• Clio Operária

Coluna Pagu: A aula de O 18 de brumário de Luís Bonaparte

William Poiato*


Bem vindo à Coluna Pagu, coluna quinzenal do Clube Pagu para a revista Clio operária. A ideia desta coluna é comentar e auxiliar na leitura do livro do mês do Clube e ainda por cima debater um pouco sobre o Marxismo leninismo.

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O livro de Março é o 18 de Brumário de Luís Bonaparte, com a edição da Boitempo. Este clássico de Karl Marx de 1852 no calor dos acontecimentos analisa profundamente o processo que leva a revolução de 1848 na França a se transformar no Golpe de Estado de 1851 na França.


Gostamos de nos referenciar à este livro como uma grande aula, mas não da forma vulgar como se tem feito, onde transforma a célebre fórmula resgatada de Hegel por Marx em um mantra e que se aplicaria sempre a todo lugar de forma idealista, e não material e concreta, como Marx tentou expor:


“Em alguma passagem de suas obras, Hegel comenta que todos os grandes fatos e todos os grandes personagens da história mundial são encenados, por assim dizer, duas vezes . Ele se esqueceu de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa. ”

A vulgarização de Marx neste livreto de poder descomunal de síntese também se manifesta ao demonstrar que parte de suas análises poderiam ter sido feitas na história recente brasileira. Ou seja, o golpe de 2016 como um grande 18 de Brumário tupiniquim. A questão de fundo é: por mais que se modernize o Estado, ele é em última instância um Estado burguês e suas movimentações palacianas e golpes articulados guardam íntima semelhança entre si. Ou seja, o 18 de Brumário não é o “Que Fazer” dos golpistas burgueses.


Não seria por uma análise de uma história do idealismo em repetição, nem mesmo pela “atualidade” do texto que o 18 de Brumário o torna uma aula. Este texto é uma aula por ser um grandíssimo exemplo de como se fazer uma verdadeira, profunda e acertada análise de conjuntura e leitura histórica. Em outras palavras, é o suprassumo do materialismo histórico dialético, uma demonstração de seu poder de análise, feita diretamente por Marx!



Analisemos o trecho abaixo:


“Sob os Bourbons haviam governado a grande propriedade fundiária com os seus padrecos e lacaios, sob os Orleans as altas finanças, a grande indústria, o grande comércio, isto é, o capital com o seu séquito de advogados, professores e grandíloquos. O reinado legítimo foi apenas a expressão política do domínio tradicional dos senhores de terra, assim como a Monarquia de Julho havia sido apenas a expressão política do domínio usurpado dos “parveneus” (novos ricos) burgueses. Portanto, o que mantinha essas frações separadas não foram os seus assim chamados princípios, mas as suas condições materiais de existência, dois tipos diferentes de propriedade, foi a antiga contraposição de cidade e campo, a rivalidade entre capital e propriedade fundiária[…]Toda a classe se cria e molda a partir do seu fundamento material e a partir das relações sociais correspondentes.[…]”


Neste pequeno trecho temos elementos teóricos importantíssimos, o primeiro deles é demonstrar a luta de classes, fazendo aquilo que muitos esquecem: decantar da realidade social as classes e as frações dela individualmente, ou seja, não apenas identificar as classes fundamentais (burgueses e proletários) mas investigar também as suas divisões internas; o segundo elemento foi que Marx percebeu a sua movimentação de classe interna na sociedade e pôde assim compreender as expressões políticas e partidárias de cada arranjo, inclusive entre as classes dominantes — combatendo assim outro erro comum, que é tratar a classe dominante como bloco único; terceiro, teve foco em suas definições não na renda monetária, ou nos bens de consumo, mas focou na propriedade para compreender a materialidade do processo; e por último, percebeu tendências e processos típicos das classes sociais e os expôs, transformando esta análise particular em uma ferramenta analítica universal!


Recomendamos a leitura desta obra para afiar nosso poder de análise e absorvermos essa verdadeira aula de Marx.


*William Poiato é Professor de Geografia, coordenador do Cursinho Popular Lima Barreto Favela Vila Prudente & co-organizador do Clube Pagu.


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