Coligay: Luta pela diversidade


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Sabemos que uma parte dos esportes tem um estereotipo dominado pelo gênero masculino e dentro desses esportes, o futebol é o mais praticado no mundo, e, é evidente a predominância de homens nessa modalidade esportiva. Um território cheio de preconceitos, que não há espaço para a diversidade.

O futebol é um esporte de origem burguesa, onde no princípio apenas homens brancos de famílias ricas podiam praticar, e especificamente no Brasil, a discrepância da classe social entre quem podia praticar esse esporte era maior. Hoje é inimaginável vislumbrar o esporte mais praticado e que mais ascendeu o Brasil para o exterior sendo apenas um esporte exclusivo de homens brancos pertencentes à elite.

Hoje em dia vemos tal esporte "democratizado" e acessível para todas as classes sociais, porém o preconceito continua enraizado. O racismo, machismo e a homofobia estão presentes no futebol em pleno século XXI.

Podemos analisar as criações de torcidas organizadas no mundo do futebol, onde grupos de pessoas seguem uma ideologia e se juntam para formar uma torcida organizada. Dentro dessas torcidas a grande maioria tem uma rejeição enorme contra os grupos LGBTQI+, havendo perseguição a todos que se identificam parte desse grupo. A homofobia é escancarada no mundo futebolístico.

Esse triste contexto é um retrato atual do mundo contemporâneo. Presenciamos nos noticiários a perseguição aos homossexuais, mas pouco é divulgado das lutas desses grupos LGBTQI+ que promoveram ao decorrer da história, principalmente nessa camada esportiva tão machista que exala homofobia.

A Coligay foi uma torcida organizada LGBTQI+ do clube Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense. A torcida se tem origem durante a Ditadura Militar no Brasil, em 1977, e foram seis anos de atividade. Houve muito engajamento politico contra os preconceitos presentes naquela época e enfrentamento perante o momento que o país vivenciava.

“Gaúcho de Passo Fundo, Volmar era dono de uma boate em Porto Alegre, a Coliseu. Ela motivou o nome da torcida e servia como ponto de encontro para seus integrantes, antes e depois dos jogos. Além do espanto, o circuito da bola reagiu com repulsa ao movimento liderado por Volmar. Dirigentes, jogadores e membros de outras torcidas organizadas do Grêmio rechaçaram a Coligay, que, inicialmente, tinha cerca de 60 integrantes. Ciente dos riscos de declarar a homossexualidade, sobretudo em um terreno machista como o futebol, ainda no contexto da ditadura, o mentor da torcida bancava aulas de caratê para que seus seguidores pudessem se defender de eventuais ataques homofóbicos de rivais e das próprias facções gremistas”.

A representatividade da Coligay inspirou aquele grupo reprimido pela sociedade preconceituosa, a se rebelar e ter voz ativa e dar apoio aos grupos perseguidos. A criação dessa torcida organizada é uma afronta ao conservadorismo que sustentam ideias retroativas, como a “família tradicional”. Volmar, líder da Coligay, diz que jamais teve medo de mostrar seu rosto e pelo o que lutava. Ele acreditou no movimento, e o movimento acreditou nele. Isso fez a Coligay entrar pra história da luta LGBTQI+, que se rebelou no campo esportivo do futebol, onde não havia até aquele momento nenhuma representatividade, principalmente pelo contexto da ditadura militar.

“Além das aulas de arte marcial, Volmar também financiava caravanas para os torcedores conhecidos como “coliboys” acompanharem as partidas pelo interior do Rio Grande do Sul. Vestindo túnicas, calças bem justa ou apetrechos espalhafatosos, os seguidores da Coligay chegavam fazendo barulho e atraíam olhares encabulados enquanto tomavam as arquibancadas”.

“Como praxe do regime militar, Porto Alegre contava com uma Delegacia de Costumes, que monitorava as ações da Coligay através do setor de “meretrício e vadiagem”. Porém, a torcida nunca teve um membro preso por manifestar publicamente sua orientação sexual. A onda de repressão à homossexualidade, que incluía batidas policiais em locais frequentados por pessoas LGBT e detinha quem “atentasse contra a moral e os costumes vigentes”, como revelado pela Comissão Nacional da Verdade”.

A coragem de Volmar e seus membros inspiraram gerações futuras a perceberem que podiam adentrar e lutar por equidade, e construir uma nova narrativa, onde os LGBTQI+ tinham voz e pertencimento a qualquer modalidade esportiva na sociedade. Hoje em dia essa luta continua ativa, há inúmeras torcidas organizadas ligadas ao LGBTQI+, que apoiam e lutam contra a homofobia, racismo e misoginia.

“A Coligay inspirou outras associações entre torcedores homossexuais, como a Flagay, do Flamengo, que foi criada em 1979 pelo carnavalesco Clóvis Bornay. Em 2013, grupos encabeçados pela Galo Queer, do Atlético Mineiro, tentaram articular movimentos semelhantes nas redes sociais. Entretanto, por medo de ameaças de torcedores organizados, nenhum deles marcou presença nos estádios como a Coligay. “É preciso mostrar o rosto para vencer o preconceito que ainda existe no futebol”, diz Volmar. “Mas, nos dias de hoje, parece ser ainda mais difícil que naquela época. A Coligay fez história”.

Lutemos para que os LGBTQI+ sejam vistos com naturalidade em qualquer âmbito de quaisquer sociedades!

Robson é historiador e membro da Revista Clio Operária.

Referências:

https://brasil.elpais.com/brasil/2017/04/07/deportes/1491595554_546896.html

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