• Clio Operária

Eles são os donos de tudo

Rafael Lopes*


Ouvimos liberais cantando louvores a livre concorrência, aos mitos sobre um mercado livre, onde todas as empresas competem de forma justa entre si e a mais competente sai ganhando. Nós, os consumidores, também ganhamos, pois segundo as fábulas, essa concorrência entre os produtores abaixam os preços. Porém, nenhuma dessas histórias de um mundo perfeito onde os detentores dos meios de produção, aqueles que têm o poder para dominar todo o mundo capitalista e estariam dispostos a serem solidários com os trabalhadores, são reais. Nestas histórias, segundo os liberais, são eles os pilares do mundo moderno. Claro que na realidade não é isso que acontece.

Quando andamos no supermercado, vemos diversas marcas com desenhinhos e cores diferentes. Propositalmente isso nos dá uma falsa impressão de que há diversos produtores que competem justamente com diversas técnicas e meios de variar os seus produtos buscando atender uma maior parcela de consumidores. Isso em parte é verdade; eles realmente variam seus produtos, porém “eles” são poucos.

Uma matéria da Época (olha só) mostra que apenas 11 empresas são responsáveis por boa parte dos produtos que vemos nas prateleiras. Esses grandes produtores compram até as pequenas startups — que fascinam os iludidos liberais devido suas crenças meritocráticas oriundas da sua criatividade e dedicação. Essas poucas grandes empresas dão uma falsa impressão de competição pelo consumidor. Por exemplo, a Coca Cola detém marcas de refrigerante como a Sprite, Fanta, Kuat, além da própria Coca, a Bacardi, produtora de rum cubana que fugiu pra Miami após a revolução de 1959, e a produtora de sucos Del Valle. Logo, se você for comprar uma bebida pra uma festa infantil, comprará refrigerantes da Coca Cola, para uma festa entre jovens, o rum da Coca Cola, ou se por fim buscar algo mais saudável, o suco da Coca Cola. Mas e como fica aquela ideia inicial de concorrência?


Quando pensamos em concorrentes da Coca Cola, a Pepsi vem a nossa cabeça. O refrigerante Pepsi pertence a Pepsico, que também é dona de marcas como o salgadinho Doritos, Ruffles e Lays, do chá Lipton, da bebida gaseificada H2O e diversas outras marcas famosas no nosso dia a dia. Outra grande detentora da produção é a Unilever, essa que vai além do ramo de alimentos, atinge uma variedade quase incalculável de produtos de beleza, higiene, etc. No ramo de alimentos, a Unilever detém marcas como a Hellmann’s e Kibom.


Para além da cozinha


Para além do setor de alimentação, nos últimos dias tivemos a notícia de que duas grandes montadoras de automóveis se uniriam em uma só, o Grupo Fiat Chrysler (FCA) e o Grupo Peugeot Citroen (PSA). O grupo agora é o 4º maior grupo automotivo do mundo e no Brasil já é o líder de vendas com mais de 20,5% do mercado de automóveis.


A junção das duas empresas encheu os olhos dos liberais, que na sua concepção diminuirá o preço de manutenção entre os veículos do grupo. Porém, um maior domínio sobre o mercado de automóveis só aumentará os lucros da empresa, sem beneficio algum para o consumidor, pois, dominando uma maior parcela do mercado, o grupo terá um maior controle sobre o mercado de peças para manutenção. Logo, não há motivos para eles abaixarem os preços das peças para manutenção.


Esse ponto cai diretamente naquele paradigma liberal de livre concorrência. Os monopólios não competem, eles compram a concorrência. Com a junção da FCA e PSA, uma pequena parcela de empresários que detém as ações da empresa lucrará ainda mais em mercados como o do Brasil onde agora eles detêm 20,5% do mercado. Não há porquê abaixar os preços, pois não há nada que os force a isso.


Os concorrentes como a GM, que detém 17,88% do mercado, a VW (empresa essa criada pelo Terceiro Reich) com 15,51% e as demais montadoras, estão muito confortáveis em sua zona de lucro para pensarem em abaixar o preço da manutenção de seus veículos.


