• Clio Operária

Antagonismos da sociedade capitalista: Cidadão de bem X Marginal

Vinicius Souza*


A morte é o fim, independente da sua crença, a morte marca um fim. Seja o fim determinante ou o fim de um ciclo material. De qualquer forma, a morte significa uma ausência material e imaterial. Material porque é o fim do corpo físico de quem morreu, o último suspiro do corpo físico. Imaterial, pois quando morremos, com nós vai quem somos, nossa essência, aquilo que construimos para além do nosso corpo físico, aquilo que somos. Nossa morte é uma ausência para alguém e uma ausência a mais para o mundo.


No Brasil, um dos lugares com mais gente preta no mundo, um jovem negro morre a cada 23 minutos. A cada 23 minutos uma ausência nova é gerada para as pessoas negras, um novo fim é determinado para as pessoas negras. Vidas ceifadas aos montes, corpos e mais corpos. Um cenário eterno de colônia. Se você é negro, você pode ser um novo dado. Na padaria, no mercado, na rua, comprando pipoca, buscando o filho no curso, estando com um guarda chuva na rua ou lutando por aquilo que são os nossos direitos.


Ser negro é como carregar uma série de códigos históricos que podem te desumanizar, pois são ativados ou não com o contato com o outro. Ser negro é carregar o peso do maior holocausto da humanidade, da maior tragédia organizada que o ser humano poderia ter cometido. Ser negro, no mundo pós-colonial é carregar o estigma da não humanidade. No país fundado pelo colonialismo europeu, brancos e pretos vivem o antagonismo do humano ser todos e tudo aquilo que é branco e do não humano ser todos e tudo aquilo que é preto. Isso em uma sociedade fundada cinco séculos atrás, porém, que nunca sofreu uma mudança profunda e radical na sua estrutura social e política, o resultado: UM JOVEM NEGRO MORTO A CADA 23 MINUTOS. GENOCÍDIO.


Um jovem negro é torturado a sangue frio pelo segurança de um mercado. Agora inicia-se um processo de manipulação da opinião pública e, posterior a isso, da memória social em torno da violência. O antagonismo CIDADÃO DE BEM VS JOVEM NEGRO é a cereja do bolo nesse processo, assim como foi quando um jovem negro foi sufocado por um segurança dentro de um mercado. Isso englobada dois fatores sociais que giram em torno desse antagonismo.


Primeiro, já possuindo os parâmetros da construção, estupidamente contraditória, do que é o cidadão bem, a sociedade já tem as armas para qualificar a vítima como marginal, como o contrário de tudo isso. O mercado alega que houve tentativa de furto, ou seja, o mercado o aponta como aquele que toma pra si a propriedade privada que, de alguma forma, no senso comum é entendido como conquistada a duras penas de trabalho. O que já coloca o jovem na contra mão do cidadão de bem. No caso do sufocamento, foi divulgado que o rapaz possuía problemas mentais e era dependente químico — o julgamento social, operando na lógica do cidadão de bem, assume que alguém que tem problema mentais “não é louco o bastante” porque tentou cometer um crime. Aquela velha máxima do “o louco sou eu que acordo cedo e trabalho”. Para a sociedade proibicionista e moralizante a dependência química gera mais uma condenação que reduz o nível de humanidade da pessoa que carrega tal doença. No caso do chicoteamento no mercado, foi pressuposto ao máximo a lógica sadista de que quem atenta contra a propriedade privada deve ser desumanizado, pois aquele que a conquista através do roubo e não do trabalho assalariado, está fora da razão da sociedade burguesa, ele não tem espaço, pois, sua vida, não está submetida a lógica fábril de produção. Na periferia do capitalismo, a desumanização é um fator constante de controle social, então, ele, não deve ser nem disciplinado, ele deve ser completamente desumanizado.


Segundo, essa junção de fatores sociais, morais, económicos e culturais leva a um processo de banalização da vida humana. A redução da vida a um parâmetro moral de postura social moldado pela objetividade coletiva forçada pelo grande capital e o modo de vida na sociedade de mercado. A memória social desses casos, provavelmente não será diferente da que se constituiu no assassinato do garoto João Victor na porta do Habib’s, executado por um segurança por estar pedindo na lanchonete. A sociedade, de maneira geral, tem uma recordação, a nível de massa de que um garoto drogado estava pedindo na porta de uma loja e incomodando a vida dos trabalhadores que não precisam disso pois trabalham e não são viciados. Mortes legitimadas pela banalização social em torno da violência e da vida humana que não assume determinados parâmetros de convivência na sociedade capitalista. Soma-se isso ao fato de serem pessoas negras e, bingo, mais um caso perfeito de “vagabundo que não trabalha e rouba ou pede pra se drogar”. Seja na morte ou na tortura, a relação dialética que constitui burguês e trabalhar, trabalhador e não trabalhador, então, este ultimo um corpo que deve ser desumanizado e eliminado ganha sua expressão máxima de violência, quando em volto do sintoma social-colonial antagônico BrancoXNegro, encontra-se o máximo do seu potencial violento.


Seja lá onde estiver, se você for negro, resista. Organize os nossos, revolte-se e revolte os outros. A única coisa que temos a perder são as nossas correntes! Rumo ao socialismo, a destruição do racismo é a destruição do capitalismo!


*Vinicius Souza é historiador, pós-graduando em Direitos Humanos e Lutas Sociais pelo CAAF - UNIFESP, militante da Juventude do MTST e escreve no perfil do Instagram @luzcamerarevolucao.

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