Clóvis Moura e Fanon contra a mediocridade da intelectualidade colonial

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Existe um medo poderoso que faz eco nas mentes e corações daqueles que estão em um constante estado de aventura intelectual, mas não uma aventura no sentido da disposição para desbravar as realidade, através da ciência, para então, no que for preciso, transformar radicalmente a experiência humana do nosso tempo, trata-se, na verdade, de uma aventura no sentido de se jogar em terreno estranho com o interesse de desvendar um objeto estranho que vive neste terreno por meros caprichos. O terreno é realidade e o objeto são as pessoas. O aventureiro é o intelectual que apreende a realidade não enquanto agente ativo dos seus desenlaces, mas enquanto um hobby que o agrada. O fetichismo de se ter como objeto de estudo as pessoas pobres, vítimas deste sistema-mundo capitalista, não para mudar as condições objetivas da sociedade, mas somente para o bel prazer, preenchimento do próprio ego intelectual.


Não é exagero dizer, os intelectuais que apreendem a realidade pelo simples hábito ou ofício, e não fazem do seu ofício uma contribuição a transformação radical da realidade, tem no sofrimento na parte majoritária da população, um objeto de prazer. O que deixa explícitas as posições neste conflito latente - estão a serviço da ordem vigente. O medo desses intelectuais é, senão outro, a apreensão da ciência para a elaboração de saberes e conhecimento que construam uma prática transformadora da realidade. É o medo da práxis. No entanto, compreender as motivações do medo, não basta. Se faz necessário desvendar as origens da tarefa pela qual dedicam a sua intelligentsia.


Dentre tantas contribuições fundamentais para construir alternativas para o Brasil, Clóvis Moura deixou um legado importante para a reflexão sobre os papéis dos intelectuais. Um grande crítico dos espaços acadêmicos no seu tempo, por estes servirem a ordem burguesa e não contribuírem para a superação dos verdadeiros desafios nacionais que se apresentam ao povo brasileiro. Mais do que isso, Moura aponta que as frações intelectuais brasileiras estão respondendo a uma lógica colonial imposta a condição de ser do Brasil. As características do desenvolvimento histórico no Brasil resultaram em um processo que gerou condições para que o capitalismo se desenvolvesse sob bases arcaicas em termos de relações sociais, entre as razões para tal, encontra-se o escravismo tardio. A permanência da escravidão em terras brasileiras, mesmo após a proibição do tráfico internacional de escravizados em 1850, marcado pela Lei Eusébio de Queiroz, como o centro do desenvolvimento econômico e da razão da sociedade brasileira, perdurando até 1888, beneficiando também os interesses da Inglaterra, país que impôs a condição de dependência para a economia brasileira após 1822, realizando a manutenção do lugar de colônia, antes de Portugal , agora do Império Britânico.


Esse desenvolvimento arcaico do Brasil, com o arcaico servindo ao novo e este último possibilitando a permanência do arcaico para se desenvolver, não é por acaso. Com a submissão da sua soberania nunca conquistada à Inglaterra através da dívida da Independência, o Brasil permaneceu sendo este entreposto comercial, um local de extração de riqueza para o benefício das potências centrais do sistema-mundo capitalista. A condição de país periférico do capitalismo, não se estabelece somente na sujeição econômica de maneira direta. Para que a eterna alma de colônia se fizesse entender da sua própria razão neste mundo, foi necessário que o éthos da civilização brasileira respondesse a essa lógica específica de dominação. O desenvolvimento tardio do capitalismo de trabalho livre assalariado, para fazer permanecer as relações sociais arcaicas, foi um ponto fundamental desse processo, que incidiu na forma particular do racismo brasileiro, colocando a condição de desumanização do negro como condição para essa forma de desenvolvimento.


Essa sujeição de eterna colônia da civilização burguesa, vai se expressar, portanto, na formação da intelectualidade nacional. Ainda recorrendo a Clóvis Moura, o historiador e sociólogo da revolução brasileira, aponta como esse fator na formação da intelectualidade gerou e pariu um pensamento de submissão. A intelectualidade brasileira, em prol da ordem imperialista, se dispôs a ser a porta voz da inferiorização anunciada, colhendo das concepções do pensamento europeu, elementos que analisassem e explicassem o Brasil a partir da ótica das potências centrais do capitalismo. Ou seja, a intelectualidade brasileira se forma com a sua condição ser sendo a construção de mentes e corações colonizados, de um pensamento branco. Num sentido sociológico, não existe nada mais branco do que a imposição do local de não humanidade através da lógica do sistema-mundo colonial do capitalismo.


Ao analisar a psicologia colonial, Frantz Fanon percebe o quanto a formação de quadros intelectuais submissos é parte fundamental do processo de dominação. O intelectual que reconhece e abraça a sua condição de inferiorização, faz da sua razão da sua vida e trabalho, a elaboração da reafirmação positiva da condição de inferiorização nacional. Isso envolve, não somente o reconhecimento favorável da imposição de poder, a busca da humanização através da tentativa de ser o opressor. Se agarrar a epistemologia de dominação ditada pelo opressor estrangeiro, para se reafirmar enquanto alguém próximo a ele, ou a tentativa de ser, renegando no processo, a construção de uma epistemologia radical que rompe com essa lógica, é um processo de desumanização em uma tentativa distorcida de se humanizar. Esse processo faz com que os intelectuais nacionais defensores da ordem, sejam, portanto, necessariamente anti-povo.


