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Coletivo Ápice Periférico: Projeto Skate Poético – Queremos nossa pista! Já Passou da hora!


Imagem contém jovens utilizando uma pista de skate em improvisada em uma quadra.
Coletivo Ápice Periférico. Foto por Thiago Silva

Alerta! Alerta! Alerta de Skatista!

Skate Poético, exigimos nossa pista!¹


O bairro Jardim Romano, localizado no extremo Leste da periferia de São Paulo, possui inúmeros problemas sociais, dentre os quais: a falta de espaços e equipamentos específicos de lazer e incentivo ao esporte e à cultura. O bairro possui uma quantidade considerável de skatistas que, em função da falta de um espaço específico, utilizam as ruas da região e frente da E. E. Professor José Bonifácio Andrada e Silva Jardim como local para a prática do esporte. As escolas da região não possuem estímulo e subsídios do Governo do Estado e, em razão disso, não conseguem realizar trabalhos e projetos relevantes de inclusão social para com a comunidade e com esse grupo de skatistas que cresce a cada dia, além de não haver um interesse em recebê-los.


Atualmente o skate tem sido um dos esportes que mais cresce no país. Segundo última pesquisa realizada pelo Instituto Data Folha, 2016, encomendada pela Confederação Brasileira de Skate - CBSK, o número de praticantes de skate contabiliza cerca de 8,5 milhões no país, sendo que destes 81% são homens e 19% mulheres. Estes dados nos mostram um crescimento de mais de 100% do número de skatistas no Brasil desde 2009, quando o número de praticantes era de 3,9 milhões. Hoje, com quase nove milhões de praticantes, o mesmo está entre um dos “esportes” mais praticados no país. Tendo em vista o crescimento constante do número de praticantes desta modalidade, acreditamos que o skate seja uma ótima ferramenta de identificação juvenil e inclusão na cultura corporal de movimento.


Em função disso, nós do Coletivo Ápice Periférico e Projeto Skate Poético (PROSKAP) nos organizamos e realizamos um abaixo-assinado em favor de uma pista de skate na região. Mas essa luta por um espaço para a prática do skate é antiga, para entendermos melhor, vamos contextualizá-la de maneira detalhada.


Nas eleições de 2004 a prefeita de São Paulo Marta Suplicy (PT), prometeu, caso fosse reeleita, a construção do Centro Educacional Unificado (CEU) Três Pontes, fato que não se consolidou naquele momento, em função da vitória do candidato de oposição José Serra (PSDB).


Com o término do mandato da prefeita Marta Suplicy, [...]. Na gestão seguinte, do prefeito José Serra (PSDB, 2005 - 2006) e em seguida de Gilberto Kassab (DEM, 2006 - 2008), a Secretária de Esportes pretendeu dar continuidade às políticas públicas voltadas ao skate, visto que esse esporte, segundo pesquisas, é um dos mais praticados entre crianças e jovens da cidade de São Paulo. (MACHADO, 2014, p. 47).


Assim, somente em dezembro de 2006, mesmo ano em que Serra renunciou do cargo e se candidatou ao Governo de São Paulo, fato que o levou a vitória em primeiro turno, seu vice, Gilberto Kassab (DEM), assumiu a prefeitura, dando início às obras do CEU Três Pontes, quando a “Secretaria de Infra-estrutura Urbana e Obras (SIURB), por intermédio do Departamento de Edificações (EDIF), iniciou as obras de construção com custo de R$ 28,4 milhões.”[2] Foi com o pronunciamento dessa obra que as esperanças de muitos skatistas do bairro foram renovadas, uma vez que:


Somente na gestão da prefeita Marta Suplicy (2000 - 2004), por exemplo, foram construídas mais de 60 pistas públicas de skate dentro do projeto de revitalização de praças ‘centros de bairro’ e nos Centros Educacionais Unificados, conhecidos como CEUs. (BRANDÃO, 2014, p. 190).


Naquela época, o Jardim Romano já possuía muitos skatistas e todos andavam nas ruas esburacadas do bairro, montando seus próprios obstáculos ou tendo que se deslocar cerca de 4Km para a pista mais próxima, localizada no CEU Curuçá, se arriscando nas avenidas e ruas movimentadas.


