• williamspoiato

Coletivos ou movimentos? Questões do Movimento Comunista

Atualizado: Jul 21




Existe uma polêmica ainda pouco desenvolvida no seio dos comunistas e revolucionários do Brasil. Para além do “para que organizar?”: o “como organizar?”. Um problema eminentemente tático.


Buscaremos fazer um laço de continuidade entre este texto e o “O problema da revolução” revisitando as correntes gerais ali citadas. Vale antes de entrar no posicionamento geral de cada corrente frisar as duas formas preponderantes que os partidos vem tentando organizar as massas em suas mais diversas expressões: O Coletivo e o Movimento. O Coletivo partidário é aquele onde o partido e os aproximados convivem em um espaço coletivo e organizado, ligado diretamente ao partido. Estes coletivos desenvolvem atividades próprias visando atingir as massas em seus mais variados aspectos, porém têm o caráter de visar influir na totalidade do movimento (ou frente de massas) já estabelecido. Por exemplo: um coletivo negro socialista visa sobretudo se inserir no corpo do movimento negro avançando a sua concepção geral de luta. Resulta, num todo, em uma espécie de circunscrição ao partido e seus apoiadores, ajudando-o a acumular forças, atuando em geral na luta ideológica, auxiliando na formação de quadros. O Movimento político, que em geral é aquele dirigido pelo partido mas que abarca as massas diretamente, organizadas em torno dos seus mais variados problemas e aspectos visando atacar diretamente este problema. Em geral os movimentos são "auto suficientes" ou seja, não visam levar a unidade (quando existente e necessária) para este ou aquele caminho necessariamente - ao menos este não é seu objetivo central. Resulta em geral em uma ação que salta diretamente à luta econômica ligando os quadros partidários à massa. O que busca cada corrente diante deste bifurcamento?


Sendo absolutamente sintético, dentro das avaliações da crise comunista, aqueles que acreditam em uma Crise Objetiva ou seja em uma crise da ideia comunista, portanto advoga pela impossibilidade atual do socialismo (seja por ter “caducado”, seja por ainda “não ter maturado”) defendem duas grandes estratégias: a Estratégia Democrático Popular e a Revolução Democrático Nacional. Estas “revoluções sem revolução” teriam por ator político o cidadão, ou seja, pessoa votante, que participa da vida política econômica da nação e que deve ser organizado para duas tarefas:


  1. Votar corretamente -Luta política

  2. Garantir a efetivação de direitos (jurídicos-estatais) já conquistados ou por conquistar - Luta econômica.


Para a primeira tarefa não há nenhuma grande questão popular, basta o partido ter o aparato burocrático grande e com efetividade tal a ponto de saber jogar nas eleições do Estado Burguês e sair vencedor. Agora a segunda tarefa exige uma ligação entre a cúpula partidária e as massas, guiando-as na luta política-jurídica. Sendo justos, eles buscam uma unidade dialética entre a luta econômica (o direito) e a luta política (o voto) transformando estas lutas em potentes máquinas eleitorais. Por estas características, estas estratégias optam desde os anos 80 na forma movimento, e pela sua hegemonia foi capaz de unificar movimentos locais em sínteses superiores de movimentos nacionais (como por exemplo, a Central dos Movimentos Populares -CMP) Vale pensar que a miríade de movimentos garantem até hoje parte significativa da hegemonia destes setores - fazendo portanto parte da luta ideológica.

Críticas comuns: A forma movimento é despolitizadora, não avança a perspectiva do povo para pautas mais gerais e é usada muitas vezes com certo oportunismo e clientelismo pela corrente para se legitimar diante do povo. Resposta: O movimento é um momento de participação política. Ajuda o povo a se ajudar e orienta o seu olhar político para as eleições e disputas na sociedade.


***


Outros avaliam nossa crise como uma Crise Interna, uma crise teórica, onde a infiltração de ideias equivocadas (revisionistas) condena os comunistas. Acreditam que a correta avaliação brasileira é de sua incompletude capitalista e majoritária presença campesina no campo. Busca assim o cercamento do campo sobre a cidade ou a revolução Agrária. Defende que o capitalismo ainda não “se completou” no campo brasileiro, sendo este o local de maior opressão e exploração e o cerne da economia nacional, caberia, portanto, organizar o campesinato (em grupos armados ou não) pela retomada da terra e destes desestabilizar o e derrubar o poder nas cidades.

A revolução (que toma forma de guerra prolongada) tem por sujeito prioritariamente o camponês, ou seja, trabalhador rural com pequeno pedaço de terra ou expropriado desta. Organizá-los exigem duas tarefas: 1. Unificar os camponeses espalhados em território nacional- Luta Política

2. Mobilizá-los primeiramente pela tomada da terra - Luta Econômica

Apesar da importância dada por esta corrente à luta política e à luta ideológica contra, especialmente, os revisionistas. No trabalho de massas optam abertamente pela forma movimento. Não há motivo para um prévio acúmulo de forças ou para ingressar seus aproximados em movimentos tomados pelo revisionismo, fundar a sua própria forma de luta e preparar a guerra prolongada desde já seria uma tarefa imediata, não sem motivo a organização de um amplo, unificado e combativo (no sentido militar) movimento agrário é necessário.


