadoras, ou que podem gerar mais sofrimento, acirrar a opressão e a exploração. Isso só as condições concretas e o movimento real dos contrários, dos lados em oposição que se negam e buscam novas formas que vão gerar novas formas.


E, com tudo isso, qual é o nosso lugar? Marginalizados, desumanizados e impostos a viver entre dois mundos e, no meio de tudo isso, tentando sobreviver. Na sociedade que nos mata e nos desumaniza, qual é o nosso lugar? Pode realmente viver nessa condição ou só sobreviver buscando formas de construir um lugar para nós?


Quando essas reflexões aparecem, parece cada vez mais certo que só temos um lugar e esse lugar está no futuro, está no amanhã, na luta radical pela construção do Poder Popular, pela emancipação humana. Então, o que estamos buscando com a luta? Para onde vamos? Para o nosso lugar.


Vinicius Souza é historiador e professor de História, pós graduando em Direitos Humanos e Lutas Sociais pelo CAAF - UNIFESP, militante do Coletivo Negro Minervino de Oliveira-SP e da UJC-SP.


Notas


[1] HOOKS, B. E não sou eu mulher?: mulheres negras e feminismo. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2019.


[2] DAVIS, A. Mulheres, Raça e Classe. São Paulo: Boitempo, 2016.


[3]https://revistaforum.com.br/blogs/socialistamorena/e-nao-sou-eu-um-ser-humano/


[4] CERTEAU, M. de. A escrita da história. Rio de Janeiro: Forense, 1982.


[5] BICUDO, V. L. Atitudes raciais de pretos e mulatos em São Paulo. [Marcos Chor Maio org.]. São Paulo: Editora Sociologia e Política, 2010.


[6] REIS, J. J. A morte é uma festa: ritos fúnebres e revolta popular no Brasil do século XX. São Paulo: Companhia das letras, 1991.


[7] N’KRUMAH, K. Neocolonialismo: último estágio do imperialismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967.


[8] MARX, K. Engels, F. A ideologia alemã Vol I: Feuerbach - uma contraposição como cosmovisões materialista e idealista. São Paulo: Martin Claret.

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