Brasil, sócio menor dos EUA na América Latina

Atualizado: 28 de Mai de 2020




No texto publicado pelo Observatório da Crise, de autoria de Edemilson Paraná, professor dos Programas de Pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal do Ceará (UFC), o autor demonstra, através da observação das concretudes nacionais, como o Brasil está caminhando a passos largos para ser, se já não é, o pior país para se viver durante a pandemia, o que não se trata de medir o nível de desgraças internacionais, e sim de medidas de segurança sanitária e pública.

Nas diversas tentativas – a maioria se tornando uma frustação pessoal – de análise desse momento, notei que um conceito que pode me ajudar, e talvez até ajudá-los, não a achar sentido – já que poucas coisas parecem fazer sentido nesse momento – mas sim, minimamente, não se perder dentro da algazarra política. Esse conceito é o subimperialismo. Ruy Mauro Marini, pensador marxista brasileiro, é um dos expoentes desse pensamento e da TDM (Teoria da Dependência Marxista). Porém, para entendermos melhor o termo, temos que voltar ao conceito do imperialismo. Não irei, não de início, apelar à Lênin, isso porque o líder da Revolução de Outubro não foi o primeiro a enxergar as relações imperialistas.

Para John A. Hobson, por exemplo, o imperialismo é apenas um desvio na busca por territórios para escoar o excedente da produção. Ou seja, não é algo característico ou estrutural do modo de produção capitalista, mas sim um deslize não intencional, que, segundo ele, deriva do baixo poder de consumo das classes médias e trabalhadoras do país central da produção. Logo, a solução é a mais óbvia: uma reforma no mercado interno, possibilitando que as classes que não possuem tal poder de investimento, passem a ter. Seria assim que o mercado exterior teria sua relevância diminuída. É preocupante o fato de Hobson analisar esse processo como algo não intencional, já que o projeto imperialista é pensado. E muito bem pensado.

Já Rudolf Hilferding parte de um emaranhado social-democrático (leia-se burguês) para explicar como, para ele, o capital organizado (?) seria a passagem para o socialismo. Da mesma forma que Hobson, Hilferding enxerga que a produção nacional precisará de mercado para o excedente e mão de obra barata, porém, com uma grande presença do Estado e da burguesia nacional, aliado a organização corporativa, pois, segundo ele, o capitalismo organizativo seria a passagem certa para a mãos operárias. Logo, o capitalismo organizado gera o socialismo, o que não faz sentido, já que não existe um capitalismo organizado.

Rosa Luxemburgo, grande revolucionária polaco-alemã, também expôs sua noção de imperialismo. Para a revolucionária, o imimperialismo seria a disputa dos capitalistas dos espaços não capitalistas. Assim, nessa disputa, quando os espaços não capitalistas se esgotassem, a estagnação econômica seria alcançada, possibilitando o vigor do socialismo. Porém, o imperialismo é justamente o contrário de estagnação.

Enfim (agora apelando), Lênin chega com um salto de qualidade nesse horizonte. Primeiro, é importante notarmos que, diferentemente de seus antecessores no estudo do imperialimso, Lênin enxerga o imperialismo como uma fase do capitalismo, ou seja, o modo de produção persiste, com suas características, e se acentua. Dessa forma, através da concentração e centralização do capital, e principalmente do capital financeiro e dinheiro, formam-se os trustes e cartéis. Esse ponto do capitalismo faz criar uma cisão na classe trabalhadora, que começa a se aproximar de um maior poder de consumo, os levando ao reformismo. Por isso, para Lênin, a luta anti-imperialista é também a luta contra o reformismo.

Ruy Mauro Marini, marxista brasileiro, dedicou grande parte dos seus estudos ao imperialismo, e acabou por desenvolver, a partir de Lênin, o conceito já citado do subimperialismo. Marini começa expondo que o capitalismo precisa necessariamente estender-se para além das fronteiras nacionais, pois sem isso não conseguiria subsistir. Nesse processo de expansão, os países que são os dependentes também precisam cumprir um papel, e esse papel é, muitas vezes, servir como jardim. Gunder Frank diz - o que da nome ao texto - que o Brasil é o “sócio menor dos Estados Unidos na América Latina”. Após a Segunda Guerra Mundial, países como o Brasil conquistaram certa autonomia frente ao dependentismo imperialista, mas jamais quebrando com o nível estrutural que se dá a subordinação.

