• Giovanna Garcia Cobellis

Educação em luto!



Um ano desde que o primeiro caso de Covid-19 foi confirmado no Brasil, em 26 de fevereiro de 2020 na cidade de São Paulo. De lá pra cá, já vivemos dias de medo, sob a pressão de lidar com algo novo e mortal, dias de angústia, com o número crescente de casos e de vidas perdidas, dias de luto, com a perda de familiares, amigos, conhecidos e dias de esperança, com a espera da aprovação de vacinas vindas do mundo todo. Mas e hoje? Que dias estamos vivendo? Hoje ainda vivemos os dias de medo, angústia e luto. A doença continua mortal, casos e óbitos continuam subindo exponencialmente e semana após semana revivemos o luto da perda de alguém do nosso convívio. A esperança? Passou. Vacinas foram aprovadas, mas não existe uma mobilização efetiva do Governo Federal e do Ministério da Saúde para a vacinação dos mais de 210 milhões de habitantes deste país.

Além do óbvio, foram 366 dias de combate à veiculação de notícias falsas, de informatização científica sobre a doença e avanços na medicina, de adaptação segura a uma nova rotina, mas, principalmente, de combate a uma ideia comprada que, por incapacidade estrutural e curricular, coloca na reabertura das escolas, uma solução para o “desafogamento” familiar e parental que não entende o porquê da vida estar “voltando ao normal” e as escolas não. Fato é que em nada a vida está voltando ao normal! Entendo que não se aguenta mais falar em pandemia, mas também se faz crime fechar os olhos para os problemas que estão por vir com as novas resoluções para o avanço da pandemia que os governos estaduais estão tomando.

No último dia 25 foi registrado o maior número de mortes em um único dia desde o início da pandemia, foram 1.582 vidas perdidas que somam mais de 250 mil mortes no país. Falando especificamente do estado de São Paulo, a ocupação de leitos de hospitais públicos e privados nunca foi tão alta como agora, em ambos os casos, superando estatísticas de 90% e esse índice sendo ainda maior quando observadas as internações em leitos de UTI.

É neste cenário que se mantém a volta às aulas presenciais, sob pretexto de regras e esquemas de segurança para que se evite o contágio pela doença, em uma realidade onde tal retorno ainda não deveria ter acontecido. “A escola é um ambiente seguro”, sem dúvidas, é uma das frases que mais se ouve em defesa das decisões que a gestão do governo Dória toma em relação à educação, mas quem é/foi aluno ou trabalha/trabalhou na rede pública educacional sabe que a escola nunca foi um ambiente seguro.

Para início de conversa, em uma situação utópica que se evite a contaminação dentro do ambiente escolar com o uso de máscaras, maior oferta de materiais de limpeza e higiene pessoal, é preciso tem em mente que a maior parte de educandos, educadores e demais colaboradores da escola dependem do transporte público (sujo e superlotado) para se locomover, havendo a possibilidade de contágio dentro desse espaço. A situação real da educação pública paulista (falando como pessoa que estudou e lecionou nesses espaços), é que sempre houve a falta de itens básicos como sabão, papel higiênico e álcool para limpeza de carteiras. Pode haver um planejamento para maior distribuição de insumos para educandos e servidores, mas por quanto tempo serão supridos? E se acabarem?

Em uma realidade em que as escolas funcionam com salas de aula superlotadas, a ocupação reduzida por conta da pandemia mais parece operar dentro do ”normal”, seguro e saudável. O sistema rotativo de educandos que torna a educação híbrida (aulas presenciais e online) é um grande problema à parte, que caberia um texto exclusivamente para tratá-lo, mas de forma grosseira podemos dizer que a Base Nacional Comum Curricular que delimita o que, quando e como aprender é ineficiente, as diferenças sociais entre os educandos das escolas públicas do país são gigantes e se tornam abismais quando em comparação aos alunos das escolas particulares, tornando as disputas vestibulares cada vez mais brutais e incoerentes com a realidade.

O trabalho do educador sempre se deu em ambientes hostis, sejam pelos aspectos estruturais das escolas, currículo s de ensino, desvalorização do trabalho com salários muito abaixo das médias globais e carga horária muito superior à desejável para uma vida minimamente confortável e hostilidade do ambiente escolar em uma somatória de fatores políticos, sociais e culturais que fazem do Brasil o país número um no ranking global de agressão a educadores, segundo dados levantados em outubro de 2020.

Faz-se cada vez mais necessário entender que o educador é um trabalhador como todos os outros, assim desmistificando as histórias de amor em que o educador é o herói da escola e da comunidade. De fato ele pode até ser o herói para alguns ou ser completamente apaixonado pelo que escolheu para trabalhar, mas é um cidadão comum que em sua profissão lida cotidianamente com questões e situações que muitas vezes fogem à sua capacidade de auxílio.

Por fim, o desfecho deste texto é uma nota de pesar. Tudo o que aqui foi escrito teve a intenção de apresentar os problemas do retorno às aulas, tendo por fim o principal problema: a morte. Maria Tereza, 32 anos, professora da rede estadual de ensino de São Paulo, a primeira vítima da Covid-19 após o retorno das aulas presenciais obrigatórias. Quantos trabalhadores da educação (professores, diretores, secretários, bibliotecários, merendeiras, profissionais da limpeza etc.) irão morrer por conta dessas medidas estaduais e municipais? Quantas crianças e jovens perderão suas vidas? Segundo dados da APEOESP, desde 8 de fevereiro (data de reabertura das escolas estaduais), o estado de São Paulo já ultrapassa 1700 casos confirmados de Covid-19 entre pessoas que trabalham presencialmente nas escolas estaduais, em 816 escolas diferentes. Hoje, 03 de março, o governador do estado de São Paulo anuncia o início da fase vermelha em diversas cidades do estado (incluindo a capital) a partir de sábado (06/03). E as escolas? Continuarão abertas! Espero que governadores e prefeitos estejam preparados para assumir suas ações genocidas, pois é isso que está por vir e estaremos na luta para que a responsabilidade caia em seus ombros!



Giovanna Cobellis é Historiadora, pesquisadora sobre Violência do Estado, História das Mulheres e pós graduanda em História das Religiões pela Universidade Cidade de São Paulo.



Referências

https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2021/02/25/brasil-registra-o-maior-numero-de-mortes-por-covid-desde-o-inicio-da-pandemia.ghtml


https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/2021/01/28/justica-suspende-volta-as-aulas-em-sao-paulo


https://www.redebrasilatual.com.br/educacao/2021/02/morte-professora-covid-volta-as-aulas/


https://coronavirus.saude.gov.br/linha-do-tempo/#interna


http://www.apeoesp.org.br/publicacoes/educacao/casos-de-contaminacao-pelo-covid-19-na-rede-estadual-de-ensino/

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