Críticas comuns: este movimento agrário e violento deslegitima o corpo da esquerda e por este motivo se vê isolado, sem contar com a necessária solidariedade que outros movimentos que fazem ocupação de latifúndios recebem. Resposta: Não é o movimento que se isola dos oportunistas, mas a própria natureza da revolução que deles prescinde, desta forma aquilo que querem transformar em crítica , na verdade é um apontamento positivo, sinal que nos encaminhamos para a ação correta.


***


Os adeptos da concepção de uma Crise Subjetiva, onde a crise do movimento comunista internacional nada mais é que uma grande, duradoura e tortuosa crise de direção acreditam que a revolução está sendo atrasada por grupos dirigentes de partidos autoritários (stalinistas) e estapistas (reformistas). Chamam uma Rebelião Popular, ou seja, a classe trabalhadora pode, sem lideranças e sua vanguarda, explodir contra os poderes instituídos devido a sua situação de exploração, em grandes rebeliões. Com o trabalho correto eles saltariam como nova liderança, demarcando um salto de consciência de todo o povo rebelado.


Esta tarefa tem por figura política o povo rebelado, ou seja o conjunto de trabalhadores, camadas médias e povo pobre que foi às ruas (ou apelou para greve) devido à sua situação de profunda exploração. Organizá-los exigem duas tarefas:


  1. Superar as direções autoritárias e etapistas nas mais variadas frentes - Luta política

  2. Ser suficiente conhecido entre as massas para tornar-se referência em seu seio- luta Ideológica


Curiosamente, é no seio das reivindicações do dia-a-dia que o movimento derradeiro deve surgir. Não sem motivo, os adeptos desta concepção se acoplam a cada nova luta econômica, sempre que massificada. Há uma divergência no seio desta corrente, uma parte dela busca superar as direções na disputa política dentro dos aparelhos existentes, e para tal funda coletivos que atuam na entidade geral buscando superá-lo. Outros apontam que o próprio aparelho (Por exemplo a União Nacional dos Estudantes - UNE) é fruto da política autoritária e etapista e fundam movimentos novos em busca de superar a burocratização reinante. Um novo movimento verdadeiramente democrático seria necessário, em paralelo ao existente.

Críticas comuns: Ao buscar apenas se consolidar como lideranças em movimentos já estabelecidos caem em das posições que enfraquecem o corpo da esquerda e a organização popular:


1) em aparelhos “disputáveis” seus coletivos usam quase a totalidade de suas energias por desmoralizar os dirigentes e não poupam o próprio aparelho se necessário, plantando dúvidas no seio da classe.


2) na impossibilidade de disputa seus movimentos partem para a quebra de unidade, gerando aparelhos paralelos enfraquecendo as diversas categorias e o conjunto da classe nesta indecisão de ação.

Resposta: Só nos atacam aqueles que não querem ver sua direção oportunista e imobilista ruir, ou seja, parte dos burocratas. Basta botar a classe em movimento que as críticas cessarão e darão lugar à incentivos para que os companheiros avancem. Quanto à infeliz necessidade histórica de superar até mesmo os aparelhos burocratizados que perderam o seu sentido, é uma decisão difícil, mas que faz as lutas gerais avançarem ao revelarem para os trabalhadores suas verdadeiras lideranças revolucionárias.


***


Há ainda aqueles que advogam uma Crise de Organização. Eles defendem que a crise comunista passa por um grave problema de organização da luta, a reconstrução do partido revolucionário é tarefa primordial e caminha em conjunto com a reorganização da classe trabalhadora que se encontra hoje atomizada e enfraquecida. Defendem a estratégia do Poder Popular, que a grosso modo, pensa que os trabalhadores devem constituir um duplo poder, paralelo ao do Estado e da burguesia - em diversos germes territoriais pelo país de democracia direta e auto educação da classe. Parte do princípio que a economia brasileira está madura para o socialismo e com uma população altamente urbanizada e um campo com relações plenamente capitalistas.


Esta tarefa tem por sujeito o Trabalhador Assalariado, ou seja, o conjunto de trabalhadores reorganizando seus instrumentos de luta e seu partido a ponto de rivalizar diretamente com o poder burguês. Organizá-los exigem duas tarefas:

  1. (Re)organizar o partido revolucionário nas bases corretas - Luta Ideológica

  2. (Re) organizar e educar a classe trabalhadora e seus aparelhos - Luta Política


O caminho para conquistar estas tarefas passa por se fazer presente e protagonista das mais diversas lutas em todo o território, fazendo o esforço de aquecer a luta econômica (organizá-la) e quando estiver em movimento, busca que ela salte para luta política. Há novamente uma divergência presente.


