Contra o racismo: Fora Sérgio Camargo


A única essência que existe nos seres humanos se dá no fato de que nós somos essencialmente históricos. A história é determinação, ou seja, estamos condicionados ao desenrolar das ações humanas ao longo do tempo. Dificilmente, por exemplo, algo explicará melhor sobre a nossa vida em sociedade do que a nossa formação histórica; se faz importante destacar este ponto, pois é urgente combater perspectivas que tentam forçar o essencialismo em minorias sociais.


Falando especificamente da população negra, não existe essência possível do ser negro, uma vez que a categoria negro é tão abstrata quanto raça - negro é uma invenção de quem decidiu não o ser. O negro é uma invenção do branco para responder a necessidade do sistema mundo do capitalismo colonial de submeter povos inteiros a condição de objeto a ser explorado, e suas terras serem tomadas. Logo, negro é uma imposição, portanto, não pode existir em termos de essência um ser negro[1].


Dito isso, ser identificado como um negro pela sociedade brasileira, não torna ninguém uma autoridade moral, muito menos teórica, quando o assunto é racismo. O que uma pessoa negra fala sobre racismo, não deve ser dado como uma direção possível pelo fato de vir de uma pessoa negra. O que é diferente de protagonismo político dos oprimidos. O que uma pessoa negra fala sobre racismo, não deve ser dado como uma direção possível pelo fato de vir de uma pessoa negra.


Hoje, a Fundação Cultural Palmares (FCP), encontra-se aparelhada pelo fascismo bolsonarista. A extrema direita nomeou para o controle da importante instituição, Sergio Camargo, homem negro, jornalista e negacionista completo do racismo. Desde que iniciou seu trabalho como propagandista da extrema direita racista, ao assumir a presiência da FCP, Camargo tem atacado diretamente diversos avanços históricos conquistados pela luta dos movimentos negros ao longo da história do Brasil.


Dentre os ataques, ficou notável o esquema de descrédito público a figuras da mais alta importância para a população negra brasileira, como é o caso de Zumbi dos Palmares. No 13 de maio de 2020, em homenagem aos seus senhores racistas o militante de extrema direita fez com que a instituição publicasse uma série de artigos atacando figuras importantes que foram reivindicadas historicamente pelos movimentos negros.


Os ataques a Zumbi se deram nas reafirmações das falsificações da história que tentam inventar que Zumbi possuía escravos, que era assassino, que matava sem olhar a quem, ou até mesmo que ele não existiu. Desde a década de 1930 do século XX, a reivindicação de Zumbi como símbolo é uma das pautas mais caras das organizações negras[2]. Essa reivindicação faz parte da construção de uma memória coletiva que não relegue a população negra ao papel de escravo submisso.


Apesar de tudo isso, a instituição achou por certo atacar a memória de Zumbi e dedicar forças a romantização feitichizada da libertadora branca e benevolente, Princesa Isabel, pertencente a família real brasileira que teve papel importante na manutenção da escravidão, fazendo com que perdurasse como o foi no Brasil[3].

Mesmo indo na contramão dos avanços da historiografia, a instituição sustentou, não só essa, mas várias outras posturas anticientíficas na sua marcha contra os movimentos negros e na manutenção da opressão racial.


Buscando um papel legítimo para fazer esses ataques por ser negro – se apoiando também na forma vulgarizada que o debate sobre a noção de lugar de fala tomou no Brasil -, Sergio Camargo busca a passar a falsa ideia de que os movimentos negros não representam os anseios do povo negro brasileiro, mas que ele sim.


Em suas ações mais recentes, o tolken do fascismo tropical decidiu que desqualificaria figuras públicas importantes como a historiadora e política Marina Silva e a militante ecossocialista e deputada federal pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), Talíria Petrone, dentre outras figuras públicas. Acusando de serem negras por oportunidade com base na cor mais clara da pele dessas duas mulheres negras.


Com isso, Sérgio Camargos buscou reforçar a falsa noção criada pela hegemonia racista brasileira de que pessoas negras mais claras seriam algo como “pardos” e que, por isso, não seriam negras de verdade. É fato que além de uma questão de raça, temos uma questão de cor no Brasil. Pessoas negras claras e escuras compartilham experiências parecidas, mas também experienciam questões particulares que, porém, configuram formas diferentes de sofrimento e até mesmo de – também em termos de sofrimento – identidade. Mas são apenas formas diferentes de racismo. Não anula as identidades que são impostas a essas pessoas.[4]


Tanto a luta pela memória, quanto pela identificação racial são pautas históricas que só avançaram com muita resistência, organização e mobilização dos movimentos negros. Camargo, com a FCP, tenta destruir tudo isso e disputar a pauta racial ao lado da extrema direita. Derruba-lo deve ser uma tarefa central dos movimentos negros e das esquerdas em geral que se pretendem antirracistas, pois os meios para causar um estrago diante do entendimento da população brasileiro sobre o racismo ele já tem e segue colocando em marcha.


Vinicius Souza é historiador, pós graduando em Direitos Humanos e Lutas Sociais pelo CAAF - UNIFESP e colunista da Clio Operária.


[1] FANON, Frantz. Pele Negra, Máscaras Brancas. Salvador: EDUFBA, 2008.


[2] MOURA, Clóvis. Rebeliões da senzala: quilombos, insurreições, guerrilhas. 5. ed. São Paulo: Fundação Maurício Grabois co-edição com Anita Garibaldi, 2014.


[3] MOURA, Clóvis. Sociologia do negro brasileiro. Editora Ática: São Paulo, 1988.


[4] BICUDO, V. L. Atitudes raciais de pretos e mulatos em São Paulo. [Marcos Chor Maio org.]. São Paulo: Editora Sociologia e Política, 2010.




27 visualizações
apoie.png