• Nicaria Costa

Castanheiras, luta e memória: 25 anos do massacre de Eldorado dos Carajás

Atualizado: Abr 27


É aqui que eu vou ficar, é aqui meu lugar, aqui que eu vou poder construir alguma coisa pra mim de verdade, né? de fato. Sem que a polícia esteja atrás de mim querendo me matar por conta de um pedaço de chão.
(Nita, sobrevivente do massacre de Eldorado dos Carajás) [1]

Quem passa pela curva do “S”, como popularmente é chamada a Rodovia BR – 155, localizada na região sudeste do Pará, de longe consegue avistar os restos do que foram um dia os dezenove imponentes pés de castanheiras que lá foram erguidos. As árvores, afeitas a climas de sol, são um tipo de cartão postal do Norte do país, e cintilam com frequência em obras que retratam essas paragens. De grande estatura e porte, oferecem como fruto e semente a castanha, de contorno arredondado e cor amendoada, que pode ser utilizada na confecção de diversos preparos.


Entretanto, as castanheiras plantadas na curva do “S” não dão mais frutos, tampouco oferecem sombra aos desacostumados com a quentura típica da região. Suas folhas há muito são só lembranças e ao olhar com maior zelo, é possível notar que os troncos nus, foram queimados.


Erguidas teimosamente, após ataques à luta campesina por parte de defensores de uma história única (leia-se: a dos vencedores), as árvores formam o Monumento das Castanheiras Mortas, uma homenagem à memória dos 21 trabalhadores sem-terra que foram assassinados naquela rodovia, em 17 de abril de 1996.


Um dos idealizadores do monumento, o dramaturgo Dan Baron Cohel, ao falar sobre a escolha da espécie para representar o massacre de Eldorado dos Carajás, explica que as castanheiras são árvores comuns no Pará, mas que estão sendo ameaçadas pelo desmatamento por conta dos latifúndios do agronegócio voltados à monocultura [2].


A secura das árvores podadas e sem aparente serventia, são uma alusão à violência enfrentada pelos trabalhadores rurais cotidianamente. Não sem razão, as marcas nas superfícies da madeira são tão presentes. De certo modo, ali também estão as cicatrizes deixadas pelo Estado e seus sicários aos povos privados do acesso à terra.


As trilhas do massacre


As castanheiras de Carajás formam o contorno do mapa do Brasil. Simbólica e materialmente, as árvores ali dispostas se mantêm como lembrança à chacina de 1996, que marcou a trajetória de luta contra a violência no campo e ascendeu uma série de debates sobre os rumos da Reforma Agrária no país.


Naquela tarde de abril, os corpos de dezenove trabalhadores rurais foram atravessados por balas e na estrada se amontoaram sem vida. Outros dois camponeses foram levados ao hospital, mas não resistiram aos ferimentos. Na conta dos latifundiários, da polícia militar e dos governantes o saldo de 21 mortos, 69 mutilados e dezenas de sobreviventes que até hoje pelejam contra a impunidade de seus algozes. [3]


Mas o desenrolar da trama que culminaria no massacre dos sem-terra do Pará antecede o fatídico ano. Em 1995, mais de 3 mil famílias acampadas nas imediações da Fazenda Macaxeira se organizaram para ocupar as terras improdutivas daquela propriedade e tocar o processo de assentamento. Iniciada a ocupação meses depois, a desapropriação das glebas se tornou objeto de conflito. Contrariando o diagnóstico lançado anteriormente, que provava a ociosidade dos terrenos, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – Incra, apresentou um documento deliberando acerca da produtividade da fazenda, situação que destituiria os camponeses do direito de uso e impossibilitaria a desapropriação. [4]


A posição assumida pelo Incra favoreceu os latifundiários da região, já que os trabalhadores rurais passaram a ser enquadrados como invasores e a desapropriação não poderia ser posta adiante. Os camponeses questionaram a veracidade do laudo e o clima de revolta se intensificou. Quando o Instituto de Terras do Pará descumpriu o acordo firmado com os sem-terra sobre o envio de mantimentos e remédios para o local dos acampamentos, cerca de 1.500 famílias camponesas iniciaram uma marcha para a capital do Estado, como forma de protesto. A gota d’agua havia sido lançada.


