• Ricardo Normanha

As várias mortes de João Victor

Aos 13 anos deveria ter sonhos, como toda criança deveria ter. Mas o peso da vida massacra os sonhos daqueles que já nascem fadados a morrer.



Crédito da foto: Sérgio Silva - Fonte: Ponte Jornalismo


Era o início de uma noite chuvosa do último domingo de fevereiro de 2017 quando João Victor agonizou. Foi arrastado por dois homens, cada qual com o dobro do tamanho do menino com estrutura física de um passarinho. Ao desfalecer, foi deixado no chão à espera do socorro que chegou tarde. Antes que a noite se estabelecesse por completo, João Victor já estava morto. Mas essa não seria a primeira e nem a última morte de João Victor.


O menino, morador da Zona Norte de São Paulo, desde cedo vivia nas ruas buscando o sustento miserável dos trocados de almas generosas, piedosas ou simplesmente daqueles que para livrarem o peso da consciência, oferecem algumas moedas ou um resto de lanche. Pesada mesmo era a vida de João Victor. Aos 13 anos deveria ter sonhos, como toda criança deveria ter. Mas o peso da vida massacra os sonhos daqueles que já nascem fadados a morrer. A vida lhe foi injusta, como é para a imensa maioria do povo que vive em países de desigualdades abissais. João Victor morreu antes mesmo de ser agredido e carregado por dois homens. Um menino de 13 anos que não pode sonhar, que precisa pedir alguns trocados para se alimentar, que perambula pelas ruas sem esperança de que a vida possa lhe proporcionar um futuro digno, está morto.


É preciso lembrar: João Victor pedia dinheiro em frente a uma loja da rede de fast-food Habib’s, na Vila Nova Cachoeirinha. Incomodados com sua presença, o gerente e o segurança da loja enxotaram o menino [1]. Sua presença poderia provocar a indigestão dos clientes. Insistente, João Victor não aceitou ser afastado aos empurrões. Por sua insistência - ou seria por sua existência? - foi perseguido, agredido, arrastado, morto e deixado no chão molhado. Depois de afastado o perigo que agonizava na calçada, a lanchonete continuou servindo seus clientes. Da mesma forma que o Carrefour seguiu funcionando normalmente após cobrir com dois guarda-sóis o corpo de um trabalhador morto durante o expediente [2]. Os negócios não podem parar. Não por motivos tão desprezíveis como a vida do João Victor ou do Moisés.


Mas João Victor continuaria a ser morto, mesmo após seu coração parar de bater. Sua vizinha, que presenciou o crime, foi impedida pela Polícia Militar de dar depoimento como testemunha pois, segundo os policiais, ela seria apenas uma “nóia” [3]. As investigações do caso tardaram a começar. Não bastasse o fardo da sua existência, o laudo pericial depositava sobre o menino todo o peso de sua própria morte. Laudo que, embora tenha demorado para ser divulgado, foi feito às pressas, em menos de 24 horas após a morte, e apontou conclusões taxativas sobre um possível consumo de drogas, que só poderia ser verificado em um exame que leva mais de 20 dias para sair o resultado [4]. Este mesmo laudo ignorou indícios de agressão. João Victor morreu novamente, ignorado pela perícia.


João Victor foi esquecido. Mesmo por aqueles que, nas semanas seguintes à sua morte, protestaram e boicotaram a rede de fast-food. Na imprensa, seu nome foi desaparecendo junto com os daqueles que são esquecidos, que vivem e morrem sem serem notados. João Victor morria novamente, dessa vez no esquecimento. Seria morto mais uma vez quando o Habib’s ofereceu dinheiro para que sua família abandonasse o caso [5]. A mesma empresa que recusou ao menino o direito de ganhar alguns trocados em frente à loja, disponibilizou 100 mil reais para se livrar do incômodo.


1275 dias depois daquele domingo chuvoso de fevereiro, João Victor ressurge timidamente em algumas manchetes. Mas seu reaparecimento seria apenas para confirmar sua nova morte. O caso foi arquivado a pedido no Ministério Público que entendeu que não havia provas contra os agressores. A decisão do arquivamento se deu em razão da mudança no depoimento de uma das testemunhas do crime, três anos após o ocorrido [6].


Um menino de 13 anos que, como muitos que sofrem o fardo da miséria, era franzino, deveria estar naquela noite de domingo finalizando um dia de brincadeiras. Deveria ter passado o dia jogando bola. Ao cair da tarde, estaria em casa para se preparar para ir a escola na manhã seguinte. Mas João Victor nasceu e morreu em um mundo em que uma só empresa vale mais que o PIB do seu país. João Victor nasceu e morreu em um país que hoje enterra com naturalidade mais de 118 mil pessoas vítimas do descaso. Descaso que o menino conhecia bem. João Victor não nasceu em Cuba.


João Victor, que teve uma vida breve e pesada, não encontrou em nenhuma de suas mortes o alívio para sua existência.



Ricardo Normanha é sociólogo, pesquisador e professor substituto do Instituto Federal de São Paulo.



NOTAS:

[1] https://ponte.org/adolescente-morre-apos-ser-perseguido-por-segurancas-do-habibs/

[2] https://www.cartacapital.com.br/sociedade/carrefour-causa-revolta-ao-cobrir-corpo-de-trabalhador-com-guarda-sois/

[3] https://ponte.org/jovem-morto-apos-perseguicao-de-segurancas-do-habibs-foi-amaecado-diz-pai-da-vitima/

[4] https://ponte.org/advogados-apontam-erros-em-laudo-da-morte-de-joao-victor/

[5] https://ponte.org/habiss-ofereceu-r-100-para-familia-abandonar-o-caso-diz-defesa-de-joao-victor/

[6] https://ponte.org/morte-no-habibs-testemunha-muda-relato-e-justica-arquiva-inquerito/









49 visualizações
apoie.png