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Canindé é resistência: 6 Meses da Casa de Referência Laudelina de Campos Melo


Faixa estampa o nome da Casa Laudelina Melo nos primeiros dias da ocupação.



Espremido entre os bairros da Luz, Pari e Brás, o território do Canindé levanta-se no centro do coração da maior cidade da América Latina e constrói-se a partir das contradições urbanas de São Paulo. Foi morada de Maria Carolina de Jesus e dos cantos dos torcedores da saudosa Lusa; tem seu nome reproduzido por uma variedade de sotaques: Canindé é, essencialmente, um bairro da classe operária do mundo todo. E há seis meses, um grupo de mulheres decidiu dar função social a um dos tantos prédios largados à mercê da especulação imobiliária: hoje, a Casa de Referência para Mulher Laudelina de Campos Melo comemora seu sexto mês de resistência.




Violência doméstica e pandemia


Há pouco mais de um mês atingimos a terrível marca de meio milhão de mortos em decorrência da COVID-19: incapacidade administrativa, discursos negacionistas e escândalos de corrupção acompanham o governo genocida de Bolsonaro, que não tem feito esforços para contornar a situação de fome e de desemprego, problemas agravados pela crise sanitária. Dentro desse cenário, as mulheres trabalhadoras nunca estiveram tão vulneráveis: estão isoladas com seus agressores e suscetíveis a diversas formas de violência.

Ainda que subnotificados, os números disponíveis apontam para um aumento exponencial da violência doméstica desde o início do confinamento social: o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos anunciou em março que a plataforma Disque Denúncia (181) recebeu mais de 100 mil denúncias de violência doméstica no último ano. De acordo com os dados disponíveis no site da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, foram registrados 18 casos de feminicídio na capital nos primeiros 5 meses de 2021. Somente na cidade, ocorreram - entre janeiro e maio - mais de 4 mil ocorrências de lesão corporal dolosa. O 12º Distrito Policial, localizado no Pari, a 850 metros da Casa Laudelina, registrou 12 casos de estupro nesse mesmo período.

Dentro desse cenário de violência, um grave problema encontra as vítimas que denunciam seus agressores: elas são frequentemente desencorajadas e constrangidas nas delegacias. O acolhimento, obrigação dos agentes que compõem esses instrumentos do Estado, simplesmente não ocorre. Quantas vezes mais o direito de viver será negado à mulheres vítimas de violência?


Ocupar pela vida das mulheres: a Casa de Referência para Mulher Laudelina de Campos Melo

A especulação imobiliária no centro de São Paulo é grave: são 40 mil imóveis abandonados, que não cumprem nenhum tipo de função social. Nesse sentido, as ocupações urbanas são um importante instrumento de luta não apenas por moradia digna, mas por outros dispositivos que possibilitam uma assistência digna para os trabalhadores mais vulneráveis.


Antes de ser ocupado, o prédio de dois andares que foi, dentre algumas atividades, uma fábrica de cosméticos nos anos 90, permaneceu selado por vinte e cinco anos. Foram quase três décadas sem nenhum tipo de função, até a construção da Casa, realizada pelo Movimento de Mulheres Olga Benario em janeiro.


Atualmente a casa oferece psicólogas, assistentes sociais e advogadas para as vítimas de violência. Além de todo o acolhimento realizado de forma humana, o MMOB contribui para o processo de consciência das mulheres porque não resume suas ações a uma ajuda meramente assistencialista: transformam vítimas em lutadoras sociais, ávidas pela construção de um mundo mais justo e sem classes.

Além de todo o time de assistência, a Casa ainda organiza um brechó semanal com roupas a preço popular; doações de cestas básicas e de itens para crianças como roupas e brinquedos. Toda essa estrutura só é possível através de doações, organização pautada pelo poder popular, formação de militantes e ajuda de apoiadores.


O primeiro atendimento realizado pela casa ocorreu antes mesmo do primeiro dos tantos mutirões de limpeza, tamanha a necessidade e urgência de ocupações como estas. Muitas das assistidas são principalmente migrantes e imigrantes, em especial nordestinas, venezuelanas e bolivianas.



Mulheres realizam mutirão de limpeza nos primeiros dias após a ocupação


Para Tami Ito Tahira, coordenadora da Casa, o abandono do Estado na região é grave: basta ficar poucas horas no local para presenciar pedidos de ajuda por itens básicos de sobrevivência como água e comida. A casa, de acordo com Tami, deseja construir um espaço seguro para as mulheres e um ponto de referência que ofereça cursos de formação política e de especialização que possibilitem a entrada no mercado de trabalho e facilitem a independência econômica das mulheres.

Atualmente a casa aceita doações através da plataforma conjunta com a Casa de Referência Helenira Preta, no apoia.se e pela chave pix: 091.182.556-80


Laudelina de Campos Melo


Mineira e neta de escravos, Laudelina organizou-se no Partido Comunista Brasileiro aos 32 anos, foi importante quadro na organização do povo negro e ousou construir a Associação de Trabalhadores Domésticos, grande experiência de organização da categoria no país, brutalmente reprimida pelo governo Vargas. Trazer a memória de uma mulher negra e militante comunista para uma Casa de Referência da mulher significa fazer viver a memória de uma grande lutadora, além de ser uma importante disputa política pela lembrança do nosso povo.




O Movimento de Mulheres Olga Benário constrói seis casas de referência para mulheres no Brasil: Helenira Preta I e II (Mauá), Mulheres Mirabal (Porto Alegre), Tina Martins (Belo Horizonte) e Laudelina de Campos Melo (São Paulo) e Casa Carolina Maria de Jesus (Santo André)


*Ingrid Munhoz é graduada em Relações Internacionais, estudante de Licenciatura em História pela UNIPAMPA e militante do Movimento de Mulheres Olga Benário.

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