A peregrinação, que já durava seis dias, se aproximou do seu ponto alto de confronto em 16 de abril, quando os manifestantes, sem recursos para seguirem a caminhada, reivindicaram alimentação e transporte para completar o percurso. Da solicitação pouco caso fizeram, e os agentes de segurança do Estado dinamitaram as últimas chances de negociação.


No dia seguinte, o palco para a chacina estava armado. Na mesma curva do S, que hoje abriga as castanheiras afetadas pelo tempo, a polícia militar, instruída pelo governador e fazendeiros locais, não titubeou em sua função (porque não se espera resultados diferentes de uma instituição forjada para eliminar “detratores”), e deu cabo à vida dos trabalhadores que protestavam por acesso à terra. Os instrumentos de trabalho empunhados pelas mãos calejadas dos camponeses não foram páreos para deter a violência da PM.


Um verdadeiro cerco foi montado, e os sem-terra ficaram encurralados. Ao oeste da BR, os zumbidos estridentes partiam das armas dos policiais do quartel de Parauapebas; ao leste, os tiros e a fumaça das bombas vinham de agentes do batalhão de Marabá [5]. Quando o sol baixou, e aquele dia que pareceu infinito chegou ao fim, formou-se na estrada um lastro de horror.


O acervo documental do período guarda imagens do velório e sepultamento dos 21 de Carajás. Nas fotos, os caixões enfileirados compõem um balé triste de homens despossuídos. As bandeiras do MST cobrem os ataúdes e servem de manto para alguns, que escondem seus braços com o tecido, quase que como um ato involuntário de proteção. Nos olhos de muitos, os sentimentos de tristeza, revolta e ódio se revelam – porque nosso ódio é legítimo e incontornável.


Em uma das imagens que mais repercutiu na época dos fatos, uma senhora segurando uma criança no colo enxuga as lágrimas do rosto pesaroso, e ao fundo, as valas abertas aguardam os corpos sem vida. O registro consegue sintetizar o clima que se abateu sobre o pequeno município paraense após o ocorrido.


Reprodução: Cultura Uol

A atualidade dos conflitos e a importância da memória


O massacre de Eldorado dos Carajás se tornou um dos símbolos do enfrentamento camponês à brutalidade policial. Em memória aos trabalhadores assassinados, a via campesina instituiu a data da chacina como o Dia Internacional da Luta Camponesa e durante todo o mês o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra promove atos de solidariedade com as famílias dos assentamentos.


Entretanto, fazendo um balanço 25 anos após aquele abril sangrento de 1996, o que se pode atestar de mudança em relação aos conflitos agrários no país? Qual a importância de não deixar que casos como o de Eldorado e tantos outros caiam no esquecimento?


Em primeiro lugar, é preciso considerar que a dinâmica de distribuição de terras no Brasil é essencialmente de permanências, muito mais que rupturas. Se tratando da concretização do plano nacional de Reforma Agrária, a situação não difere. Essa constatação por si só já adianta o debate sobre a conjuntura vivenciada no campo nas últimas décadas, já que os principais conflitos registrados em 2019, de acordo com dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT), tiveram como causas as disputas por terra, seguido de contendas por água – envolvendo interesses de hidrelétricas - e questões trabalhistas. [6]


O corte massivo de investimentos nos setores responsáveis pela redistribuição de glebas [7] e a presença do setor privado de mineração em áreas de preservação ambiental, cada vez mais frequentes com o avanço das políticas neoliberais, também aumentaram a violência contra pequenos produtores, indígenas, quilombolas e lideranças de movimentos sociais no campo. Além de toda a lógica de expansão do capital privado, com a facilitação de legislações que favorecem os grandes empresários, a tônica dos conflitos fundiários no Brasil tem como pano de fundo o projeto de fortalecimento do agronegócio, que tem como porta-vozes e agentes, Jair Bolsonaro e sua trupe.


