• Ricardo Normanha

Arte e capitalismo: da realização de si à subsunção ao capital

[...] levantar o véu da produção artística no âmbito da indústria cultural e da arte enquanto mercadoria possibilita a compreensão de que o artista, para garantir sua subsistência, acaba por integrar-se ao processo produtivo, de modo a adequar sua produção artística às regras e exigências do mercado



Charge: Laerte


O campo das artes foi quase sempre visto como um espaço autônomo de trabalho, onde as leis do mercado não imperam como ocorre na produção material de mercadorias e serviços. No entanto, uma análise histórica permite apontar que o modo de produção capitalista deixa marcas fundamentais na estruturação da arte.


Para o sociólogo francês Pierre-Michel Menger, existem ao menos quatro posições distintas para se observar a relação da arte com o capitalismo. A primeira delas é aquela que sugere a exterioridade das artes em relação às outras esferas da produção material. Há também a visão que concebe a arte submissa ao mercado, a que reflete sobre a diluição da arte no capitalismo e, finalmente, aquela que percebe um movimento de evolução homólogo entre as diferentes esferas da produção, inclusive da produção artística.


Na concepção de Hegel, de acordo com o sociólogo Celso Frederico, a arte é a manifestação sensível do Espírito, “é uma representação que nos conduz a uma realidade diferente de nosso cotidiano” (FREDERICO, 2004, p. 5). Nesse sentido, a arte seria uma expressão mais elevada e verdadeira do que a experiência do cotidiano. Partindo da crítica ao sistema filosófico hegeliano e estabelecendo uma diferenciação entre objetivação e alienação – que na obra de Hegel são termos análogos –, nos Manuscritos de 1844, Marx busca diferenciar o trabalho livre do trabalho estranhado[1] e, nesse esforço, encontra nas atividades criativas um caráter extraeconômico. “O trabalho artístico é concebido como modelo de trabalho não alienado[2] através do qual o sujeito se realiza na plenitude de sua liberdade exprimindo as forças que fazem a essência de sua humanidade” (MENGER, 2005, p. 49). Dessa forma, Marx compreende que, tanto o trabalho quanto a arte são atividades inscritas no processo de objetivação material e não material que permitem ao homem separar-se da natureza e diferenciar-se dos animais. Assim, para Marx, a arte é a práxis pela qual o homem se afirma ontologicamente (FREDERICO, 2004).

Como uma das formas de objetivação do ser social, a arte possibilitou ao homem afirmar-se sobre o mundo exterior pela exteriorização de suas forças essenciais. Liberta da premência da necessidade imediata pela ação do trabalho produtivo, a atividade artística surge em seguida como uma nova forma de afirmação essencial que o homem pode modelar “segundo as leis da beleza”. Ela é um novo campo de atuação que guarda uma relação com o processo material, mas possui uma especificidade, “leis” próprias, impondo uma relação determinada entre a ideia e a matéria e exigindo um referencial teórico específico para ser analisada (FREDERICO, 2004, p. 15).

Outros autores, como André Gorz, Antonio Negri e Maurizio Lazzarato, que seguem essa análise marxiana da atividade artística imaterial, observam na tarefa do artista a potencialidade da emancipação humana através do trabalho, uma vez que nesta atividade estariam inscritas as dimensões da inovação, da criatividade, da subjetividade e da autonomia. Em outras palavras, na perspectiva desses autores, o trabalho artístico imaterial seria incompatível com a teoria do valor de Marx, pois sua natureza é irredutível a uma medida de tempo necessária para a sua realização.


Assim, o trabalho imaterial estaria imbuído de grande potencial revolucionário, visto que escapa à lógica do capital e não está submetido a um processo de exploração, sendo radicalmente autônomo. No entanto, essa concepção utópica da atividade artística presente na obra de Marx e de outros autores, como os referidos acima, não nos permite aprofundar em questões inerentes ao mundo das artes tais como a desigualdade de talentos, comparações interindividuais que levam à concorrência, a hierarquia e, por fim, a especialização, que se inscrevem neste universo. Esta concepção também não coloca em relevância o papel da Indústria Cultural na produção artística. Nesse sentido, seguindo a orientação de Florestan Fernandes, a obra de Marx deve se constituir como um ponto de partida e um referencial teórico e prático, e não uma fórmula estanque na qual se força o encaixe de realidades distintas daquelas analisadas pelo teórico alemão. “Para reestabelecer a validade do marxismo, na economia ou na prática revolucionária, seria preciso construir uma nova teoria e uma nova práxis, que mantivessem algumas premissas das ideias originais de Marx, mas partissem da situação existente” (FERNANDES, 2009, p. 7).