A antítese historicamente inevitável ao processo de subordinação do pensamento nacional, se expressa na construção da intelectualidade radical que articula o saber científico com a prática política de transformação profunda da realidade - a práxis. Os intelectuais radicais são aqueles dos quais Clóvis Moura reconhece a real legitimidade, quem realmente faz frente sem medo à subordinação ao imperialismo, aos desafios nacionais e do nosso tempo. Um intelectual para o ser, não tem outra escolha se não a de ser um intelectual radical. É comum e esperado então, que a intelectualidade subordinada, busque atacar e desacreditar publicamente os intelectuais radicais. Esse fenômeno se expressa na matéria publicada no El Pais Brasil em ataque ao historiador e comunista pernambucano, Jones Manoel.


A matéria intitulada “A esquerda radical brasileira desenterra o debate sobre o socialismo real e ganha adeptos nas redes”, em um verdadeiro show de horrores, tenta primeiro demonizar por completo as experiências socialistas do século XX, além de forçar de maneira implícita a teoria da ferradura, comparando a esquerda radical com o extremismo da direita bolsonarista, fazendo coro contra a legitimidade da violência revolucionária e um elogio medíocre a institucionalidade burguesa. Jones Manoel é um dos intelectuais públicos mais importantes do debate nacional na atualidade, além do seu canal no YouTube que leva no título o seu nome, o historiador e militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), publica textos em uma série de sites como a Revista Opera, o site do PCB, Blog da Boitempo, oferece cursos online pela plataforma Classe Esquerda e dirige, ao lado de Gabriel Landi Fazzio, a série Quebrando as Correntes da Autonomia Literária, que busca traduzir textos e discursos de revolucionários da periferia do capitalismo que ainda não chegaram ao país, tendo publicado o Revolução Africana: antologia do pensamento marxista e Raça, classe e revolução – A luta pelo poder popular nos Estados Unidos, que está em pré-venda no site da editora.


Em um trabalho importantíssimo de divulgação científica, assim como vários outros intelectuais públicos como a socióloga Sabrina Fernandes, o advogado e filósofo Silvio Luiz de Almeida, o estudante de Ciências Sociais Thiago Torres - conhecido como Chavoso da USP -, a historiadora Janaína Costa, a estudante de História Laura Sabino, dentre tantas outras pessoas, Jones Manoel segue na tradição de construir uma intelectualidade nacional radical e militante, que vê como único objetivo da sua atividade a construção de alternativas radicais para a realidade material que se impõe diante dos olhos em um país de capitalismo periférico, portanto selvagem como é o Brasil, em um mundo tomado pela violência do imperialismo e expansão do neoliberalismo. A intelectualidade subordinada do El País Brasil, não pôde deixar de responder a sua tarefa de responder a manutenção da condição de exploração e opressão do povo brasileiro, o ataque ao camarada Jones Manoel é um exemplo gritante do a que vieram. O ataque é também contra toda a esquerda radical e a intelectualidade militante. Sem relativismos ao estilo de Gilberto Freyre, a de ser dito que Jones Manoel foi o alvo para atacar a esquerda radical porque é, além de um intelectual radical, um homem negro. Ninguém elucida melhor do que Fanon o desprezo e medo que o estableshment sente pelos intelectuais negros, quando diz que aqueles negros que leem Marx e Engels são considerados os traidores da civilização.


Não existe humanização possível em uma sociedade que desumaniza as pessoas, através do apelo institucional e pacífico aos opressores. É Clóvis Moura quem diz que em uma sociedade que nos desumaniza, só podemos nega-la de forma radical. Também é Fanon quem, ao articular a dialética senhor-escravo de Hegel com a realidade colonial, que alerta ao fato de que se é necessário, para sermos seres-humanos, se impor para o outro, ou seja, o reconhecimento deste outro, e quando esse reconhecimento nos é negado entramos em uma luta aberta, é somente através da luta que nos libertamos na condição de submissão. Somente a luta radical pela transformação da realidade guarda o que é necessário para o fim da exploração e da opressão. O ataque do jornal é um sinal de que essa luta segue dando resultados e que os intelectuais públicos radicais têm cumprido a sua tarefa, o barulho desta festa está só começando e, logo, faremos estes vizinhos se mudarem para longe.


Vinicius Souza é historiador, pós graduando em Direitos Humanos e Lutas Sociais pelo CAAF - UNIFESP e colunista da revista Clio Operária.


Referências


MOURA, Clóvis. Dialética Radical do Brasil Negro. 2. ed. São Paulo: Fundação Maurício Grabois co-edição com Anita Garibaldi, 2014..


MOURA, Clóvis. Sociologia do negro brasileiro. Editora Ática: São Paulo, 1988.


OLIVEIRA. F. B. Modernidade, política e práxis negra no pensamento de Clóvis Moura. Revista do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da USP, São Paulo, v.18.1, pp.45-64, 2011. Disponível em: http://www.revistas.usp.br/plural/article/downlo-ad/74521/78133/ . Acesso em: 30 out. 2020.


FANON, Frantz. Pele negra, mascaras brancas. Salvador: EDUFBA, 2008.


A esquerda radical brasileira desenterra o debate sobre o socialismo real e ganha adeptos nas redes”. Disponível: https://brasil.elpais.com/brasil/2020-10-31/a-esquerda-radical-brasileira-desenterra-o-debate-sobre-o-socialismo-real-e-ganha-adeptos-nas-redes.html


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