Não obstante, esperávamos ansiosamente sermos contemplados com uma pista de skate, visto que todos os CEUs da gestão Marta Suplicy (PT) continham uma em seu projeto, como por exemplo nos CEUs Alvarenga, Casa Blanca, Cidade Dutra, Inácio Monteiro, Jambeiro, Navegantes, Parque Veredas, Pêra Marmelo, Perus, Rosa da China, São Mateus, São Rafael, Três Lagos, Vila Atlântica, Vila Curuçá, entre outros.


A maioria dessas pistas está localizada nos CEUs (Centros Educacionais Unificados), [...]. Com essa benfeitoria, os skatistas não precisariam mais se deslocar por longas distâncias para acessar as poucas pistas públicas, nem pagar para praticar em um espaço privado. (MACHADO, 2014, p. 45-46).


No dia 31 de agosto de 2008, ainda sob a administração de Kassab, veio a notícia da inauguração do CEU Três Pontes, possuindo 11.205 m² de área construída em um terreno de 21.000 m², contando com um Teatro (“Chico Anysio”) com 184 lugares e 2 camarins; biblioteca; telecentro; 3 piscinas; 1 quadra coberta (ginásio); 1 quadra aberta; 1 sala de dança; 1 sala de ginástica etc. Entretanto, para a decepção de muitos skatistas, nenhuma pista de skate havia sido construída. Nesse momento de frustração, levando em consideração a esperança de ter uma pista de skate no local e tendo como exemplo os outros CEUs que possuíam tal projeto em sua planta, surge um questionamento: por que no CEU Três Pontes não há um local específico para a prática do skate? Na época não tínhamos de prontidão essa resposta, mas hoje sabemos que a administração Kassab modificou o projeto dos CEUs, além disso o “então prefeito Jose Serra, [...] havia anunciado em 2005 uma versão mais barata do CEU”.³


A partir dessa conjuntura, alguns skatistas do bairro começam a se organizar para reivindicar um espaço onde pudessem praticar essa atividade. No início, reivindicávamos a construção de uma pista, mas visto a dificuldade de alguns gestores em se expor ao levarem tal reinvindicação adiante, ou seja, aos órgãos mais competentes, como a Subprefeitura Regional de São Miguel Paulista e as Secretarias de Educação e do Esporte – estabelecendo um diálogo entre ambas – começamos, de imediato, a reivindicar qualquer espaço que pudesse ser utilizado para a prática do skate, como quadras poliesportivas e/ou Bloco Esportivo Cultural (BEC), bem como um espaço para guardar nossos obstáculos, pois entendíamos que primeiro deveríamos ocupar o local para depois avançar com a nossa demanda.


Contudo, embora o CEU tenha uma perspectiva de acolhimento e integração da escola com a comunidade ampliada, evidentemente havia uma certa desconfiança e resistência em receber os skatistas no local. Para se ter uma noção, tínhamos sempre que deixar o skate na guarita quando era preciso conversar com os gestores. Geralmente os gestores eram sempre carismáticos, mas de modo algum aceitavam o skate, alegando que o mesmo depredaria o espaço, uma vez que o CEU não dispunha de nenhum equipamento específico para essa modalidade. Sempre tentávamos driblar a situação utilizando desse mesmo argumento, ou seja, fato de que outras unidades possuíam uma área específica para o skate e aquela não, além da região não dispor de nenhuma outra área de lazer, então nada mais justo que nos fosse cedido um espaço para tal finalidade aos finais de semana.


Foi assim que ao longo de 4 anos por inúmeras vezes nos dirigimos ao local com documentos exigindo um horário e espaço para a prática do skate aos finais de semana. Somente em 2013 foi permitido algumas experiências, entretanto, o espaço cedido era sempre temporário, além de não ter um local para guardar os obstáculos de skate, tendo que carregá-los de casa até o local, antes e depois da “sessão” (desnecessário dizer as dores na coluna que sentíamos). Contudo, após essa breve experiência e depois de muito diálogo, foi assinado um documento que cedia uma quadra para uso aos finais de semana, além de outro espaço no BEC, onde utilizamos para guardar nossos obstáculos (rampas, “caixotes”, corrimões etc.). Assim, ao longo de alguns meses utilizamos o espaço sem nenhum empecilho por parte da gestão.