O governo Bolsonaro-Mourão, além de operar ao lado dos grandes latifundiários e conduzir uma orquestra entreguista dos recursos naturais, fabrica narrativas que buscam criminalizar organizações de oposição como o MST e ridicularizar povos originários e demais minorias [8]. Esse tipo de artimanha, encarada por muitos como falta de preparo por parte do presidente e seus ministros, revela a construção de uma história que nega que os conflitos por terra no Brasil tenham raízes fincadas na ascensão de uma elite agrária formada a partir de grilagem, apropriação indevida e derramamento de sangue.


A carteira de identidade nacional, dessa forma, passa a ser gerida a partir de um ideário de país que se orgulha em ser exportador de commodities, que combate as ações dos “marginais vermelhos” [9] e que abraça seu lado mais reacionário. Soa ingênuo pensar que um desgoverno dessa estirpe não seja capaz de reconhecer a centralidade em compor uma narrativa ilustrada pelos e para os seus.


Diante disso, elaborar o passado e erguer uma memória que se aparte desses contornos sombrios é uma das tarefas do nosso tempo. Trazer à tona os fatos daquele abril de 1996 em Eldorado dos Carajás é batalhar pela segurança de nossos mortos, como escreveu Walter Benjamin [10]. É impor presença, assim como as castanheiras do memorial e não deixar que a arquitetura do esquecimento se lance sobre as nossas lutas.


NOTAS:


[1] Trecho retirado do documentário “Nita – Uma sobrevivente do massacre de Eldorado dos Carajás”, de Carlos Eduardo Magalhães e Maria Fernanda Ribeiro. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=cSWNo0SzhM0&t=770s&ab_channel=LaranjeirasCinema Acesso em: 26. Abr. 2021.


[2] CAMBRAIA, Maria Sílvia. Lugares de memória: o monumento do massacre de eldorado dos carajás. FÓRUM > Vol. 0, No. 0 ( 2007 ) - Cadernos de Trabalho – Edição Especial, 2012. Disponível em: https://silo.tips/download/lugares-de-memoria-o-monumento-do-massacre-de-eldorado-dos-carajas Acesso em: 26. Abr. 2021.


[3] https://www.brasildefato.com.br/2019/05/23/curva-do-s-palco-do-massacre-dos-carajas-torna-se-patrimonio-historico-do-para


[4] https://outraspalavras.net/outrasmidias/a-historia-do-massacre-que-o-abril-vermelho-relembra/


[5] BARREIRA, César. Crônica de um massacre anunciado: Eldorado dos Carajás. São Paulo Perspec. São Paulo, v. 13, n. 4, p. 136-143, Dec. 1999. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-88391999000400015 Acesso em: 26. Abr. 2021.


[6] https://www.cptnacional.org.br/component/jdownloads/summary/41-conflitos-no-campo-brasil-publicacao/14195-conflitos-no-campo-brasil-2019-web


[7] Uma leitura que apresenta informações relevantes sobre o avanço do agronegócio e as políticas de corte no Plano Nacional de Reforma Agrária está disponível em: https://reporterbrasil.org.br/2019/11/maior-concentracao-de-terras-revelada-pelo-censo-agropecuario-incentiva-desmatamento-e-conflitos/ Acesso em: 26. Abr. 2021.


[8] https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/eleicoes/2018/noticia/2018/08/29/bolsonaro-diz-que-atos-do-mst-tem-de-ser-tratados-como-terrorismo.ghtm

https://congressoemfoco.uol.com.br/especial/noticias/bolsonaro-quilombola-nao-serve-nem-para-procriar/


[9] Alusão a uma fala de Jair Bolsonaro: https://www.terra.com.br/noticias/brasil/esses-marginais-vermelhos-serao-banidos-de-nossa-patria-diz-bolsonaro,850165ed9dcce5054b8977651c37d720wlk2r22i.html


[10] BENJAMIN, Walter. Teses sobre o conceito de História. In: Walter Benjamin - Obras escolhidas. Vol. 1. Magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura. Prefácio de Jeanne Marie Gagnebin. São Paulo: Brasiliense, 1987, p. 222-232.



Nicaria Costa é Mestranda em História pela Universidade Federal do Pernambuco - UFPE e desenvolve pesquisas sobre o mundo agrário oitocentista. Integra o time de colunistas da Clio Operária.

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