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Como Esmagar o Fascismo| Coluna Pagu

William Poiato*


Bem vindo à Coluna Pagu, coluna quinzenal do Clube Pagu para a revista Clio Operária. A ideia desta coluna é comentar e auxiliar na leitura do livro do mês do Clube e ainda por cima debater um pouco sobre o Marxismo leninismo.


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O segundo livro de Abril é o Como Esmagar o Fascismo, com a edição da Autonomia literária. É um fortíssimo compilado de textos de Leon Trotsky no olho do furacão, analisando a besta fascista em seu desenvolvimento e se posicionando acerca do movimento comunista internacional.


Antes de mais nada, temos de apresentar Leon Trotsky; adorado por uns, odiado por outros, é a típica figura histórica que se deve conhecer quando se fala do movimento comunista, e claro, pelos dois pólos, lida — e por nós que queremos aprender, apreendida de forma crítica. O pensamento “trotskista” influencia algumas centenas de agrupamentos comunistas pelo mundo e pelo menos três dezenas no Brasil, organizadas em no mínimo quinze grupos internacionais.


Leon Trotsky (1879–1940) foi, rascunhando brevemente, um revolucionário comunista russo, um dos principais articuladores da Revolução de Outubro de 1917. Foi Comissário da Guerra do primeiro governo soviético e o organizador do Exército Vermelho. Militante socialista desde 1895, entra no Partido Social Democrata Russo por volta de 1902, participando do congresso seguinte inclusive junto da ala mais moderada, que se tornaram os Mencheviques, mas logo iria se alinhar a Lenin e entre prisões e luta política se afirmar como uma liderança do partido e militar da revolução. Vinda a revolução foi comissariado das Relações Exteriores e depois Comissário da Guerra. Após a morte de Lenin, se torna um opositor ferrenho de Stalin, e a oposição teórica do Socialismo de um só país e a Revolução Permanente (defendida por Trotsky) ganham vida [debate intenso até hoje]. Em 1927 Trotsky é demitido do ministério da Guerra, posteriormente retirado do Comitê Central do Partido sob acusações de não seguir a política soviética e é expulso onde passa por diversos países até se instalar definitivamente no México, onde vive até ser assassinado em 1940. Neste meio tempo articula um grupo internacional conhecido como “Quarta Internacional” fundada em 1938.



O livro começa com uma análise de Henrique Carneiro sobre as raízes do Neofascismo no séc. XXI já nos demonstrando a atualidade do debate empregado por Trotsky nos textos que iriam vir. Em seguida temos um texto curto mas revelador, com título: O que é o Fascismo?, originalmente uma carta. Depois temos oito textos expondo a análise de Trotsky, cada um deles era uma análise de conjuntura seguida de uma observação sobre a posição da Comintern ou da URSS, Itália e especialmente Alemanha [a quem ele dedica estes textos]. A primeira uma análise de conjuntura de 1930 seguida de uma crítica às mudanças de rumo tomadas pela ação internacional, o giro político a internacional comunista; outra análise de conjuntura de 1931 seguida de uma análise sobre Hitler e o partido alemão; depois uma análise de 1932, esta mais militar, onde Trotsky afirma apontar os caminhos para retomada do movimento, dada a derrota da social-democracia na Alemanha; por fim, a conjuntura de 1933 diante da escalada do nazismo ao poder e uma reflexão do que seria este fenômeno.


Antes de avançar sobre o pensamento do autor, coisa que faremos brevemente para não atropelar a leitura do próprio livro, devemos dar uma dica de uma chave interpretativa importante na obra do revolucionário internacionalista: A crise de direção. A noção de Crise da direção irá permear o pensamento das correntes trotskistas pelo globo, ela é ao mesmo tempo um conceito e uma visão de conjuntura. O pressuposto é que o movimento comunista carece de direções a sua altura, que possuam uma verdadeira política revolucionária (sendo ela democrática ou não), sendo assim, cabe a um(a) movimento-ação externo(a)s a correção da rota da luta socialista, não necessariamente lutando por hegemonia por dentro dos aparelhos (dependendo do momento tático). Somente a crítica impiedosa, somada a ação política oposicionista e um balanço científico dos caminhos tomados seriam capazes de refundar o movimento para a trilha correta. Na obra de Trotsky isso irá se materializar na noção de Stalinismo, que é um conceito de dual: Como a crise é de direção, cabe analisar a liderança máxima deste movimento em sua minúcia, resgatar aspectos inclusive de sua psique, história de vida, posicionamentos políticos, tudo para comprovar o quanto a sua direção era danosa ao movimento; porém quando seus “métodos de direção” — já que Trotsky não atribui a Stalin nenhum tipo de corrente de pensamento — se tornam hegemônicos, este conceito também serviria para descrever uma forma de direção partidária e nacional, é a fusão da instituição com o indivíduo, a burocracia. Uma questão crucial, que parece ter marcado o movimento trotskista pelo mundo, é a extensão da noção de crise de direção para dentro do próprio movimento, após a morte de sua principal liderança; criando diversas correntes como o Lambertismo, Mandelismo, Neomandelismo, Posadismo, Morenismo, etc.


Vale, para dar aquele gostinho sobre o leitura, pensar um pouco a posição do autor sobre o momento histórico. Para ele, foi a recusa da Frente Única pelo pelo Partido Comunista alemão, o KPD, com a Social Democracia que propiciou o avanço do fascismo. O autor aponta algumas coisas comuns ao movimento nazi-fascista como a perseguição à organização dos trabalhadores, a organização paramilitar mesmo antes de se alçar ao poder, e para ele (e este é um ponto importante) é um movimento encabeçado e sustentado pela pequena-burguesia, em sua decadência pós-guerra. Estes elementos gerais de análise darão a Trotsky um longo fôlego sustentado nas mais de 200 páginas autorais que seguem a obra.


Esta leitura é providencial diante do nosso cenário político! Cabe a nós também, assim como as lideranças revolucionárias do século XX, revirar as entranhas da extrema direita para construir a sua derrota. Temos de nos preparar para o combate!


*William Poiato é Professor de Geografia, coordenador do Cursinho Popular Lima Barreto — Favela Vila Prudente & co-organizador do Clube Pagu.



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