Infelizmente, como de praxe, logo após a troca de gestão fomos novamente proibidos de utilizar o espaço determinado. Essas proibições acontecem sempre que há troca de gestão, seja do CEU propriamente dito ou direção da EMEF (Escola Municipal de Educação Fundamental), uma vez que a quadra que utilizamos no local fica sob a responsabilidade da direção desse órgão. Até então, todas as proibições sempre tinham como justificativa o mesmo argumento: a de que “o skate depredaria o local”, e como se não bastasse, éramos impedidos de entrar na escola com o skate na mão. A última proibição ocorreu em 2018, após a pintura do piso da quadra, com a alegação de que o skate estragaria o mesmo. Em função dessas proibições nunca abandonamos a ideia de construção de uma pista no local, pois nunca tivemos a garantia de que continuaremos usando o espaço atualmente cedido, que hora é permito e hora não é mais.


Foi nesse contexto que em 2016 formamos o Coletivo Cultural chamado “Ápice Periférico”, com a intenção de organizar alguns eventos como campeonatos de skate e shows com bandas. A ideia era atrair um público e demonstrar à gestão do CEU de que havia um grande público específico do skate e que, portanto, necessitávamos de um espaço específico, não dependendo mais de uma quadra, sendo proibidos de usá-la à cada gestão subsequente. Na época já existia a ideia do Projeto Skate Poético (unir aulas de skate com poesia) no papel, entretanto pouco madura, foi somente em 2017 que o Projeto foi colocado, efetivamente, em prática. De lá para cá o Projeto vem sendo modificado visando seu amadurecimento. Atualmente, ainda utilizamos a quadra poliesportiva do CEU Três Pontes, espaço que não seria o adequado para nosso trabalho, mas devido à falta de uma pista de skate e áreas de lazer livres, é o único espaço que nos resta para realizarmos as atividades do Projeto.


Resumindo, como moradores do bairro e skatistas, logo após a inauguração do CEU em 2008, lutamos por uma pista de skate. Várias promessas já foram feitas, mas até hoje tudo o que conseguimos foi um horário de meio período, aos finais de semana, em uma quadra que muitas vezes, no horário reservado para o skate, temos que dividir com praticantes de basquete ou futebol, coisa que atrapalha nosso Projeto sobretudo no que diz respeito ao momento das aulas práticas de skate, logo o espaço torna-se pequeno e inviável para todos ocuparem ao mesmo tempo.


Juntando nossa luta desde 2008 ao nosso Projeto que tocamos desde 2016, surge a ideia de lutar pelo nosso direito constitucional, lutar por um espaço de lazer, por uma pista de skate adequada para todos os skatistas, não mais apenas nas dependências do CEU, mas também em outros espaços, fato esse que daria mais liberdade para desenvolvermos nossas atividades.


Nunca é demais lembrar que o direito ao lazer está na Constituição – artigo 6º, caput, artigo 7º, IV, artigo 217, § 3º, e artigo 227. O lazer está inserido no capítulo dos Direitos Sociais, e este, por sua vez, está inserido no Título dos Direitos Fundamentais[4].


É com essa finalidade que já há algum tempo visamos o único terreno “disponível” fora das dependências do CEU para a construção de uma Pista de skate, uma vez que todos os terrenos que haviam foram utilizados para construção de “predinhos”, um dique e uma UBS. Este terreno em questão localiza-se na Rua Capachós e pertence à Secretaria do Verde e Meio Ambiente. A área consiste em um espaço de mais ou menos 1080 m² (60x18), e seria ideal para a construção de uma pista “Skate Plaza”.


Em visita na área, constatamos um imenso lamaçal, além de ser um espaço ocioso e ponto para uso de drogas, proliferação de ratos, cobras, mosquitos e acúmulo de lixo.


