• Reinaldo Gomes

Efeito Borboleta

Atualizado: 11 de Jun de 2020





Segundo a Teoria do Caos, mais popularmente conhecida como Efeito Borboleta, um simples bater de asas de uma borboleta no Brasil pode causar um furacão no Texas. Parafraseando essa teoria, podemos afirmar que há aproximadamente 100 anos, um grupo de morcegos bateu suas asas medonhas no calabouço do ressentimento causando um furacão de ódio que assolou a Itália e outros países por onde passou.


Os morcegos que ousadamente se lançaram sobre as minorias, destilando seu veneno de ódio e autoritarismo já foram abatidos, mas o espectro de sua ideologia genocida ainda causa redemoinhos, que no atual governo toma contornos mais definidos na eminência de um furacão.

Gostaria de dizer que o espectro do fascismo, inaugurado pelo ditador italiano Benito Mussolini há 98 anos, assombra a nossa sociedade. Mas o que me assombra é a naturalidade com a qual uma grande parcela da sociedade brasileira se deixa seduzir por uma ideologia que dissemina o ódio, a exclusão e a repressão dos movimentos sociais, sobre o pretexto de proteger o país da corrupção, cegando seus apoiadores diante das atrocidades e meios corruptos que utiliza para alcançar suas finalidades.


Voltando ao Efeito Borboleta, a Teoria do Caos estuda como um simples erro em um sistema complexo pode influenciar uma reação adversa comprometendo o próprio sistema ou os demais que estão interligados. O autor do livro Introdução ao Fascismo, Leandro Konder, alega que:


Para entender plenamente como funcionavam esses regimes (fascistas), temos que descer ao nível das pessoas comuns e examinar as escolhas corriqueiras feitas por eles em sua rotina diária. Fazer essas escolhas significa aceitar o que parecia ser um mal menor, ou desviar o olhar de alguns excessos, que a curto prazo, não pareciam tão nocivos, e que isoladamente, podiam ser vistos até mesmo como aceitáveis, mas que cumulativamente acabaram por somar em monstruosos resultados finais.


Desta forma, basta uma rápida busca nas redes sociais para observar como as ditas pessoas comuns assomam o som do bater de suas asas em curtidas de postagens, que isoladamente parecem inofensivas, disfarçando suas asas escuras do preconceito e do ódio com as cores mórbidas do que apelidam de “sinceridade". Em um clique, borboletas frustradas se juntam a morcegos disfarçados de mariposas.


O fascismo está além do posicionamento do líder, está presente nas escolhas corriqueiras e cotidianas da população que o torna aceitável e o justifica. A democracia é demonizada, acusada de favorecer uma esquerda socialista que avança sobre o chamado centrão que é entendido ineficaz. Asas escuras batem em favor de uma intervenção militar, sem saber que em “terra de morcegos, borboletas não têm vez".


Vidas negras importam. Vidas importam, independente de idade, gênero, cor de pele, profissão, classe social... toda vida importa e nada deveria ser colocado acima do valor de uma vida, nem economia, propriedade ou capital, porque o valor de uma vida é incalculável. O furacão de ódio avança com rastros de destruição. Mas alguns meteorologistas alegam que mudanças na temperatura podem diminuir ou até mesmo barrar um furacão. Toda vez que convencemos alguma asa escura de que vidas importam, estamos lançando sobre ela a luz da razão e o calor do amor ao próximo. Morcegos fascistas não podem voar de dia, onde a luz da razão e o calor do amor predominam.


Vidas importam.


Reinaldo Gomes é estudante de História e editor da Clio Operária.



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