Desvios metodológicos e a importância do contexto da produção



No ensino da História enquanto área de conhecimento das Ciências Humanas, existe uma mistificação nitidamente equivocada sobre o dever de se decorar datas e eventos em geral para discorrer e apreender os desdobramentos que tais marcos possibilitaram/resultaram. Digo que é uma mistificação equivocada pois é impossível apreender de maneira concreta apenas decorando datas, sendo que o ponto de relevância são os contextos que criaram possibilidades para esses acontecimentos. A evolutiva construção industrial da Inglaterra a partir do século XVII não é um processo isolado do contexto que o país e o continente europeu estavam inseridos naquele momento. Os resultados da Revolução Francesa no fim do século XVIII também não foram apenas a síntese da revolta burguesa que estava em ascensão.


Ao descrever um assunto que não se insere no contexto histórico-social da época, o conteúdo torna-se uma abstração não concreta, como se fosse parte de outro âmbito a não ser o terreno. Portanto, deve-se pensar em como esse ou aquele autor está inserido em determinado contexto.


Dito isso, existem compreensões distintas do que representa o imperialismo, sendo a melhor desenvolvida por Lênin, demonstrando a função do capital financeiro na fase posterior de expansão do capitalismo, através do colonialismo imperial. Frantz Fanon, teórico da revolução argelina, comparava, em proximidade ao líder bolchevique, o império colonial francês em terras africanas com o nazifascismo na Europa, que tinha como intenção a criação de colônias no seio do continente europeu. Logo, colonialismo e nazifascismo possuem uma relação teórica e prática. Mas, para expandir na fase descrita por Lênin, o capital precisa se apropriar de outras terras de maneira que possa exercer o domínio sobre o trabalho e a produção. Por isso, a relação entre colonialismo e o nazifascismo do Terceiro Reich é sempre relatada através da ideologia racista, com a divisão das raças entre superiores e inferiores. Hannah Arendt, a filósofa reacionária, sabia disso e o anotou nas primeiras partes de As Origens do Totalitarismo, sua obra mais célebre e que baseia grandes obras de divulgação no Marxismo Ocidental, a ponto de, como cita Losurdo, Arendt ser comparada à Rosa Luxemburgo!


Esse primeiro momento dessa obra parece refutar a segunda abordagem de Arendt que não parece, a princípio, estar perto de um totalitarismo mal desenvolvido e muito complicado de ser trabalhado. Inclusive, garante à Stalin, então líder da União Soviética, naquela primeira abordagem, a conquista de ter encontrado uma solução justa para a diversidade em âmbito nacional. A filósofa também dedica suas linhas, pelo menos nas primeiras partes desse escrito, ao ataque ao imperialismo inglês e seus tentáculos ao sul, nas Índias e na África. Isso se altera a partir da terceira parte.


Domenico Losurdo, em O Marxismo Ocidental: como nasceu, como morreu e como pode renascer propositalmente cita Hannah Arendt na parcela culpada pela “morte” do marxismo no Ocidente. Ele atribui a mudança da perspectiva da alemã a – como o título desse texto propõe – um desvio metodológico característico do contexto histórico em que foi produzido, resultante da dicotomia bélica entre Estados Unidos e União Soviética, à época da Guerra Fria.


A obra arendtiana é contraditória por si só, haja vista que, após tratar sobre o imperialismo e o antissemitismo, passa a analisar o que é o totalitarismo, segundo ela, equiparando a União Soviética com o projeto hitlerista na Alemanha Nazista. A configuração dos dois projetos de governo, um revolucionário e popular, e o outro sendo o que ela mesmo chama de “imperialismo racial", além de mentirosa e imprecisa, elabora uma defesa subentendida para os imperialistas, como a Inglaterra e a França, que continuavam seus processos de exploração das massas em suas colônias. E mesmo os mais críticos da obra não puderam fazer, primeiro, uma crítica que não recaísse sobre mais erros, e para além, não poderiam prever a desgraça causada por Arendt na produção do marxismo e da teoria crítica.


Arendt falha miseravelmente na tentativa de equivalência do socialismo soviético, no momento de Stalin, com o nacionalismo de Hitler. A ordem do Terceiro Reich era a morte sistemática dos povos oprimidos e a construção da withe supremacy, logo, trata-se de uma hipocrisia arendtiana, ou a influência sofrida pelo contexto da produção de sua obra a faz entrar numa contradição entre a primeira parte, dedicada à exposição do imperialismo e o antissemitismo, e a segunda parte, abraçando o totalitarismo. Nessa primeira parte a filósofa observa que antissemitismo está ligado intimamente ao anti-comunismo e que os judeus, na assimilação ariana, eram os representantes raciais dos bolcheviques, dos comunistas. Sendo assim, o genocídio judeu era inerente à luta contra o bolchevismo para Hitler.


A definição de totalitarismo é a loucura em forma de governo, ou seja, não há um método, um cálculo ou um objetivo nem definido, mas em contraponto, o Reich possuía um cálculo e um objetivo, esse último cunhado em princípios históricos nas invasões coloniais em terras dos povos oprimidos. Doutro lado, no lado soviético, há um projeto de sobreposição anticolonial, anti-imperialista e contrário ao nacionalismo ariano.


Há de se ter em vista que o contexto histórico possui relevância ímpar na produção, e que autores que, mesmo durante a pandemia, cederam a uma produção impensada, como Žižek e Agamben, como acontece com Arendt atualmente, serão cobrados e prestarão contas.


Rafael Torres é historiador, educador popular, militante da UJC (PCB), editor da Clio Operária, desenhista e escritor.


Referências bibliográficas


ARENDT, Hannah. As origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.


HARDT, Michael e NEGRI, Antonio. Império. Rio de Janeiro: Record, 2001.


LOSURDO, Domenico. O marxismo ocidental: como nasceu, como morreu e como pode renascer. 1 ed. São Paulo: Boitempo, 2018.

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