• Celia Regina da Silva

Criança, infância e luta de classes


Inicio esse texto com um convite para que apreciem essa imagem e identifiquem quais sentimentos e sensações ela evoca. Não é por acaso que “The girl with baloon” foi a obra de arte favorita no Reino Unido em 2017. Além disso, ao ser arrematada por mais de 1 milhão de libras, uma versão emoldurada da imagem se autodestruiu devido a um triturador, genialmente embutido em sua moldura pelo próprio autor (o artista britânico Banksy [1]), diante de olhares perplexos dos nobres participantes de um leilão em Londres em 2018.

Já que 24 de agosto foi o dia da infância, data criada pela UNICEF para estimular reflexões sobre as condições de vida das crianças em todo o mundo, vamos refletir a partir dessa singela imagem que produz sensações associadas à ideia de infância, desencadeando sentimentos denominados por Philiphe Ariès como “sentimento moderno de infância”. No volumoso livro sobre a história social da criança e da família, o autor analisa imagens de crianças presentes nas obras de arte através dos séculos, mostrando as nuances das relações que se mantinha com elas ao longo da história e deixa evidente que durante muito tempo a criança foi tratada como um adulto em miniatura.

Mas o que significava isso? Não havia na condição de ser criança nenhuma prerrogativa de especialidade, ou seja, a inserção das crianças na vida social se dava a partir do desenvolvimento de suas capacidades se engajar em toda e qualquer atividade desde que tivessem condições de realizá-la, sem nenhuma consideração ou restrição sobre a natureza e conteúdo da atividade. Em um longo percurso histórico que atravessa séculos, começa a se formar o sentimento de infância, a humanidade começa a entender a criança como ser frágil em condição especial de desenvolvimento e que necessita e depende da orientação e proteção de seres humanos mais desenvolvidos. Isso começa a gerar a ideia de cisão de modo que “temos hoje, assim como no fim do século XIX, uma tendência a separar o mundo das crianças do mundo dos adultos.” (Ariès, 1891, p.43).

Lamentavelmente, só temos um único mundo para viver e é um mundo em que as crianças têm sua infância roubada, como ilustra o documentário “a invenção da infância [2]”. Em pleno século XXI, as crianças continuam sendo tratadas como adultos em miniatura nos programas de auditório, nas vestimentas, nos costumes, nos semáforos, nas esquinas, na exploração da força de trabalho... E, não é de hoje que essa usurpação da infância se agrava quando se refere ás crianças da classe trabalhadora, como nos mostra Ponce (2005 citado por Silva, 2017) ao revelar inícios da luta de classes na história da educação escolar

Os filhos das classes superiores devem e podem começar bem cedo a se instruírem e como devem ir mais longe que os outros, estão obrigados a estudar mais... As crianças das grandes escolas (populares) devem, por outro lado, de acordo com a finalidade a que deve obedecer a sua instrução, dedicar pelo menos metade do seu tempo aos trabalhos manuais para que não se tornem inábeis em uma atividade que não é tão necessária, a não ser por motivos de saúde, às classes que trabalham mais com o cérebro do que com as mãos”. (BASEDOW apud PONCE, 2005, p. 139, grifo do autor).

Além das desigualdades de oportunidades educacionais entre filhos de famílias burguesas e filhos de trabalhadores, o isolamento social tem agravado outros tipos de violações de direitos, precarizando, ainda mais, as condições do “mundo” das crianças que vivem nas periferias das grandes cidades [3]. Inúmeras situações nos mostram o quanto as crianças da classe trabalhadora são tratadas como adultos em miniatura e não tem direito a nenhuma condição especial que proteja seu desenvolvimento. Basta observarmos algumas manchetes recentes para notarmos o anacronismo histórico da infância no Brasil.

O caso mais emblemático da atualidade que revela a forma abjeta com que as crianças pobres são tratadas nesse país é o caso da garota de 10 anos violentada pelo tio que, além de ter seus direitos reiteradas vezes violados, foi chamada de “assassina” por querer ter acesso a um procedimento de saúde legalmente garantido. Ao ser preso, o agressor afirmou para a polícia que “era consensual” pois ele “tinha um relacionamento com ela” [4], explicitando essa visão que não estabelece diferenciação entre crianças e adultos. Além disso, a hipocrisia do discurso de proteção à infância tornuma-se indisfarçável nas atitudes das pessoas que, afirmando agir em defesa de um bebê imaginário, não tiveram o menor pudor em violentar, ainda mais, uma criança real e sua família.

O abandono do menino Miguel [5] no elevador à própria sorte também não deixa dúvidas de que sua condição de incapaz foi menosprezada pela patroa de sua mãe que não pôde protegê-lo por estar passeando com os cachorros da casa, em plena pandemia. Deixar fechar a porta de um elevador sabendo que havia uma criança de 5 anos nele e voltar para o apartamento, definitivamente é uma atitude que desconsidera totalmente a vulnerabilidade da criança e revela uma opção deliberada de não lhe garantir a proteção que lhe era de direito, dada a sua condição de ser humano em desenvolvimento.

