Do paredão ao fogo no pavio: os ritmos da Revolução Brasileira



Imagem: Brasil de Fato.

A cultura popular é um dos meios mais expressivos pelo qual a classe trabalhadora dá o poder à palavra e essa por sua vez tem a tarefa de dar a forma estética para a expressão dos seus anseios materiais, as suas lutas e resistências e as perspectivas de construção de um mundo melhor. Como Marcuse[1] se refere, a arte tem o poder de expressar o inexpressável, é o reino de Eros, no qual o sofrimento da sociedade burguesa não existe ou, quando existe, a sua destruição é inerente.


O historiador brasileiro Roberto Camargos[2], fala do rap, enquanto forma legítima de expressão da cultura popular, como uma ferramenta de crítica ao capitalismo e as dinâmicas da democracia burguesa que existe, em última instância, para realizar a manutenção do sistema econômico, sendo uma das formas dessa manutenção a exclusão da classe trabalhadora dos espaços de decisão política.


Se o rap, assim que nasceu no Brasil nos anos 90, se pôs como uma ferramenta para a expressão dos anseios dos trabalhadores radicalmente contra o neoliberalismo, o sistema econômico e político, a precarização da vida, o racismo, a violência policial e a segregação social, nos dias atuais não é diferente. A música e o rap, particularmente, sempre emerge como uma possível forma de luta.


O rapper paulista de nome artístico Mc Primitivo, se faz um dos exemplos do rap engajado politicamente com discurso revolucionário. Militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), as suas letras apontam para o papel que Camargos levantou sobre os rappers serem “historiadores do tempo presente”, buscando fazer valer o que está nas margens das narrativas oficiais, como a mídia, os programas televisivos e posturas governamentais.


Um grande exemplo disso, é a música AK do Guevara, na qual Primitivo faz uso da narrativa da Revolução Cubana pela perspectiva do povo e dos guerrilheiros que estavam lutando contra a ditadura imperialista de Fulgêncio Batista que oprimia e explorava o povo cubano em nome do imperialismo estadunidense. A letra já começa de forma categórica:


AK do Guevara, muito barulhenta
Famosa em Havana por matar patrão
Fulgêncio Batista, capacho covarde
Burguês assassino vai pro paredão


Fica claro o teor radical que a letra reivindica em toda a legitimidade da Revolução Cubana e da violência revolucionária. Em toda a extensão da música, que é como uma narrativa da AK empunhada por Che Guevara durante a guerrilha revolucionária na guerra de liberdade de libertação nacional:


Era eu e mais 80 armas
Sedentas por justiça
Só com gatilho livre
Tudo a bordo do Granma

Hoje Fidel pediu calma
O futuro guarda um carma
Pra aquela que não trava
Nem submersa em lama

No decorrer da música, Mc Primitivo aponta para os resultados da revolução que fica explicitado nas partes que relata os camponeses e a sua participação na revolução e na reforma agrária, grande conquista do socialismo cubano. Lembrando que a música faz a narrativa de uma arma usada por Che Guevara, uma síntese das conquistas da revolução é feita:

Por fim conseguimos
Seja dita a verdade
Quando a classe se organiza
É fácil tomar cidades

O caminho a Havana foi longo
Conseguimos a paz
Mas já disse que a arma nasceu pra treta
Por isso fui com Che ao Congo
Hoje Cuba tem poucas iguais a mim
Mas tem muito papel e caneta

A música do militante comunista, pode ser acessada no seu canal do YouTube:




A defesa da violência revolucionária e da legitimidade do povo armado na luta pela paz e o socialismo, é o caldo no qual a letra é mergulhada. O poder da classe trabalhadora quando organizada toma todas as cidades possíveis e constrói um mundo novo. A universalização da saúde, moradia, alimentação, educação, cultura, saúde, participação política radical, o controle do povo da riqueza produzida, ou seja, uma sociedade realmente humanista e solidária é o legado de Che Guevara, Fidel Castro e todos os homens e mulheres que empunharam armas pela revolução e aqueles e aquelas que mantém a revolução de pé: o povo cubano.


A guerra de libertação nacional contra o imperialismo, em outras palavras, a violência revolucionária como parte da construção da paz socialista é um fator presente também na letra do Mc de Funk, Camarada Janderson. Também militante do PCB, através da União da Juventude Comunista (UJC) e morador da periferia de São Paulo, Janderson reivindica a importância do funk na luta para a organização da classe trabalhadora, sobretudo da sua juventude.


Uma das suas músicas mais famosas Fogo no Pavio, estourou durante as articulações da greve geral de 14 de junho de 2019, quando houve uma organização a nível nacional de uma greve geral da classe trabalhadora contra o avanço do neoliberalismo que, naquele momento junto ao fascismo brasileiro, impulsionou a Reforma da Previdência.