“Agora quem comanda a expansão sub-regional é justamente o Estado brasileiro, por meio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em direção aos países latino-americanos e a outros continentes, como o africano.” (Sotelo, 2019, p. 141).

O Estado brasileiro, por mais dependente que pareça – e é de fato – goza de uma certa autonomia, sem quebrar com a relação imperialista; ele exprime um maior poder de decisão, comparado aos outros países latino-americanos. Não foi a Argentina, o Chile, ou o México que foram acusados de arrendar terras em territórios africanos. E veja, o continente africano é o maior jardim possível para uma potência europeia ou os Estados Unidos, e mesmo assim o Brasil conseguiu isso para seu plantio de soja.

“Portanto, no fundo não existe interdependência, mas dependência de um país subordinado que goza de uma autonomia relativa frente ao poderia do Estado imperialista que possibilita, pelo tipo de alianças interclassistas e interburguesas, que se entrelace entre ambos o desenvolvimento de um processo expansivo, sem perturbar os poderes imperialistas e seus interesses estratégicos fundamentais.” (Sotelo, 2019, p. 144).

O lucro do país subimperialista é, não indiretamente, mas, diretamente, o lucro do país imperialista. A política expansiva do Estado brasileiro é muito benéfica para a terra do Tio Sam – até porque se não fosse, não nos resta dúvidas de que já teria sido aniquilada – assim, a nação imperialista expande-se para fora de suas fronteiras geopolíticas/geográficas, apropriando-se de recursos intercontinentais.

Contesto um pouco a posição de Adrián Sotelo Valencia quando este demonstra acreditar que a condição brasileira se alterou desde as décadas de 1960 e 1970. Concordamos no fato de que há uma certa autonomia relativa brasileira, representada na expansividade, e não só no continente africano, mas dentro da própria América, quando o governo brasileiro apoiou por diversas vezes, mesmo com Lula, as tentativas frustradas de golpe ao Estado venezuelano. Por isso, para Barack Obama, Lula era “o cara”. O que de fato podemos notar é o papel protagonista do Brasil no Sul, com a participação eminente do BNDES.

“Esse papel dinâmico do Estado brasileiro é indicativo tanto de sua presença eue influência regional quanto de um acordo implícito com o Estado estadunidense para possibilitar esse comportamento sem que necessariamente provoque uma “competição desleal” estratégica e de longo prazo com o Império.” (Sotelo, 2019, p. 146).

Mas, o que tudo isso nos diz sobre a posição e as tomadas de decisões durante a pandemia?

O Estado necessita da manutenção da sua posição na divisão Internacional do trabalho. Isso significa que, com a China caminhando a passos largos para se tornar o centro da hegemonia política, o governo americano precisa se manter como destino final dos recursos que são conseguidos através das políticas expansionistas de Estados subimperialistas, como por exemplo, Israel. A falta de planejamento brasileiro, a baixa ou nenhuma preocupação frente ao vírus, a falta de comprometimento com a população, tudo isso nada mais é do que a política imperial refletida em ações. Paulo Guedes, o Chicago Boy, disse, sem a falta de nenhuma letra, que utilizará dinheiro público para salvar grandes corporações, e isso é só o começo.

Após compreender o imperialismo de Lênin e o subimperialismo de Marini, é possível entender que cada ministro (aparentemente) foi escolhido a dedo para atender uma vontade americana: sustentar a posição de sócio-mor latino-americano do imperialismo. Não se espante com as barbaridades do governo Bolsonaro, porém, lutemos contra cada um delas!


Referências


Uma nota sobre a Teoria do Imperialismo (1902 – 1916). Disponível em: http://www2.marilia.unesp.br/revistas/index.php/novosrumos/article/view/2103.


A “Frente ampla” já existe – e ela está com Bolsonaro: a economia política do impasse brasileiro. Disponível em: http://www.observatoriodacrise.org/post/a-frente-ampla-j%C3%A1-existe-e-ela-esta%C3%A1-com-bolsonaro-a-economia-pol%C3%ADtica-do-impasse-brasileiro?fbclid=IwAR2Urqcb50p6c26vjvrDs23csaoVt80EAQFM3Kml0yoADRyOvSkLBfZTAg


VALENCIA, Adrián Sotelo. Subimperialismo e dependência na América Latina. O pensamento de Ruy Mauro Marini. 1° ed. São Paulo: Expressão Popular, 2019.


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