• Mariângela Marques

As cinco Marias

Haviam cinco corredores de paredes cinzas, odores diferentes, gradis alinhados.



Haviam cinco corredores de paredes cinzas, odores diferentes, gradis alinhados.

No primeiro, onde ficava a enferma Maria, o cinza era igual, mas o odor parecia orvalho. Era possível colorir aquele olfato vibrante. Durante a noite, sereno de inverno, acumulava-se água suficiente para brilhar no sol do amanhecer sobre folhas verdes, bem verdinhas, que mais lembravam o mate quentinho que seria servido no café da manhã por um homem barrigudo, de bigodão, que vestia bombachas e tinha um tchê gaúcho que só ele – o tio bonachão, soltava quando ela saia da cama. Era o seu famoso bom dia.

Naquele período, Maria visitava a avó todo fim de mês. Iam ela, o irmão mais novo – parece que de nome Augusto – a prima Eliza e a mãe, com um óculos enorme cobrindo seus olhos azuis. O pai ficava, a princípio, para cuidar dos cachorros, mas quando Maria completou 18 anos soube o porquê dele nunca mais ir à casa da avó: a sua mãe. Fora ali que num inverno parecido, o seu pai sumiu sem deixar rastros. Culpou-se até poder sair daquele fim de mundo, como ele dizia.

O segundo corredor também era cinza e abrigava a negra Maria. O odor deste era de sol, um sol que anunciava dias de tempestades atiçadas por Iansã, epahey oyá. As ondas, quando batiam nas paredes, faziam barulho de esperança.

Maria sempre lembrava dos dias de escadarias na Dona Marta, com um biquíni enorme herdado da filha branca da patroa da mãe, cadeira de praia debaixo do sovaco direito, guarda-sol enferrujado segurado pela mão esquerda, isopor com sacolé de frutas variadas nos ombros (ela intercalava entre o esquerdo e o direito) e assobios até a areia. Sabia que no meio do caminho encontraria o meio-irmão, Augusto, filho da Eliza, uma figura linda, rainha de bateria, que se engraçou com seu pai e, por isso, era chamada de assanhada pela mãe e metade do morro.

Do asfalto até a praia era uma longa caminhada, mas os dois não se importavam. Cada sacolé vendido era um sorriso dela e uma piada dele. E era assim até pisarem na areia, abrirem a cadeira e o guarda-sol, estenderem-se no chão e olharem aqueles enormes prédios que suas mães trabalhavam.

O terceiro corredor, que sem novidade nenhuma, também era cinza, acomodava a índia Maria que zombava do cristianismo de batizado do seu nascimento. O odor de terra úmida, de calor intenso, de vento escasso da fronteira com o Paraguai, assentava a terra vermelha que coloriu sua infância.

Quando Augusto, seu pai português, chegava do roçado, Maria corria para seus braços e contava as brincadeiras da escola. O pai, suado de vermelho, ouvia atentamente enquanto sua mãe, de pernas cruzadas, observava o afeto tão comum na tribo que ela viveu até fugir com o homem amado. Eliza, forma carinhosa com que o pai chamava a mãe, tinha um nome esquisito de gente ignorante, que era o que seus professores diziam em sala de aula. Os índios, componente do folclore brasileiro, são ignorantes.

No quarto corredor estava Maria, também de pele exótica, num corredor cinza perto do Rio Negro, donde já se pode imaginar a descrição do odor, talvez a cor da terra, o verde das árvores, o assovio do vento.

Quando menina, Maria viajava de barco por aquele rio com um homem suado, barrigudo e enojado. Augusto era seu nome. Ele, que dizia ser o bem feitor dos grileiros, estuprou Eliza, sua mãe, quando ela estava com 13 anos, mal tinha começado a sangrar e, como para ela, aquilo era amor, apaixonou-se por ele.

Havia sido ninada nas redes daquele barco que subia e descia levando gente, levando turistas made in USA com máquinas fotográficas penduradas em seus pescoços azedos, cheios de caroços vermelhos porque eram alérgicos aos insetos amazonenses, levando madeira, levando mudanças, levando casais apaixonados, levando jovens aventureiros e drogados.

O quinto corredor, de cor cinza, iluminado por uma lâmpada rodeada de besouros de chuva, abrigava Maria, carregada de um sotaque sertanejo que lembrava Lampião e Maria Bonita, daí seu nome.

Eliza, sua avó, soube da mãe de Maria pela última vez quando ela nasceu e, ainda com placenta, foi entregue para sempre. Sua avó foi parteira na cidade, por isso ela conhecia “Deus e o mundo”, como dizia aquela velha de pele enrugada, toda ressecada, poucos dentes na boca e um sorriso embriagante.

Parecia que quando menina ela não vingaria, então sua avó implorou para que o Padre Augusto a levasse no hospital da cidade vizinha e contasse tudo o que ela ditaria, afinal, mulher parteira não tem tempo de aprender a escrever, mas o Padre Augusto, que muito percorrera pelo Brasil, sabia bem que não havia doença naquela menina, mas havia desnutrição. Foi graças a desnutrição que Maria aprendeu a ler e escrever no convento que ficou até completar 18 anos e, juntando o pouco que sua avó e ela tinham, mudou para a capital porque queria ser doutora.

Quando a noite caía, os corredores cinza, paredes imundas, gradis enferrujados e odores horríveis as faziam acordar.