No início da música, Camarada Janderson já começa reivindicando poder política de mobilização da greve:


A cidade tá toda parada
Hoje é dia de Greve Geral
As estrada estão bloqueadas
Para não circular o capital

A burguesia não esperava
Que nois ia se mobilizar
Contratou até uns parasita
Para a greve desarticular

A letra no decorrer segue reivindicando a organização da classe trabalhadora pelo fim do capitalismo, falando com todas as palavras sobre a busca pelo Poder Popular como objetivo da luta dos trabalhadores. Além de deixar claro que a miséria e a exploração são produzidas pela própria existência do capitalismo, a música também reivindica a violência revolucionária:


Mas não vamo dar tiro no escuro
Temos que ter uma estratégia
De combate a exploração
Ao capitalismo e toda sua miséria

O povo não aguenta mais
E é pela paz que faremos a guerra
O povo não aguenta mais
E é pela paz que faremos a guerra


No trecho acima, assim como em Ak do Guevara, a guerra revolucionária é uma das condições para se alcançar a paz que virá somente com o fim do capitalismo. Esse pressuposto fica claro com o refrão, no qual as palavras de ordem bolcheviques "Paz, Terra e Pão" [3], dá espaço a “pão, trabalho, terra e fuzil":


Revolucionários do Brasil
Fogo no pavio
Vamo libertar nosso povão
Com pão, trabalho, terra
e fuzil
(...)
Revolucionários do Brasil
Fogo no pavio
No sentido da revolução

A música do Camarada Janderson pode ser acessada também no YouTube. No seu canal de nome Camarada Janderson no YouTube estão também outras faixas:



Se para Roberto Camargos [4], os rappers atuam como “historiadores do tempo presente”, Mc Primitivo e o funkeiro Camarada Janderson não são diferentes. Ambos trazem aspectos da realidade que, de alguma forma, estão ocultos ao senso comum e que os meios oficiais e de massa da mídia hegemônica escondem por estratégia e defesa da sociedade burguesa.


Apontando o processo de luta dos trabalhadores e a sua legitimidade na Revolução Cubana, além de deixar claro a paz alcançada com isso, Mc Primitivo contraria o que prega a mídia burguesa no Brasil de que o Estado socialista cubano é uma ditadura que impõe miséria ao seu povo. Cuba é um dos países com maior índice de bem estar em termos de acesso e participação política. Na verdade, o que a mídia burguesa aponta sobre o país caribenho, é muito mais próximo ao que é o Brasil capitalista.


Ao falar da Greve Geral como forma de organizar a luta contra o capitalismo, Camarada Janderson torna nuas as contradições na sociedade capitalista que a hegemonia burguesa busca esconder. O funkeiro deixa explícito os ataques que tentam fazer as greves dos trabalhadores para desarticula-las, ao mesmo tempo que chama a urgência da construção do Poder Popular.


No sentido gramsciano [5], ambos os artistas são intelectuais orgânicos da classe trabalhadora. Se um intelectual é um dirigente de classe que busca formular os caminhos possíveis em prol dos interesses de classe, Mc Primitivo e Camarada Janderson são intelectuais inestimáveis da classe trabalhadora, e a sua contribuição para a luta com agitação e propaganda, além da linguagem que chega direto na juventude deve ser reconhecida e impulsionada.


A arte é uma ferramenta de luta que faz parte dos processos revolucionários, o capitalismo fez com que a arte respire e inspire a luta. Para responder a pergunta de qual é a estética da revolução, deixemos a resposta ao som da arte dos dois camaradas.

Vinicius Souza é historiador, pós graduando em Direitos Humanos e Lutas Sociais pelo CAAF - UNIFESP, aluno especial do Mestrado em História da UNIFESP, militante do Coletivo Negro Minervino de Oliveira - SP e colunista da Clio Operária.

[1] MATOS, O. C. F. A Escola de Frankfurt: luzes e sombras do iluminismo. São Paulo: Moderna, 1993.


[2] OLIVEIRA, C. R. Rap e Política: percepções da vida social brasileira. Boitempo. 1º ed. São Paulo Boitempo, 2015.


[3] Hobsbawn, E. A Era dos Extremos: O Breve Século XX (1914-1991). São Paulo: Companhia das Letras, 2005.


[4] CAMARGOS, Roberto. “Se a história é nossa, deixa que nóis escreve”: os rappers como historiadores. Artcultura, 20(36). https://doi.org/10.14393/ArtC-V20n36-2018-1-06.


[5] GRAMSCI, A. Os intelectuais e a organização da cultura. 4º Ed. Tradução de Carlos Nelson Coutinho. Civilização Brasileira: Rio de Janeiro, 1982.


Acompanhe e fortaleça o trabalho dos camaradas (YouTube):


Mc Primitivo: https://www.youtube.com/channel/UC8caTxBnMC7hkBAPeWxItaA


Camarada Janderson: https://www.youtube.com/watch?v=QOuCj6ONlM0


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