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Como nasce e morre o fascismo | Coluna Pagu

William Poiato*



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Bem vindo à Coluna Pagu, coluna quinzenal do Clube Pagu para a revista Clio Operária. A ideia desta coluna é comentar e auxiliar na leitura do livro do mês do Clube e ainda por cima debater um pouco sobre o Marxismo leninismo.


O segundo livro de Abril é o Como nasce e morre o fascismo, com a edição da Autonomia literária. Esta leitura que decidiu os caminhos da Internacional Comunista, também conhecida como Terceira Internacional ou Comintern, vem em boa hora. Onde no mundo o fascismo ressurge com uma face renovada, nós temos de debater a nível global como derrotá-lo.


Antes de mais nada, temos de apresentar Clara Zetkin (1857–1933). Personalidade do movimento operário alemão e internacional, uma das fundadoras do Partido Comunista da Alemanha, nasceu em 5 de julho de 1857, na cidade de Wienerau, na província da Saxônia. Líder do movimento internacional das mulheres e da internacional comunista, teve destacada atuação no “Socorro Vermelho Internacional” (SVI) que durou de 1922 até 1938 e visava desde combater arbitrariedades internas dos fascistas, a internacionalmente ajudar refugiados políticos pelo globo, resgatar presos políticos e denunciar a barbárie fascista, entre outras ações.


O livro, muito bem editorado, conta com uma introdução histórica do momento onde ele é redigido, uma reunião da internacional comunista, que diante da novidade fascista buscava se posicionar para seu combate, já antevendo sua ascensão militar e política na Europa. O discurso de Clara Zetkin para aprovação de sua linha, que seria a base da resolução adotada pela Comintern, apresenta as raízes históricas do fascismo, os erros da social-democracia e dos comunistas, e a perspectiva de luta que deve ser tomada. Nas resoluções tomadas a partir deste encontro, que demonstram abertamente a linha de autodefesa e de Frente Única e que marcará todo período político, existe também um informe da Clara detalhando o fascismo em Itália e Alemanha e por fim uma análise histórica deste momento e as consequências das linhas adotadas.


Entre as linhas debatidas, Zetkin tenta traçar a motivação histórica da origem do fascismo, sendo em primeira instância a grave crise econômica que assolava a Europa, especialmente os países derrotados, na crise pós-guerra. A ampla crise econômica gera um fenômeno que é a proletarização de amplas camadas médias e falência de parte da pequena burguesia e a necessidade de ampliação da exploração do proletariado, além disso grande camada da população decai para o exército industrial de reserva. Uma segunda questão é a traição da social-democracia: pouco antes da guerra os reformistas se renderam ao apoio à guerra, rebaixaram as bandeiras revolucionárias e se aliaram aos governos locais. Um exemplo marcante é o das ocupações de fábricas na Itália em 1920, derrotadas diante da direção vacilante do Partido Socialista que se recusou a avançar da pauta econômica à pauta política, o que trouxe uma retumbante derrota ao movimento e desmoralizou o proletariado organizado e o ideário revolucionário como forma de transformação. O terceiro elemento era o erro de avaliação dos próprios comunistas, que em uma primeira leitura principista, encarando que o Estado burguês era o mesmo, com liberais ou fascistas, focou apenas na análise da questão militar trazida pelo fascismo dedicando esforços de propaganda em um sentido equivocado a ponto de não se preparar para o pior que estava por vir.



Neste contexto o fascismo passa a se desenvolver em torno de uma faceta contraditória, cooptando parte do proletariado diante de suas pautas pseudorrevolucionárias, que prometiam a transformação pela ordem, aliando uma ideologia republicana e de unidade da nação com uma visão de crescimento econômico pautada na coisa privada. Logo, esta ideologia começaria a transformar-se diante dos problemas internos do fascismo, uma de suas bases de sustentação eram os “camisas azuis” ligados à elite agrária do campo, possuíam uma ideologia abertamente monarquista e conservadora do ponto de vista da cultura. Esta contradição se escancara nas milícias fascistas, infiltradas pelos monarquistas já como guarda nacional. Outro ponto, o fascismo era uma organização repressiva burguesa, prometeu muito à burguesia industrial e agrária (enquanto acelera o processo de fusão destas com o capital financeiro), ao mesmo tempo, com todo um corpo de sindicatos fascistas organizados pelo Estado (uma organização que lembra as leis varguistas que ordenam os sindicatos brasileiros até hoje), o proletariado passa a agitar-se diante do arrocho salarial que chegou a bater em algumas categorias em 60% e a ideologia nacionalista passa a contrapor-se à tratativa privatizante sobre a coisa pública (ferrovias, telefonia, etc, privatizadas no início do governo fascista). Todas essas contradições já mostravam a fissura interna do fascismo italiano e mostrava que o fascismo enquanto fenômeno histórico tem uma característica transitória.


Sendo o fascismo transitório restava uma questão: deixariam os trabalhadores que, em sua queda, o fascismo cumprisse todas as suas tarefas (inclusive sua autodissolução) ou seriam os próprios trabalhadores os autores de sua derrubada? Desta pergunta Clara e a Internacional Comunista desenvolvem um poderosa linha política já citada, a autodefesa (armada se necessária) e a Frente Única!


Esta leitura é providencial diante do nosso cenário político! A ascensão de Bolsonaro ao poder e seu esfacelamento a olhos vistos nos deixa a mesma pergunta: a queda deste governo, por suas contradições internas, será depois que ele realizar tudo a que veio (reforma trabalhista, previdenciária, tributária, partidária, etc) ou será obra dos trabalhadores?


*William Poiato é Professor de Geografia, coordenador do Cursinho Popular Lima Barreto — Favela Vila Prudente & co-organizador do Clube Pagu.




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