Comuna de Paris: O protagonismo dos esquecidos


Arte: Rafa Torres



O que aprendemos na escola ao que se diz respeito a história da humanidade, das relações humanas e todo o contexto que nos trás até o presente, ao menos na primeira década do ano 2000, falando enquanto aluna do ensino público da cidade de São Paulo, nos mostra um passado cheio de grandes heróis com características comuns entre eles: Homens, brancos, ricos e europeus. A construção da nossa memória sempre foi a partir de uma história vista de cima, onde a população não tem rosto, não tem vida, escolhas próprias ou participação na consolidação do que conhecemos do mundo atualmente.

A participação da população, sendo os operários, os camponeses e toda a força produtora do trabalho foi fundamental em todos os processos de ruptura e transformação da sociedade, e aqui vou me ater a um certo período para falar sobre dois personagens históricos que sofreram tentativa de apagamento ou afastamento da história: a classe operária e a mulher.

Foi no ano de 1870, na França, que emergiu o levante popular em detrimento a guerra Franco-Prussiana. Quando Napoleão III arrastou o país para a guerra com o então poderoso exército da Prússia, obviamente não esperava que a França fosse derrotada. Sua derrota posteriormente incidiu na abdicação do império por Napoleão III e no início de um evento histórico marcado pela luta operária que mais tarde seria chamada de Comuna de Paris.

A Comuna de Paris nasceu em 1871 com a insurreição popular das massas operárias como resposta a invasão da Prússia e ao Governo de Defesa Nacional de Thiers, que ao tentar desarmar as massas em 18 de março de 1871, acabou provocando uma revolta sem precedentes. A população havia sido armada por conta do cerco em Paris e aproveitou a brecha para se rebelar contra o Estado burguês, que além de não atender a suas demandas, teve a burguesia aliada a Bismarck, chanceler prussiano, para permanecer no poder.

A Comuna se instaurou enquanto um governo de formação autêntica nunca visto antes na história, constituído pelo proletariado afim de reivindicar direitos e liberdades que eram negligenciados a essa população. Entretanto, os communards encontraram problemas em governar para sua classe com as estruturas do Estado de Napoleão III e para que fossem atendidas as demandas da classe operária, foi necessária a destruição do Estado burguês e suas instituições, para efetivar e estabelecer o Estado proletário.

A atuação feminina foi fundamental para o todo o processo de constituição da Comuna de Paris, mas sua participação não ocorreu meramente como uma coincidência, em meados do século XVIII surgiu um novo ator social a partir da expansão do modo de trabalho por peça, executado majoritariamente pelas mulheres em suas casas: a mulher trabalhadora. Entretanto, a indústria têxtil se desenvolveu rapidamente e logo as mulheres saíram de suas casas e passaram a ocupar as fábricas. Isso fez com que a mulher fizesse parte da classe operária como um agente ativo, passando pelas mesmas opressões e reivindicando a liberdade do povo como um todo.

Sua participação não se deu apenas e tampouco a partir de 1870, muito pelo contrário, aproximadamente cem anos antes as mulheres já estavam fazendo frente ante os processos precedentes a Revolução Francesa de 1789, enquanto as mulheres da burguesia desempenhavam um papel de reivindicações politicas e direitos civis, as mulheres nos bairros pobres atuavam nas manifestações contra a fome. Inclusive, a Revolução Francesa que contou com a participação de todos os setores contra o absolutismo, emergiu e foi encabeçada pelas mulheres nos bairros pobres de Paris. Não parou por aí, nos anos posteriores as mulheres enrijeceram e fortificaram sua militância e isso fez com que sua participação na Comuna de Paris fosse essencial.

