• Clio Operária

Capitalismo: o seu próprio coveiro

Vinicius Souza*



O capitalismo enquanto sistema econômico passa por constantes reinvenções e, conforme Hobsbawm, é um sistema configurado por crises conjunturais. Conforme algumas perspectivas, inclusive a marxista, o capitalismo é o coveiro do próprio capitalismo, ou seja, o desenvolvimento histórico do capitalismo enquanto sistema econômico e suas diferentes crises que configuram seu processo o levam ao próprio colapso. É característica comum desses momentos de crises a miséria se alastrar e ganhar formas extremamente vivas na face dos indivíduos que constituem as classes mais pobres da sociedade. Esse padrão de crise e miséria da sociedade capitalista é visto em diferentes telas e cenas do espetáculo que é pobreza nas ruas dessas sociedades, nos bairros operários, nas grandes periferias e nas favelas.A classe trabalhadora historicamente é quem paga pelas crises do capitalismo, com trabalho, com desumanização, com miséria e com a degradação social da própria existência em meio a uma situação de completa desumanização e transformação do trabalhador em um corpo que tem seu valor diminuído e levado a de um ser não racional, de um ser humano incompleto que, sendo assim, torna-se o escravo do escravo mecânico, esse que nunca cansa e nenhuma das dores sente como sente o trabalhador.


A miséria, trabalho explorativo e degradação gerados pelas crises e pelos processos de reinvenção do capitalismo, geram processos que mexem com toda a estrutura social e chegam a abalar a estrutura política que se vê em meio a um processo transtornado e perigoso a manutenção da própria ordem. Sendo o capitalismo elemento constitutivo da sociedade e sendo o processo constante de reinvenções industriais uma espinha dorsal dessa estrutura, uma crise na produção significa uma ameaça a todo o corpo político, social e econômico que em sua própria existência faz a manutenção do sistema em geral. Dois pontos acentuados de forma bastante precisa por Maria Stella M. Bresciani em sua obra “Londres e Paris no Século XIX: O espetáculo da pobreza” na análise que faz da forma como o Estado e a burguesia industrial enxergam a questão da pobreza em Londres e Paris,são os de que em Londres eram mensurados, no século XIX em meio a miséria gerada pela crise do capitalismo industrial, os seus custo econômicos para o Estado na manutenção da situação e no que fazer com os corpos indisciplinados que fogem ao dever moral do trabalho na sociedade burguesa, já em Paris é especialmente mensurado o custo político, o perigo da acentuação da pobreza gerando o acirramento da luta de classes e um possível fim para a ordem burguesa e a sociedade de mercado.


De um lado, o pensamento da alta burguesia e Estado voltados para a melhor forma de lidar com o custo econômico da pobreza e do outro o custo político da mesma. Se configura então a forma como a pobreza, característica altamente presente nas linhas que desenham a sociedade capitalismo e bastante acentuado por Bresciani em seu caráter estético na formulação da imagem das multidões e das condições de vida nos bairros pobres da Londres do século XIX e nas noites parisienses que extrapolam a moral burguesa e judaico-cristã da sociedade ocidental francesa onde se encontra o crime e a imoralidade da prostituição e jogos como consequência do monstro criado pelo fator de consolidação da sociedade capitalista através da industrialização: a miséria, gera para a sociedade capitalista o seu próprio decreto de morte. O custo econômico, preocupação londrina,acentua como a pobreza extrema gerada pelo não desenvolvimento social junto e impulsionado pelo desenvolvimento do mercado gera um colapso social, pois a transformação do mercado sem as garantias necessárias a classe trabalhadora que, na sociedade capitalista, estão associadas a sua seguridade social, suas condições de trabalho e de consumo para a manutenção e reprodução da sua vida e de suas famílias, o custo de amplo desenvolvimento do mercado, cai na lei do liberalismo extremado, recai sobre as costas que trabalham que são submetidas a jornadas de trabalho extremas, com salários totalmente insuficientes para suas necessidades básicas e, devido a essa condição de consumo material baixa, vivem em casas precárias em bairros totalmente marcados pela miséria, crime e degradação social.Em meio a esse processo de exploração e geração de pobreza profunda, se dá a luz a outra característica do capitalismo que a miséria aprofunda e torna extremamente notável: a luta de classes. A intensificação cada vez maior da pobreza, presente principalmente em momentos de crise ou em situações nas quais o desenvolvimento do mercado fomenta as revoltas, protestos violentos ou pacíficos, criação de movimentos organizados, lideranças operárias e organização da classe trabalhadora enquanto grupo consciente e auto instruído a ação transformadora da sociedade.