Quando Maria, que se casou aos 21 anos, foi internada no hospício pelo próprio marido, porque, dizia ele, “esta mulher está louca", tinha perdido o filhinho depois de ter sido espancada na rua. Alegaram que ela, acompanhada de um negro haitiano, acobertara o roubo a um posto de gasolina cometido pelo preto imundo. Sorte a dela não ter morrido como morreu aquele cão sem dono. Mas a história real era de que Maria tornou-se amiga daquele negro haitiano porque no posto de saúde, onde fazia o acompanhamento de pré-natal, ela conheceu Mary, esposa de Auguste, o negro haitiano, ambos professores universitários que fugiram de seu país para conseguirem ter paz e criarem seus filhos. O que ele fazia no posto de gasolina? Foi comprar chocolate para o filho mais novo. Quem roubou aquele posto? Foi um menino branco, filho do comerciante da Loja Central da cidade, quando ele, bêbado, apontou uma arma para a cabeça do funcionário na hora em que Auguste foi pagar pelo chocolate.

E por isso Maria tornou-se louca, onde já se viu uma loira, linda e de olhos azuis, ser amiga de gente suja que invade o nosso país?

Já Maria, que tinha quase 30 anos, resolveu abrir as portas do terreiro para a festa de Exu, seguindo o ritual que a família, toda de santo, praticava desde antes dela nascer. Mãe de santo amoroso como ela, só mesmo sua avó.

Vestiu-se de Pomba Gira, Dona Maria Padilha, e girou, fumando seu cigarro, bebendo seu champanhe, rindo alto, cantando pontos, dançando compassado com os atabaques. A saia rodava, rodava que parecia cata-vento de Oyá, trazendo ventania, aguardando a trovoada.

Na casa lotada, entraram pessoas segurando suas bíblias amarrotadas, chutando orixás, exorcizando filhas de santo, segurando filhos num canto do terreiro. Quando chegaram até Augusta, que era Augusto de nascimento, cuspiram na cara. Ele era o pai pequeno e zelava, tal qual a irmã, a casa onde tanta festa aconteceu. Imagina só, homem fingindo ser mulher! Só podia ser coisa do Satanás.

Maria correu para salvar seu altar, correu para ajudar seu meio-irmão, correu para acalmar suas filhas, correu para soltar seus filhos. Parecia um furacão, mas o traficante chegou e, aquele molequinho que ela deu balas de Cosme e Damião, agora convertido no evangelho, devolveu as balas, só que essas de pólvora. A bala, que ricocheteou no teto, quando acertou alguém, matou. Ele, que subornava a polícia militar, pagou para prenderem aquela mulher, que estava num dia de festa, em festa.

As Marias, índias, ou quase índias, se conheceram quando foram para a Universidade. Imagina que orgulho! Duas mulheres pobres, enfim, estudando numa universidade pública. No primeiro dia de aula elas se amaram. Os olhares fuzilaram seus corações. Ardiam de paixão, mas elas ainda não sabiam que se amariam tão loucamente.

Tinham a mesma idade, a mesma ideia, o mesmo orgulho. Seriam biólogas. Uma queria estudar o habitat dos peixes do seu rio, a outra o habitat dos bichos que escapavam dos latifúndios. Como ambas precisavam morar numa república, resolveram morar juntas num cubículo. E como foram felizes!

Juntas conheceram as violências. A primeira violência foi a que escravizava os boias-frias daquelas enormes fazendas de gado. Elas achavam que se denunciassem seriam chamadas de heroínas. Depois veio a violência que queria corrigir o amor pecaminoso que praticavam, amor que para uns era luxúria da punheta que ludibriava duas mulheres juntas e que, para outros, era o asco do que Deus proibia. No final, a violência que as separou foi a do dia que coturnos recém engraxados, que chutavam tudo que tinha pela frente, invadiram a universidade. Elas correram para proteger suas pesquisas, mas, naquele exato momento, prenderam estudantes que acampavam na frente da Reitoria pedindo regularização das bolsas.

- Qual foi a alegação contra elas, sr. Augusto?

- Comunistas! Duas mulheres juntas, casadas, só podem ser feministas e comunistas.

Foram separadas.

Quando Maria terminou o doutorado, na capital, resolveu voltar para o sertão.

Naquela altura da vida, a avó já havia falecido, o segundo filho estava a caminho, o marido terminava uma escultura e ela andava angustiada. Quando ainda estava no curso de arquitetura ela recebeu uma carta dizendo que sua mãe a esperava, ansiosa por conhecê-la, mas ela não sabia se queria. Daquele dia em dia, todo mês de janeiro, por quase 10 anos, uma carta chegava perguntando quando ela iria ao encontro, ou se ela permitia a visita da mãe.

Já era sabido na cidade que a mãe, ao dar a luz e fugir, escapava de um velho que a violentou seguidamente, por meses, em troca de comida, mas que quando viu a barriga crescendo, chutou tentando fazê-la perder o bebê. Mas aquela mulher tinha nascido para cair em desgraça. Fugiu para viver com um gringo, um italiano que havia chegado naquela praia nordestina para relaxar. Augusto, de pele clara, olhos amendoados, alto, cabelos escuros, levava consigo mais de dois quilos de cocaína. Caiu ele, caiu ela.

Quando voltou para o Brasil - e Maria soube - tentou ver a filha para esconder o passado, mas o seu passado escondia desprazeres. Maria foi presa, com o título de doutora, malas prontas para o sertão, quando a mãe lhe disse que havia matado seu amor porque queria voltar a ser livre. As duas mal se conheceram e, agora, são criminosas.

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