• Clio Operária

Ensaio da crítica ao marxismo ocidental

Rafael Torres*


Domenico Losurdo, grande intelectual marxista italiano, falecido no último ano, elaborou uma das mais belas obras sobre o marxismo Ocidental e suas diferentes frentes, se baseou numa análise da leitura marxista de outros líderes comunistas, como Mao Tsé-Tung e Ho Chi Minh, representantes do marxismo Oriental.




A primeira crítica que é feita ao pensar revolucionário Ocidental é, na projeção intelectual, a exclusão da formação das estruturas básicas da maioria social dos países que um dia foram colônia, ou seja, pouco é levado em consideração o fato de grande parte desses países terem sofrido com a escravidão, onde pode traçar o racismo atual, ou com a acumulação primitiva do capital, gerando a burguesia atual. Porém, outra parte dessa obra me chamou mais atenção. Losurdo, no artigo que originou o livro Marxismo Ocidental: como nasceu, como morreu, como pode renascer, aborda autores marxistas ocidentais, iluminando suas análises imprecisas sobre as lutas de libertação nacional. Nesse sentido, Sartre, filósofo francês de muito sucesso, escreve em Crítica da Razão Dialética a análise das lutas entre classes, que segundo Losurdo, justifica o lado do opressor também, partindo do pressuposto que ambos estejam em conflito devido ao seu estado de penúria, ou seja, ambos possuem uma justificativa plausível para estarem em guerra constante, Sartre ignora a cultura, a história, a língua nessa análise, e arma os que oprimem. Ignora, portanto, um dos pontos de essencial atenção ao marxismo: o momento, num cenário revolucionário, do pós tomada de poder. O autor explica essa falta de empatia, ou comprometimento, citando Michel Hardt e Antonio Negri “Da Índia à Argélia, de Cuba ao Vietnã, o Estado é a dádiva envenenada da libertação nacional“. Ou seja, a luta contra o imperialismo, contra o neocolonialismo dos países do norte, só pode ser apoiada enquanto não for vitoriosa, enquanto estiver sendo derrotada, de novo e de novo, só assim pode ter apoio dos que se dizem intelectuais.


Nesses momentos, resguardo-me e retorno às leituras básicas que me fizeram aderir ao comunismo, e lembro que já no Manifesto do Partido Comunista, Marx e Engels pensando na Revolução, pensam principalmente no âmbito econômico com a tomada de poder pelos comunistas, onde, ao contrário da crença popular, o proletário não irá destruir os meios de produção, mas usar de toda a sua envergadura política conquistada para aumentar o máximo possível as forças produtivas daquele país, por uma questão lógica de que a economia vai depender ainda dos processos de importação e exportação. Além disso, a detenção produtiva tecnológica concentrada nas mãos dos países capitalistas é por si só instrumento de repressão econômica para o socialismo. Losurdo, exemplificando isso cita o secretário do Partidos dos Trabalhadores do Vietnã do Norte, anunciando que, após a tomada de poder, o próximo passo é a revolução técnica, onde “as forças produtivas fazem o papel decisivo”.


Já em relação à Mao, após lançar a República Popular da China, em 1949, Losurdo cita a palavra de ordem da Revolução no país oriental “Fazer a revolução e estimular a produção”. Com uma licença literária que pedi mentalmente ao autor, sinto-me atacado, e lisonjeado também por receber tal crítica ao marxismo ocidental, onde esquecemos a relevância econômica do marxismo, ou seja, levamos em consideração, como rebeldes sem causa — ou, os anarquistas — apenas a primeira parte da palavra de ordem chinesa, ignorando o socialismo enquanto projeção econômica. Mao, em seu artigo Sobre a Prática, citado por Losurdo, engrandece a objetividade não só do poder comunista, mas também sobre o esforço para aumentar justamente essa força produtiva, e podemos pensar que isso é um acerto de contas histórico. Anteriormente ao acúmulo primitivo do capital, quem detinha a força até então conhecida como produtiva eram os artesãos e, posteriormente, os produtores manufatureiros, mesmo que com divisão do trabalho, ainda assim sabiam os processos de produção até o resultado final, ou seja, essas pessoas eram detentores de sua própria força produtiva, do seu próprio saber. Ou seja, Mao na prática revolucionária assume a divisão histórica do trabalho, resultando em despir os produtores de seu conhecimento, portanto, Losurdo caracteriza por não só manter a autodeterminação nacional, mas, a prática pedagógica que a produção estabelece para com o seu produtor. Irei me apossar do termo do autor, que configura a leitura marxista Ocidental do “Rebelar-se é justo” como sendo meramente anarcóide.


Podemos enfim ponderar acerca de um resultado final dessa análise de Losurdo acerca dessa divisão geográfica do marxismo. Em meus estudos marxistas, que são contínuos, sendo trabalho de uma vida, me deparei recentemente com o termo Orientalismo, decidi então saber mais. Jones Manoel, camarada do PCB e intelectual marxista brasileiro, explicou a origem do termo, vindo do marxismo egípcio, porém sendo amplamente difundido por Edward Said, onde basicamente o Oriente, para o Ocidente, é representado como um lugar de acontecimentos diversificados e estranhos, onde o mais grotesco acontece, e acaba sendo normal para o oriental. Por exemplo, alguns veículos de notícia, mais de uma vez inclusive, noticiaram a presença de um campo de concentração na China onde haviam 1 milhão de pessoas, o que equivale a população de uma cidade grande, e isso no Ocidente é totalmente passível de credibilidade, mas se fosse em qualquer país europeu, não. Ou, quando foi noticiado que na Coréia do Norte o líder Kim Jong-um mandou assassinar seu tio com um míssil. Mas, podemos estender essa perspectiva do Oriente, por exemplo, no longa metragem 300, onde retratada por Hollywood, a Guerra dos 300 virou um imenso espetáculo, onde Xerxes é uma figura bizarra, extremamente alto e com uma voz divina, e seu exército conta também com elefantes. Essa visão distorcida e nublada do Oriente refletem diretamente na análise Ocidental.


*Historiador, educador popular na rede Podemos+, editor na Revista Clio Operária, desenhista e escritor.


Referência bibliográfica


LOSURDO, Domenico. Como nasceu e como morreu o marxismo ocidental.

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