Uma fração vê como necessidade imediata o fortalecimento do próprio partido, isso seria condição para buscar a reorganização da classe, desta forma opta por coletivos partidários, que atuam dentro do movimento geral, ao mesmo tempo que buscam se ligar às massas, delegando ao coletivo à busca dessa dupla tarefa. Aqueles que se forjam no coletivo são elevados ao partido. Este trabalho de crescente exponencial fortaleceria a autoridade comunista a ponto desta futuramente retomar e/ou (re)fundar novos aparelhos. É curiosa a semelhança com os adeptos da crise subjetiva neste aspecto, apesar de uma diferença crucial, um busca retomar o aparelho per si, outro busca retomar e refundar o aparelho, pois este faz parte do problema. Por exemplo, tomar os sindicatos, mas torná-los por ramo de produção.


Outros grupos pensam que o fortalecimento partidário se dá ao mesmo tempo que a luta econômica da classe, buscando saltar de luta cotidiana para batalha política aberta e colhendo de seu seio os melhores quadros no processo, fortalecendo, portanto, a luta ideológica. Para isso organizam eles próprios novos movimentos de caráter abertamente comunista, mas que atuem nos problemas cotidianos do povo explorado. Ganhar força já é organizar, organizar Já é ganhar força.


Críticas comuns aos coletivos: Os coletivos, mesmo diante de uma dupla tarefa, tenderão ao imobilismo ou à atitudes de mera disputa no corpo dos movimentos já estabelecidos, serão espaços de cooptação de “já convertidos”, mantendo a sua ação dentro do campo da esquerda em geral, não levando nem a esquerda nem o movimento revolucionário à avançar. Por outro lado, ao organizar negros comunistas, LGBT comunistas, mulheres comunistas, etc em coletivos, cria-se, em primeira medida um rebaixamento ideológico, afinal, os comunistas, perdem a referência de estar em um partido como tarefa máxima, perdem a dimensão que devem ter o partido como polo de organização, caem portanto na opção de um atalho menos penoso, que é o coletivo.


Resposta: O partido de quadros deve ser morada dos melhores lutadores sociais do país e espaço de avanço teórico e práticos destes, não é um equívoco buscá-los onde a luta já existe e apresenta-los o marxismo-leninismo, fortalecendo assim a própria luta e o partido. O coletivo portanto funciona como uma peneira entre os simpatizantes para torná-los comunistas, formá-los e recrutá-los.

Críticas comuns aos movimentos: os movimentos, ligados ao Partido Comunista, tendem a enganar os trabalhadores envolvidos ao não serem diretamente e explicitamente do partido. Funcionam como uma espécie de categorização dos militantes, sendo a direção partidária a única que tem consciência geral dos motivos de sua prática e o militante de base do movimento mera peça nas mãos dos dirigentes, ou seja, militantes que não têm direito a plena consciência de sua ação. Resposta: o movimento é uma dupla arma, tanto de ação concreta na luta de classes, realizando, organizando e ampliando as lutas entre as massas; como uma arma de consciência, cada etapa da consciência militante passará pelo movimento, evoluindo até a entrada no partido comunista. Os comunistas não serão assim pequeno burgueses apaixonados pela ideia de revolução, mas trabalhadores oriundos das lutas concretas de classe e que necessitam da revolução. Ou seja, a forma movimento respeita as etapas de consciência da classe trabalhadora e dos indivíduos e as faz elevar. Além disso, ligando os comunistas diretamente às massas eliminam traços perigosos que podem se desenvolver como o imobilismo [falta concreta de ação], isolacionismo [ação longe da classe, isolado, desligado desta] ou mesmo comodismo [ aceitação-adaptação à atual situação partidária e da sociedade] entre os camaradas.



***


O difícil pêndulo e a história como juiz


É difícil pensar em uma resposta para a pergunta disparadora sem entrar em profundas e improdutivas discussões - de cunho quase de seita em alguns casos - sobre a natureza do Brasil e sua revolução. Basto-me com algumas indagações aos comunistas em nosso país:


Como será nossa revolução?

Como estamos na conjuntura?

Estaremos nós em tempos de acúmulo de forças ou de ação direta das massas?

Nesta quadra histórica, realmente há uma contradição entre fortalecer-se e estar nas massas?

Nossos aparelhos (coletivos e movimentos) cumprem seu papel? Qual este papel?

O que nos falta para um salto de qualidade nas lutas empreendidas?

Responder estas perguntas podem nos dar maior clareza na torturante pergunta do “Que fazer” que invariavelmente retorna em cada reunião dos partidos comunistas.

73 visualizações
apoie.png