Além dessas condições, muitas crianças da região sem nenhuma outra alternativa de lazer, no tempo livre de suas obrigações, se apropriam do espaço para brincar, sem noção alguma do alto risco que correm de serem picadas por um animal peçonhento, contraírem leptospirose ou até mesmo se cortarem em cacos de vidro ou arame farpado.


A ideia de mover um abaixo-assinado virtual no que se refere ao uso dessa área é atender uma demanda emergente de skatistas que cresce a cada dia; ter um espaço voltado ao esporte, cultura e lazer; além da aplicação de projetos sociais e organização e promoção de eventos e, sobretudo, atribuir uma função social à uma área abandonada e ociosa que representa riscos a população local. Alguns vereadores já visitaram a área, fizeram promessas, colocaram empecilhos, entre outras artimanhas. Mas o recado é simples, e serve a todos, NÃO QUEREMOS PROMESSAS, QUEREMOS AÇÕES CONCRETAS!


Por fim, o abaixo-assinado já conta com mais de mil assinaturas, envolvendo moradores do bairro e apoiadores da causa. Esperamos atingir o maior número possível de pessoas que se solidarizem com a nossa causa e contamos com a ajuda de todos para que o mais breve possível possamos, todos juntos, comemorar a conquista desse sonho que já dura anos e já passou da hora de ser realizado.


Clique aqui para assinar o abaixo assinado!


Autores:


Kevin Nascimento Silva: Graduando em História pela Universidade Cidade de São Paulo – UNICID, membro do Coletivo “Ápice Periférico” e educador social no Projeto Skate Poético. Colabora como editor na página @histori0logando no Instagram, a qual contribui com diversos textos sobre História e Sociologia.


Nanderson Silveira dos Santos: Prof. de Educação Física, membro do Coletivo “Ápice Periférico” e educador social no Projeto Skate Poético. Criador e editor chefe da página @histori0logando no Instagram, a qual contribui com diversos textos sobre História e Sociologia.


Rafael Souza Alves Diniz: Prof. de História na Rede Pública do Estado de São Paulo e Pedagogo. Atualmente, cursa Letras – Português na Universidade Virtual do Estado de São Paulo - UNIVESP e Filosofia na Universidade Cruzeiro do Sul – UNICSUL, membro do Coletivo “Ápice Periférico” e educador social no Projeto Skate Poético. Colabora como editor na página @histori0logando no Instagram, a qual contribui com diversos textos sobre História e Sociologia.

Notas:


[1] Grito de Ordem do Projeto Skate Poético, criado por Nanderson e Rafael. Uma adaptação dos gritos de ordem realizados em manifestações contra o fascismo.


[2] <https://www.encontraitaimpaulista.com.br/itaim-paulista/ceu-tres-pontes-no-itaim-paulista.shtml>. Acesso em: 10/08/2020.


[3] CANGUSSÚ, L. C. P. Centros Educacionais Unificados de São Paulo: Implementação e Continuidade numa nova Gestão Política. Dissertação. Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo / SP., 2010, p. 46. Disponível em: <http://tede.metodista.br/jspui/bitstream/tede/1180/1/Lilian%20Cangussu.pdf>. Acesso em: 10/08/2020.


[4] BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, [2020]. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm>. Acesso em: 10/08/2020.


Referências:


BRANDÃO, Leonardo. Para Além do Esporte: Uma História do Skate no Brasil. Blumenau: Edifurb, 2014.


BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, [2020]. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm>. Acesso em: 10/08/2020.


CANGUSSÚ, Lilian Cristina Pereira. Centros Educacionais Unificados de São Paulo: Implementação e Continuidade numa nova Gestão Política. Dissertação. Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo / SP., 2010. Disponível em: <http://tede.metodista.br/jspui/bitstream/tede/1180/1/Lilian%20Cangussu.pdf>. Acesso em: 10/08/2020.


Encontra Itaim Paulista. CEU Três Pontes. Disponível em: <https://www.encontraitaimpaulista.com.br/itaim-paulista/ceu-tres-pontes-no-itaim-paulista.shtml>. Acesso em: 10/08/2020.

MACHADO, Giancarlo Marques Carraro. De carrinho pela cidade: a prática do skate em São Paulo. São Paulo: Intermeios; Fapesp, 2014.

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