Foram as mulheres as primeiras a alertarem e se prostrarem para proteger o armamento das tropas enviadas em 18 de março por Thiers para desarmar Paris, após a assembleia aprovar a paz humilhante e se juntar a Prússia, com muita coragem defenderam o armamento e chamaram o proletariado e a Guarda Nacional para proteger a cidade. As mulheres desempenhavam o papel, assim como em toda a história, para além da luta armada, de fazer os uniformes, tratar os feridos, costurar os sacos para a construção de barricadas e foi na Comuna que mais de 3 mil mulheres começaram a trabalhar em fábricas de munições e armas, além de formar o batalhão feminino da Guarda Nacional, que contava com a participação de 120 communardas que lutaram bravamente nas barricadas durante a semana de resistência da Comuna.

Segundo Jaqueline Andrade, as classes burguesas quando se veem ameaçadas pelo espectro do socialismo, são capazes de ultrapassar todos os limites nacionais para criar uma corrente de apoio entre eles. Por esse motivo, entendemos que eles se colocam em lugares que os convém para o momento, como por exemplo na Revolução Francesa, onde eles estiveram ao lado dos camponeses e da classe operária pois o objetivo era destituir o absolutismo, que já não os beneficiava tanto. Em 1870 eles se colocaram ao oposto da comunidade operária quando se deu início a semana sangrenta, foi a burguesia aliada ao inimigo prussiano que libertou os presos de guerra para que se somassem ao exército francês e prussiano, os burgueses que se mudaram para Versalhes com medo do governo proletário, atuaram como informantes do invasor prussiano afim de acabar com a Comuna.

Durante a semana de resistência, mulheres e homens lutaram bravamente, mas acabaram derrotados pelo exército franco-burguês. De acordo com Andrea D’Atri, não houve tantas mortes na guerra Franco-Prussiana, quanto em uma semana de resistência comunal em Paris. Grandes nomes femininos ficaram marcados após a Comuna, como o de Louise Michel, Beatriz Excoffon, Sophie Poirier e Anna Jaclard, além de outras que tiveram uma presença política e de enfrentamento muito forte e faziam parte do Clube da Revolução.

Tivemos uma participação feminina poderosa, mas apesar disso, não podemos simplesmente esquecer o fato de que elas estavam inseridas em um contexto patriarcal, no qual foram julgadas desde o momento em que saíram de suas casas e tomaram as fabricas, com as teorias proudhonianas. Felizmente sua participação revolucionou o movimento operário na França, que anteriormente era fomentado pelo pensamento de antifeminista de Proudhon, dando espaço para que as mulheres tivessem o seu protagonismo e se tornassem mais ativas politicamente. Estudar o processo de formação da Comuna, sua causa e consequência, é fundamental para entender a sociedade e suas experiencias revolucionárias.

E eu vos deixo com uma frase da honorável Louise Michel: “Cuidado com as mulheres quando se sentem enojadas de tudo o que as rodeia e se levantam contra o velho mundo. Nesse dia nascerá o novo mundo” (Andrea D’Atri Apud. Louise Michel, 1973).







Gabi Santana é estudante de história da Universidade Cidade de São Paulo (UNICID) e colunista na Clio Operária.





Referências:



ANDRADE, Jaqueline. As mulheres na Comuna de Paris: de coadjuvantes a protagonistas. V Simpósio Internacional Lutas Sociais na América Latina, 2013. Disponível em: < http://www.uel.br/grupo-pesquisa/gepal/v3_jaqueline_GVII.pdf>. Acesso em: 30/07/2020


D’ATRI, Andrea. Comuna de Paris: mulheres parindo um mundo novo. Lutas Sociais, n. 25-26, p. 276-286, jun. 2011. Disponível em: <https://revistas.pucsp.br/ls/article/view/18607/13802>. Acesso em: 28/07/2020

VALLE, Camila. As mulheres e a comuna de paris de 1871. Seminário Internacional Fazendo Gênero 11 & 13º Mundo de Mulheres, Florianópolis, 2017. Disponível em: < http://www.en.wwc2017.eventos.dype.com.br/resources/anais/1499307175_ARQUIVO_TextoCompleto-ASMULHERESEACOMUNADEPARISDE1871.pdf>. Acesso em: 29/07/2020


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