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Coluna Pagu: Até tu…

William Poiato*


Bem vindo à Coluna Pagu, este é o setorial de opinião da Revista Clio Operária e nós comentaremos rapidamente a data de hoje: 15/03 [2019].


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15/03 [2019] é uma das datas atribuídas à morte de Júlio César nas mãos de Brutus e outros senadores; também é o dia que, em 2015, 3 milhões de pessoas manifestaram-se contra o governo Dilma; em 1939 a tchecoslováquia deixa de existir na mão dos nazistas; e nesta data, em 2011 começa a guerra cívil na Síria; e em 2020, Brasil, temos uma manifestação desconvocada pela camarilha do presidente da república contra o congresso nacional, defendendo sua extinção — ou que libere algo de 30 bilhões de verba pública ao executivo.


O que assusta não deveria ser o ato em si, nem as milhões de pessoas que mantém seu apoio a Bolsonaro ou a sua audácia- de fazer em menos de um ano de governo aquilo que a esquerda cobrava do PT por quase uma década e meia, enfrentar o poder da direita liberal no congresso e STF-, mas a velocidade como a dialética têm se demonstrado. Aquilo que Bolsonaro-Mourão e sua trupe aprofundaram nas últimas semanas, ao substituir ministros e figuras internas por militares gabaritados — especialmente da missão haiti- pode ser lido como o aprofundamento da Hegemonia da Força[1].



Esta posição mostra um duplo movimento contraditório, por um lado o executivo mostra suas garras, ameaça fechar o regime e tenta convencer as pessoas que seu poder autárquico,torna a repressão e a diminuição do espaço democrático,se propondo à um consenso coercitivo. Ao mesmo tempo, a “demonstração de força” é uma “demonstração de fraqueza”, os mais de 30 capitães e generais[2] são o nova boia do governo, que afunda em velocidade recorde;nem mesmo com Dilma os ratos da direita saltaram do bote tão rápido[3], o isolamento e desconcerto já parecem à olho nú. E como o movimento da dialética é implacável, em breve seremos empurramos para outro momento qualitativamente, ou teremos a superação (seja pela instauração do polo mais belicoso; seja o desmoronamento geral do Governo) ou ambos os pólos entrarão mutuamente em decadência carregando a República consigo, em um fim amargo da paralisia típica do último ano. Estamos em um sítio eventual [4] marcado pela abertura de possibilidades.


Seja como for, Bolsonaro-Mourão e seus aliados são fruto de seu tempo, onde a extrema direita comprou o modus-operandi a esquerda de outros tempos ,com a pequena vantagem de controlarem parte do poder do Estado (o executivo) e no caso brasileiro, influencia em amplos setores do braço armado do Estado — eles buscam o duplo poder [5]. Eles não querem jogar conforme as regras, querem derrubar o Estado, toma-lo para si. Seu combustível é a crise econômica e social, e o movimento do capital em defesa de sua manutenção vai aos poucos convencendo-se do apoio destas frações mais belicosas em um trabalho para aprofundar a extração de mais-valia (de valor do trabalho)[6], ao mesmo tempo um momento preventivo e curativo.


Diante do cenário, aparentemente nos cabe duas posições:

Nos colocarmos em uma situação de inversão de papéis e nos tornamos nós mesmos os defensores do Estado tal qual ele é, defendendo toda a jogatina dos poderes estabelecidos, em nome de uma liberdade democrática abstrata.


Endossando a queda do Estado atual, disputando a futura forma, tentando ultrapassar o movimento da direita — atualmente no poder.

O leninismo sempre nos leva à andar no fio da navalha, superando o reformismo e o esquerdismo, a defesa da democracia é um polo importante, nossa possibilidade de expressão (como por exemplo este texto), de propaganda e ação se tornariam muito mais limitadas com o fechamento do regime, ao passo que também devemos construir nossa própria dualidade de poderes. Neste ponto devemos pegar um caminho sem atalhos, apostar em barrar a escalada golpista pela mobilização de massas, e fazer o salto da mobilização para reorganização da classe — uma aposta pela base.


Por fim, chegou o momento de parar de ficar estupefatos e a cada golpe contra democracia, gritarmos:


“Até tu Brutus?”


*William Poiato é Professor de Geografia, coordenador do Cursinho Popular Lima Barreto — Favela Vila Prudente & co-organizador do Clube Pagu,



Conheça o Clube Pagu: www.clubepagu.com.br


Referências


[1] https://bit.ly/2T4n1ED


[2] https://bit.ly/2TlvxhB


[3] https://bit.ly/3cgdvGj


[4] https://bit.ly/2w8fqvU


[5] https://bit.ly/2vd4lK3


[6] https://bit.ly/2PuiI3u

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