• Reinaldo Gomes

Em defesa da Humanidade

Atualizado: 26 de Jun de 2020


O coração ainda batia acelerado, suas pernas tremiam e tudo o que queria era que tudo acabasse tão rápido quanto começou. João acompanhava os guardas em um carro, ainda sem entender o que estava acontecendo. Os homens simplesmente entraram na sua casa e disseram que ele era acusado de homicídio. E pensar que há pouco mais de meia hora João estava esparramado no sofá assistindo seu programa jornalístico policial preferido!


João, apesar de ter 40 anos de idade, carrega uma expressão cansada e sofrida que lhe confere uma aparência mais velha. Quando criança, ajudava seu pai a vender frutas e doces no farol. Na adolescência conheceu Jacira, nunca se casaram, mas moraram juntos e tiveram 2 filhos, um menino e uma menina. Como estava sempre trabalhando como vendedor ambulante, sua relação com os filhos não era muito próxima e se tornou ainda mais distante e conflituosa depois que João decidiu abandonar Jacira e viver uma aventura que durou pouco mais de 6 meses.


A crise da pandemia do Covid-19 fez com que as vendas caíssem muito. Viu-se endividado, cansado e revoltado. Naquele dia, decidiu encerrar suas atividades nas linhas da CPTM (vendia doces e refrigerantes) mais cedo e ir descansar. Tivera um dia difícil, então passou no mercadinho do bairro pegou algumas cervejas e foi para casa.


No banco de trás do carro em que o levavam, ele revia os últimos acontecimentos na tentativa infértil de entender o que acontecera. Em seu íntimo ele tinha certeza de que aquilo era um engano, talvez o confundiram com o filho “nóia” da vizinha. Era a segunda vez que pensava no filho dependente químico da vizinha naquele dia. Lembrou que estava assistindo uma reportagem na qual policiais armados invadiram a casa de moradores de uma comunidade próxima e mataram um rapaz a tiros. Segundo os policiais, o rapaz havia reagido á prisão e por isso eles atiraram. João acompanhava, incrédulo, a mãe do jovem de 17 anos dizer que o filho não reagiu e que não havia feito nada de errado. João pensou:


-As mães desses vagabundos sempre acham que os filhos são santos. Se morreu, boa coisa não era. Devia ser mais um desses traficantes ou “nóias” nojentos. E pensar que ainda tem gente que defende esses bandidos. Deve ser igual o “imprestável” do filho da vizinha, drogado safado. Ah, mas por isso que eu queria ter uma arma, se um “verme" desse entra na minha casa pra roubar dinheiro para comprar droga, eu mato sem dó.


O programa acabou, João tomou o último gole de sua cerveja e se deu conta de que alguém batia palmas no portão de sua casa. Foi até a porta, imaginou que fosse algum pedinte, as ruas estavam cheias deles agora, estava pronto para dar um grito e dizer: não tem nada aqui pra você, vai trabalhar, vagabundo! Mas deu de cara com dois homens, que disseram que ele precisava acompanha-los, pois havia uma denúncia de homicídio contra ele.


-Como assim homicídio?! Calma, eu nunca matei ninguém. Isso só pode ser loucura.


Os homens disseram que não adiantava negar. Eles já sabiam de tudo e seria melhor não resistir. João nem conseguiu trocar de roupa, os homens o pegaram pelo braço e o levaram até o carro. João seguiu todo o caminho mudo. Então os homens disseram que haviam chegado. João levantou a cabeça, olhou ao redor e levou um susto. Não podia ser, havia mais de uma hora que estavam no carro em movimento, mas estavam exatamente no mesmo lugar. Estavam parados em frente à sua casa.


Um dos homens abriu a porta de trás do automóvel e disse para ele descer. Em um súbito momento de alívio chegou a pensar que tudo não passou de um engano e por isso o trouxeram de volta. Com certeza foi o “drogado” filho da vizinha que matou alguém. Então perguntou, cheio de raiva, mas também de contentamento o que estava acontecendo.


-Como assim o que está acontecendo?


Chegamos ao local do crime, lá dentro está a vítima e a arma do crime. Falou um dos homens.


A sensação de um soco no estômago deixou João nauseado. Como assim local do crime?! Ele esteve fora de casa por mais de uma hora, tempo suficiente para armarem algo contra ele. Então o desespero o tomou, ignorando alguns vizinhos que se aglomeravam ao redor de sua casa ele começou a gritar que tudo aquilo era uma armação, que era inocente.