Maria Inês H. Peixoto, filósofa e educadora, ressalta que, de alguma maneira, a arte sempre esteve vinculada ao poder, mesmo nas sociedades que antecederam a sociedade capitalista. Essa relação entre arte e poder orienta também outras mediações, como a do artista e seu público e do artista com sua própria obra. Dessa forma, enquanto na Idade Média o artista configurava-se como um funcionário da corte, sujeito ao mando e ao gosto da nobreza, na Idade Moderna, com a consolidação do modo de produção capitalista, o artista passa a gozar de uma pretensa liberdade de criação, ao mesmo tempo que “liberta-se” do trabalho na corte, como funcionário. Norbert Elias, ao retratar a vida de Mozart, aborda justamente essa transição, analisando na dimensão individual, uma luta de classes que se travava em escala social. Ao optar pelo trabalho fora da corte, Mozart encarna a figura do artista livre, mesmo antes dessa figura consolidar-se socialmente. Enquanto a regra era ser assalariado, o gênio da música torna-se uma exceção, optando pelo trabalho autônomo. Para isso, dependia do seu círculo de relações dentro da nobreza. Este processo consiste numa mudança da arte de artesão para a arte de artista e uma alteração no equilíbrio entre o artista e seus consumidores. Na arte de artesão, pesa mais o gosto do consumidor – patrono – canalizando a “inspiração” do artista de acordo com as preferências de quem o mantinha. Na arte de artista, o próprio artista define sua imaginação, de modo que o grande público possa apreender a visão do artista a partir de sua obra (ELIAS, 1995).

No entanto, num sistema de mercado, essa liberdade do artista nunca é plena. A receptividade das obras no mercado de arte influencia e, muitas vezes, determina a própria criação artística. No momento em que a obra de arte assume a condição de mercadoria, os indivíduos-consumidores conferem a ela sentido utilitário, esvaziando-a de sua objetivação da totalidade humana; o valor comercial sobrepõe-se e encobre o valor estético; o valor de troca impera sobre o valor de uso. Para os pensadores da Escola de Frankfurt, sobretudo Adorno e Horkheimer, a arte verdadeira é justamente aquela que se rebela contra a lógica do capital e é insubmissa ao mercado. Dessa forma, a obra de arte só consegue ser verdadeiramente rebelde e antagônica ao mercado quando rompe de tal maneira com suas próprias convenções e foge das categorias comuns de percepção estética. No entanto, ressalta Menger, “a inovação corre sempre o risco de se fechar sobre ela mesma, de se abandonar à pulsão abstrata da novidade a todo custo, vazia de toda a repercussão social” (MENGER, 2005, p. 54-55). Além disso, o mercado vê nas inovações possibilidades de ganhos e aciona mecanismos para apropriar-se delas.


Nesse sentido, o trabalho artístico apresenta-se numa primeira análise, ainda no nível da aparência, como a negação do trabalho no capitalismo. Sem desconsiderar todas as ressalvas elaboradas quanto à reprodução técnica e em série das obras de arte no contexto da indústria cultural, o trabalho artístico ainda pode ser considerado dotado de um caráter autoral, ou seja, o artista é capaz de imprimir sua individualidade no produto de seu trabalho, ao contrário do trabalhador da produção material, cujo trabalho é estranhado. Contudo, levantar o véu da produção artística no âmbito da indústria cultural e da arte enquanto mercadoria possibilita a compreensão de que o artista, para garantir sua subsistência, acaba por integrar-se ao processo produtivo, de modo a adequar sua produção artística às regras e exigências do mercado.

Desse modo, o artista desumaniza seu trabalho e a si próprio. Sua obra coloca-se a serviço da reprodução de um sistema e de uma consciência social e histórica que não lhe é própria. O trabalho artístico, antes visto como livre, autônomo e propriamente humano, deixa de sê-lo e transforma-se em um trabalho fincado nos limites da lógica da acumulação de capital.





Notas:

[1] Jesus Ranieri ressalta a importância da distinção entre os termos alienação e estranhamento na obra de Marx, que, embora tenham significados próximos e façam referência às formas de apropriação do excedente de trabalho no capitalismo, aparecem em seus escritos com conteúdo distintos. Assim, para Ranieri, “Entäusserung [alienação] significa remeter para fora, extrusar, passar de um estado a outro qualitativamente distinto. [...] Entfremdung [estranhamento], ao contrário, é objeção socioeconômica à realização humana, na medida que veio, historicamente, determinar o conjunto de nossa socialidade – através da apropriação do trabalho, assim como da determinação dessa apropriação pelo advento da propriedade privada” (RANIERI, 2010, p. 16).

[2] Como se percebe, a tradução portuguesa da obra Retrato do Artista como trabalhador de Pierre-Michel Menger, utiliza o termo alienação no sentido de estranhamento, conforme ressalva Ranieri (2010).


Referências:

ADORNO, T.; HORKHEIMER, M. Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.

COUTINHO, A. Teorizações do trabalho imaterial: a produtividade do artista no mundo do trabalho. Cadernos CEMARX, Campinas, n°8, p. 49-64, 2015. Disponivel em: <https://www.ifch.unicamp.br/ojs/index.php/cemarx/article/view/2238>. Acesso em: 15 março 2018.

ELIAS, N. Mozart - Sociologia de um gênio. São Paulo: Zahar, 1995.

FERNANDES, F. Nós e o marxismo. 1ª. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2009.



Ricardo Normanha é sociólogo, professor e pesquisador.


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