O desprezo da sociedade pela criança pobre e as diversas formas de violação de sua infância, também é escancarado no caso da ação da polícia militar no quilombo Campo grande/MG. tanto é assim que o primeiro ato adotado para dar andamento ao despejo das 450 famílias em plena pandemia foi um trator demolindo a escola Eduardo Galeano e a polícia militar assistindo ao corre-corre dos moradores para salvar livros e carteiras. Nessa situação, não teve sentimento de infância que demovesse os agentes do Estado de exercer sua função de proteger os interesses do capital, mesmo sob o choro desesperado das crianças que estavam ali [6].

Daria para continuar enumerando aqui as diversas situações que subsidiariam meu argumento de que continuamos tratando as crianças como adultos em miniatura. No entanto, na semana passada ocorreu um fato que explicita, de forma bizarra e lamentável, o lugar social da criança no Brasil. A cena em que o presidente está em meio a uma aglomeração de pessoas, ergue um homem adulto com nanismo e o coloca nos ombros por tê-lo confundido com uma criança [7], expressa, da forma mais literal possível, o tratamento medieval dado as crianças nesse país.

Essa cena consegue ser bizarra de muitas formas entre as quais quero destacar uma que está passando despercebida: a naturalização de práticas de objetificação das crianças e, mais especificamente, do corpo infantil. O caso repercutiu na mídia internacional em tom humorístico como “uma gafe” do Presidente, o que nos leva a concluir que se fosse uma criança a situação seria aceitável, afinal não seria a primeira vez que ele aparece em público forçando um contato físico com uma criança com a qual não possui nenhum vínculo[8].

O que há de grave nisso é que vemos um adulto que se permite tocar o corpo de crianças que nunca viu antes sem consentimento delas. Infelizmente, esse é um costume da nossa cultura que revela a forma como a criança não é tratada como sujeito e sim como objeto dos adultos. Nas campanhas eleitorais assistimos, passivamente, inúmeras cenas de contato físico forçado com crianças porque nos orientamos pela regra de que, se os adultos responsáveis por ela (donos da criança) consentiram, tudo bem! Só ficamos indignados quando o contato físico forçado pelo adulto tem cunho sexual. Penso que esse é um dos fatores que contribui para os altos índices de abuso sexual infantil no Brasil.

Tratar a criança como sujeito envolve considerar que o corpo dela é dela! Envolve considerar que a falta de autonomia para o autocuidado corporal não dá a permissão para que qualquer adulto toque seu corpo sem explicar, antecipadamente, o que pretende fazer, ainda que esta criança ainda não tenha dominado completamente a linguagem verbal.

Para concluir, voltemos à imagem de Banksy, escolhida por sintetizar a ideia central desse texto sobre a relação entre criança, infância e luta de classes. Tal como a garota da imagem, as crianças da classe trabalhadora visualizam a infância como um lindo balão que flutua diante de seus olhos e esforçam-se para alcançá-la, sempre a mantendo a esperança. Porém, enquanto a forma de organizar a vida humana estiver alicerçada na exploração de muitos em benefício de poucos, a infância para as crianças da classe trabalhadora não passará de uma abstração descrita nos documentos oficiais.


Textos citados:


ARIÈS, Philippe. História Social da criança e da família. Rio de Janeiro: LTC Editora, 1981.

PONCE, Aníbal. Escola e luta de classes. Tradução: José Camargo Pereira. 21. ed. São Paulo: Cortez, 2005. 198 p.


Links mencionados:

[1] https://pt.wikipedia.org/wiki/Girl_with_Balloon#cite_note-vice-8

[2] https://www.youtube.com/watch?v=c0L82N1C7AQ#action=share

[3] https://www.chegadetrabalhoinfantil.org.br/especiais/trabalho-infantil-sp/reportagens/como-a-quarentena-do-coronavirus-afeta-os-direitos-das-criancas-e-adolescentes/

[4] https://www.zerohoranews.com.br/noticia/5869/tio-de-menina-de-10-anos-diz-que-estupro-era-consensual-e-se-entregou-por-medo

[5] https://g1.globo.com/pe/pernambuco/noticia/2020/06/05/caso-miguel-como-foi-a-morte-do-menino-que-caiu-do-9o-andar-de-predio-no-recife.ghtml

[6] https://reporterbrasil.org.br/2020/08/em-meio-a-pandemia-sem-terra-sao-despejados-e-tem-escola-destruida-em-mg/

[7] https://www.noticiasaominuto.com.br/politica/1612145/bolsonaro-confunde-anao-com-crianca-e-pega-o-ao-colo

[8] https://revistaforum.com.br/politica/bolsonaro-segura-a-forca-menino-e-chama-de-petista-menino-que-nao-queria-tirar-foto-moleque-curado-kkkk/?fbclid=IwAR3r8sXZQyzywSL1Cm5zyxuc3scj0HMDD2Z1oIRIj8byFgUpNoRJTfzr6Hk


Por Célia Regina da Silva

Psicóloga, doutora em educação escolar e Professora da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG)

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