Amarelo: Joguemos juntos essa pedra para ontem

Atualizado: Jan 21

Imagem: Comonerd

No carnaval de 2018 todos nós fomos presenteados com o incrível desfile da Tuiti que trazia consigo uma perspectiva sobre a narrativa histórica do que é e como se estrutura o Brasil. Dos navios negreiros a Michel Temer e o neoliberalismo genocida, o desfile da escola carioca não partiu de um olhar qualquer, mas buscou interpretar a longa, recente e contraditória história do Brasil a partir da experiência negra, periférica e das favelas. Assistindo ao vivo ou a gravação posteriormente, é difícil até mesmo pensar em outro espetáculo tão grandioso em conteúdo, estética e sensibilização tão cedo. O desfile parece atemporal, ao mesmo tempo rápido e sem fim anunciado. Profana a perspectiva de um tempo linear, trazendo à luz o passar dos séculos e as relações históricas, não na linearidade positivista, mas no todo condensado, no passado, presente e futuro, na memória, crítica e poesia do futuro. Difícil de imaginar um outro processo igual, até que aconteceu com Amarelo, de Emicida.


O documentário lançado em fins de 2020, produzido pela Netflix e pelo Laboratório Fantasma, cumpre semelhante função em comparação ao desfile da Tuiuti, Amarelo traz uma narrativa histórica sobre o trabalho livre assalariado pela perspectiva do negro brasileiro. É a história a contrapelo, fugindo dos positivistas que foram duramente combatidos pelos franceses em 1929 e antes por Marx e Engels em 1846. Amarelo é um apelo e um grito de liberdade em nome do verdadeiro desenrolar da existência humana e das suas contradições, ou seja, da verdadeira matéria prima da história humana. Se os livros didáticos produzidos pelo Estado dizem ser o negro um objeto, uma coisa e, quando ser humano, um mau cidadã - secundário e esquecido, Amarelo vai na contramão de tudo isso e reivindica o samba, o terreiro, a militância - Frente Negra Brasileira e Movimento Negro Unificado - como partes pulsantes da história brasileira, tanto quanto os grandes políticos, chefes militares e grandes feitos políticos e institucionais.


O documentário, acompanhando cada música do álbum que leva o mesmo nome e que teve uma apresentação histórica em um show no Teatro Municipal de São Paulo, instituição inspirada na arquitetura e urbanização da França burguesa e que serve ao entretenimento da burguesia paulista, aliás, esse show foi um feito histórico da história da música brasileiro, traz em uma narrativa pessoa de Emicida, a importância da luta enquanto parte fundante da história. O ditado “Exú matou um pássaro ontem com uma pedra que jogou hoje”, trata-se da premissa de que a história da luta negra é a história de continuidade, uma história de longa duração. Não se trata de a cada passo tentar garantir resoluções vazias dos nossos problemas, mas de garantir o futuro. O racismo é um problema tão antigo quanto o capitalismo e se caminhamos para a superação de ambos, foi graças a continuidade histórica das nossas lutas. Nossos ancestrais, não em um sentido essencialista, mas na construção de tradição radical de estratégias de sobrevivência e projetos de mundo, nos trouxeram até aqui e matando o racismo e o capitalismo hoje, vamos acertar com essa pedra um pássaro com cerca de 600 anos de idade.


O documentário Amarelo, assim como o álbum, cumpre o papel de ser parte do impulso que Emicida tem dado para a força de arremesso desta pedra, obra prima da experiência negra.


Vinicius Souza é historiador, professor de História, pós graduando em Direitos Humanos e Lutas Sociais pelo CAAF - UNIFESP e apresentador do podcast 20 de novembro.


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