Só há uma saída


Mas qual será a saída para isso tudo? Uma só: uma grande zona de produção e montagem, 100% nacional e de propriedade do Estado, sem o intuito de gerar lucro, mas sim de atender as necessidades do povo.


Só com todo os meios de produção nas mãos do povo, é que conseguiremos saciar todas as nossas necessidades — do nosso prato de comida a nossa garagem. O controle dos trabalhadores da produção não só acabará com a fome que nos assola, como também acabará com todas as nossas necessidades de locomoção. Pense nos preços dos veículos aqui no Brasil e nos preços que são cobrados nos países dessas montadoras, pense no porquê disso tudo. Só há uma explicação, o estágio superior do capitalismo: o imperialismo.


Todos esses grupos como Coca Cola, Unilever, Fiat e afins, pertencem a poucos empresários que recebem apoio dos grandes Estados capitalistas para exercerem seu controle neocolonial sobre as economias do Terceiro Mundo. Vemos hoje no Brasil um desmonte da produção estatal, a venda dos nossos campos de petróleo para gigantes chinesas e americanas. Vemos a nossa terra sendo vendida, vemos a nossa carne indo para fora num preço ridículo e sendo comercializada para o povo a preços exorbitantes. E isso não é nada fora da curva no capitalismo, essa é a sua lógica. A finalidade da produção é para o lucro, não importa se o povo esteja na miséria, o que importa é exportar nossa produção para fora, juntar seu lucro e ver o povo passar fome. Essa é a logica dos grandes produtores. E essa é a lógica do atual Governo. Essa é a lógica do neoliberalismo. É a lógica que os liberais brasileiros aplaudem de cima de suas coberturas. Esses mesmos liberais que saúdam a ameaça fascista que vem crescendo no Brasil. Não devemos nos esquecer quem foi que deixou o nazifascismo ascender e quem foi que o colocou para dormir.


Enquanto os capitalistas, no início do século passado pouco faziam para evitar, como chegavam a apoiar os discursos malignos de pessoas como Hitler e Mussolini, esses mesmos capitalistas combatiam o socialismo que pregava a paz, o pão e a terra para todo trabalhador. Na lógica capitalista é aceitável tudo, até o genocídio de minorias étnicas — desde que não seja violado o direito à propriedade privada. Enquanto os capitalistas maximizavam seus lucros, diversos trabalhadores morriam de fome, na miséria, ou eram executados por qualquer divergência com a ordem dominante. Seja por sua cor, sua religião ou por seu alinhamento ideológico e político.


Hoje vemos voltar um fantasma que assolou a vida dos trabalhadores. Não podemos esquecer: o fascismo só faz mal aos trabalhadores. O fascismo é benéfico aos capitalistas, pois ele aliena e controla os trabalhadores, que são jogados contra preços exorbitantes de um pequeno grupo de grandes produtores. O capitalismo nos tirou até a escolha do que comer.


Para finalizar, nestes momentos, onde vemos grandes acordos entre os capitalistas, enquanto o povo continua a pagar caro por tudo que consome, não devemos nos deixar alienar. Devemos buscar a organização em partidos, sindicatos, coletivos, etc. Devemos não só nos defendermos dos golpes, como devemos bater de volta. Não iremos perder nossas esperanças em um mundo mais justo, construiremos o paraíso na terra. Lutaremos que nem fizeram no passado, que nem fazem no presente e que nem farão no futuro. Não devemos esquecer que nossa causa é mais nobre. Nós, os trabalhadores, produzimos tudo, logo, a nós tudo pertence.


*Rafael Lopes é historiador e educador popular na Rede Emancipa.


Referencias:


https://g1.globo.com/carros/noticia/2019/12/19/fusao-de-fiat-chrysler-e-peugeot-forma-o-maior-grupo-do-brasil-em-vendas-com-205percent-do-mercado.ghtml


https://epocanegocios.globo.com/Empresa/noticia/2018/06/marcas-que-sao-donas-de-quase-tudo-que-voce-compra-no-supermercado.html?fbclid=IwAR10ayszmDjuNIZ8jdvlf1BXlGDWUyHhEgUQA7-fyJK87SJnQlySWgrALFs


LENIN, V. I. — Imperialismo, estágio superior do capitalismo: ensaio popular / 1. ed. — São Paulo: Expressão Popular, 2012



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