Dentro dessa concepção de crise, miséria e luta de classes, o Estado, prevendo o perigo iminente a sociedade liberal burguesa, começa a instituir não só a repressão, mas a disciplina para esses corpos trabalhadores e também para os chamados vagabundos, que não trabalham, mas são consequência direta da geração de pobreza e miséria da sociedade capitalista e se encontram enquanto grupo não pertencente a sociedade e a razão capitalista: “Mais problemática é a situação daqueles que transgridem a lei natural — não trabalham para prover sua própria subsistência, não têm, portanto, lugar no mercado –, estando dessa maneira fora da sociedade racional” (Bresciani, 1982, p. 89). O Estado e os representantes da alta burguesia tem então a tarefa de realizar a disciplina do trabalhador, seja o pobre ou o da extrema pobreza que vive sobre a chama do desemprego,o Estado, então, deve adequar o trabalhador a disciplina da fábrica que, na sociedade industrial, é o fator de disciplina total das camadas mais pobres, dentro ou fora da fábrica, a classe trabalhadora vive sobre a sombra do tempo da fábrica, a vida do trabalhador passa a ser pautada pelo tempo da produção no capitalismo. A própria sociedade exterior a fábrica, para ao trabalhador, funciona como uma engrenagem da produção industrial em seu cotidiano e na forma como seu tempo de vida, seu tempo de viver é pautado e transformado pela fábrica.a vida do trabalhador passa a ser pautada pelo tempo da produção no capitalismo.


A questão de disciplina é bastante ressaltada por Bresciani ao trabalhar ao longo do livro com as Casas de Trabalho que possuíam função, não de acolher, não de caridade e sim de transformação do individuo pobre e desempregado em um trabalhador perfeito da indústria, ou seja: introduzir a fábrica, a disciplina da fábrica enquanto postura social da classe trabalhadora, inserir o indivíduo a lógica de produção enquanto classe trabalhadora, sendo assim, classe explorada na sociedade de mercado. Algo devidamente ressaltado é a forma como Betham, idealizou os complexos industriais que, na própria fábrica, abrigaria os sem teto e desempregados, fazendo da fábrica em si, o próprio alojamento do trabalhador. Pensando em termos de disciplina, os ingleses foram ainda mais longe em considerar a inserção política do trabalhador nos moldes da sociedade liberal,ou seja, a absorção do trabalhador, não enquanto explorado que trabalhava para o fim da sociedade burguesa, sendo assim, do capitalismo, mas, sim, enquanto individuo que poderia viver de acordo com a lei burguesa.


Em cenários de não efetivação da disciplina se tem a eliminação dos indivíduos pobres não inseridos na produção, pois enquanto indivíduos que não se adequaram a razão capitalista da sociedade de ordem burguesa são extremamente perigosos para a auto reprodução desse sistema e eliminados fisicamente, como aponta Marx em sua mais célebre obra, O Capital, onde trabalha com as leis sanguinárias que tiveram inicio na Inglaterra com Henrique VIII, leis essas que condenavam a escravidão e morte indivíduos que não trabalhassem, ou seja, não se adequassem a razão da sociedade capitalista.não enquanto explorado que trabalhava para o fim da sociedade burguesa, sendo assim, do capitalismo, mas, sim, enquanto individuo que poderia viver de acordo com a lei burguesa.


*Vinicius Souza é historiador, pós-graduando em Direitos Humanos e Lutas Sociais pelo CAAF-UNIFESP, militante da Juventude do MTST e escreve para o perfil do Instagram @luzcamerarevolucao.


Referências

BRESCIANI, Maria Stella Martins. Londres e Paris no Século XIX: o espetáculo da pobreza. 8. ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.

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