Os homens o seguraram e pediram que se acalmasse, um outro homem saiu de dentro da casa e caminhou em sua direção. Quando se aproximou fez algo que deixou João ainda mais atordoado, o homem o abraçou, e disse que tudo ficaria bem.


Neste momento João percebeu algo que até então não havia observado, os homens que o seguraram e o que lhe abraçou não estavam com uniforme da policia. O carro no qual rodou por mais de uma hora também não era um carro policial. Em nenhum momento os homens apresentaram distintivos, nem sequer estavam armados. Eles também não foram violentos, ao contrário, eram educados e cordiais. De repente João se perguntou por que os tinha acompanhado, talvez a acusação de homicídio tivesse comprometido seu julgamento. Então ele finalmente perguntou:


_Quem são vocês? Vocês são policiais ?


Os homens se encararam e depois encararam João por alguns segundos, então o homem que o abraçou disse:

-Ah desculpe, meus amigos mais uma vez se deixaram confundir com policiais, não somos da polícia, e sim agentes de defesa a humanidade.


Tudo revirou, a força de suas pernas se tornaram insuficiente para sustentar o corpo e João só não caiu, porque os homens ainda o seguravam. Após um breve momento João se recuperou e disse:


_ Como assim vocês são dos Direitos Humanos? Eles disseram que eu fui acusado de homicídio, que a vítima e a arma do crime estão na minha casa. Não estou entendendo, pensei que vocês só serviam pra defender bandido.


O olhar do homem que o abraçou era sereno, ele sorriu e disse:


-Não somos do Direitos Humanos, pertencemos a defesa a humanidade. E sim, um crime foi cometido na sua casa hoje. A vítima e a arma do crime estão lá dentro. Podem solta-lo, ele já pode me acompanhar.


Os homens o soltaram e João acompanhou o outro homem para dentro de sua casa, que estava muito escura. O homem que seguia na frente acendeu a lanterna do celular, olhou para João e disse:


-João meu amigo, se eu apagar essa luz você é capaz de enxergar alguma coisa?

João tentou acender o interruptor que estava próximo, mas foi inútil. Então respondeu:


-Não. Está tudo muito escuro aqui dentro, o que vocês fizeram com as minhas lâmpadas?


O homem respondeu:


-Elas estão queimadas. Então precisamos dessa luz da lanterna do celular, para ver a arma do crime e a vítima. Venha comigo, João.


João estava assustado mas o acompanhou, andaram pela cozinha e chegaram na sala, então o homem parou e pediu para João segurar algo de madeira e quadrado nas mãos. João não sabia o que era, até a luz pairar sobre ele. Então João se viu olhando para um espelho em suas mãos.

E o homem disse:


-João, sabe essa escuridão que se dissipa na luz? Ela é a arma do seu crime, essa escuridão é o ódio com o qual você julga seus iguais. É essa escuridão que esconde de você que o filho da vizinha que você chama de nóia, drogado, vagabundo e que você até mataria se tivesse uma arma, é um dependente químico, que seu vício trás sofrimento não apenas a ele mas também a toda sua família. E o mais importante, essa escuridão esconde de você que ele é um ser humano, que ele é igual a você.

João tentou se justificar mas o homem o interrompeu.


-Agora olhe no espelho, nele você verá a vítima do crime.


João olhou para o espelho e viu seu próprio reflexo. Parecia loucura, mas por um momento ele esperou ver o rosto do filho da vizinha. Então olhou para o homem esperando uma explicação.


-Você julga que os Direitos Humanos só serve para defender bandidos. Por isso esperava ver outro rosto no espelho e não o seu. É um julgamento muito errado, mas a escuridão faz isso com as pessoas. João, toda vez que você deixa essa escuridão dominar suas ações, agindo com ódio, discriminação ou preconceito, você está se privando de ver o outro como um igual, um humano, você mata sua humanidade. Você se torna vítima do seu próprio ódio. Amar o próximo, valorizar a vida de todos e se enxergar no outro é valorizar sua própria humanidade.


João sentiu que estava caindo e de repente tudo ficou claro. Com um susto percebeu que tudo fora um sonho. Mas as lágrimas no seu rosto e o calor no seu coração anunciavam que algo havia mudado. Se sentia um pouco mais humano.


A luta por igualdade e o desejo de revolução não são frutos do ódio e sim do amor, pois apenas quem é capaz de amar seu próximo se indigna com as injustiças e desigualdades.

O amor é um ato revolucionário!


Reinaldo Gomes é Estudante de História e editor da Clio Operária.


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